Acordo com a luz da manhã a infiltrar-se pelo quarto. As cortinas são abertas pela camareira, deixando entrar o sol claro de um novo dia. Pisco os olhos, incomodada, ainda cansada, com o corpo pouco disposto a obedecer à rotina. No entanto, há algo naquela luz, naquela claridade insistente, que me arranca um suspiro involuntário.
— Vai ser um dia bonito — diz a camareira, com um sorriso breve, quase cúmplice.
Não respondo de imediato. Limito-me a observá-la pelo espelho enquanto se aproxima para me ajudar a levantar. Há uma estranha ironia em tudo aquilo: um dia bonito, quando sei que o meu destino já começou a ser traçado por outros.
Ajudada por ela, preparo-me como de costume. Lavo o rosto, deixo que me penteie o cabelo, escolho um vestido simples, adequado à manhã, de tecido leve e cor clara, sem adornos desnecessários. A camareira ajusta-o com precisão, como sempre fez, certificando-se de que tudo está no lugar antes de se afastar.
Desço depois à sala de refeições. O pequeno-almoço já me espera. Sento-me e bebo uma chávena de café quente e reconfortante, acompanhada de uma torrada estaladiça e um pouco de bolo simples, apenas o suficiente para acalmar o estômago. Não tenho grande apetite, mas faço o esforço.
Assim que termino, levanto-me.
— Vou ao jardim — digo, quase para mim mesma.
O ar da manhã recebe-me com suavidade assim que atravesso as portas. Gosto daquele momento do dia, quando tudo ainda parece em ordem, antes das exigências e das palavras. O jardim está especialmente bonito. As roseiras encontram-se carregadas de flores, abertas, vivas, como se não conhecessem prazos nem ameaças.
Caminho devagar pelos trilhos de pedra, acompanhada pela camareira. Observamos as plantas, os canteiros bem cuidados, o verde intenso que me traz sempre alguma paz. Falo-lhe das rosas, de como parecem mais fortes naquele ano, e ela ouve-me atentamente, como sempre.
— Estão mesmo bonitas — concorda.
Continuamos a caminhar, trocando comentários leves, quase banais. É então que ouço algo: um som ritmado, discreto, vindo mais adiante. Passos. O atrito de ferramentas na terra. Abrando o passo sem perceber porquê, como se algo tivesse captado a minha atenção antes mesmo de eu saber o que era.
Paro.
— Está tudo bem, senhora? — pergunta a camareira, notando a minha hesitação.
Assinto brevemente, mas já não a escuto por completo. O meu olhar fixa-se à frente.
— Continue… — digo-lhe, embora a minha atenção já estivesse noutro lugar.
Apresso o passo na direção das roseiras.
Há um estranho no meu jardim.
Um homem vestido apenas com uma camisa sem mangas e calças simples, de corte rudimentar, claramente inadequadas. O sol reflete-se na sua pele bronzeada, marcada pelo trabalho, ligeiramente transpirada. A camisa colada ao corpo deixa ver os músculos contraídos pelo esforço.
— Senhora, está a ouvir-me? — chama a camareira.
— Ah? Sim, sim… — respondo, distraída.
— Quem é você? — pergunto então, com frieza. — E por que razão está no meu jardim?
Ele volta os olhos para a terra e continua o que estava a fazer, como se a minha pergunta fosse apenas um ruído passageiro.
— Fui contratado hoje — responde, arrancando uma erva pela raiz. — A governanta tratou disso. O antigo jardineiro reformou-se.
Endireita um pouco o corpo, mas não o suficiente para parecer respeitoso. Depois acrescenta, no mesmo tom calmo:
— Sabe onde posso encontrar a patroa?
Sinto o maxilar prender-se.
Patroa?
— Em primeiro lugar — digo, num tom cortante —, não se diz “patroa”. É Senhora Alencourt, para quem tem educação.
Ele pára finalmente o movimento das mãos. Ergue-se apenas o suficiente para me observar melhor e, mais uma vez, fá-lo devagar, avaliando-me como se eu fosse tão digna de atenção quanto a terra que acabara de mexer.
Um canto da boca curva-se num esboço de sorriso.
— Está bem — dá de ombros. — Então chame a Senhora Alencourt…
Volta a baixar-se e acrescenta, sem qualquer cerimónia:
— A patroa.
Dou um passo à frente, irritada.
— Atrevido.
Ele solta um leve sopro, quase uma risada abafada.
— Costumam chamar-me pior.
Cruzo os braços.
— Sou eu a dona desta casa.
Desta vez, ele pára. Levanta-se lentamente e olha-me com atenção renovada. Não com espanto exagerado, mas com curiosidade. Os olhos percorrem-me de cima a baixo, como se estivesse a encaixar uma peça inesperada num quebra-cabeças.
— Ah… — diz por fim. — Você é a Senhora Alencourt.
Há algo no tom dele que me surpreende: surpresa… e divertimento.
— Esperava alguém diferente — acrescenta, com naturalidade.
O comentário faz-me cerrar os dentes.
— Não pedi a sua opinião.
Ele encolhe os ombros, indiferente.
— Nem eu a dei.
E, sem mais palavras, vira-se novamente para o jardim, volta a ajoelhar-se e retoma o trabalho, como se eu já não estivesse ali.
Fico imóvel, o sangue a ferver. Viro-lhe as costas, indignada.
Esperava alguém diferente?
O que queria ele dizer com aquilo?
Não pediu desculpa pelo tom bruto nem pela falta de educação com que me falou. Um ultraje.
De regresso à mansão, vou à procura da governanta.
Encontro-a na cozinha.
— Dona Léonor ?! — exclama a governanta assim que me vê. — O que faz na cozinha ? Este não é lugar para uma lady.
A repreensão atinge-me como uma faísca. Fico imóvel por um instante, surpreendida pelo tom — não por respeito, mas por cansaço. Já passou de sermão demais para um só dia.
— Precisava de falar consigo — respondo, contendo a irritação.
Ela suspira, como quem carrega o peso daquela casa inteira nos ombros, e cruza os braços.
— Imagino que seja por causa do jardineiro.
Endireito-me.
— Exatamente.
A governanta explica, num tom prático e sem rodeios, que o antigo jardineiro se reformara após anos de serviço e que, por mais anúncios e pedidos feitos, aquele fora o único homem que se apresentara. Trabalhador, disponível, sem exigir mais do que o salário justo.
— Mas claro — acrescenta —, se Dona Léonor não está de acordo, mande-o embora. Tentarei encontrar alguém mais… competente.
Algo naquela frase prende-me.
— E que competências tem ele, exatamente ? — pergunto, erguendo uma sobrancelha.
Na minha mente, a resposta surge antes da dela. Se for para limpar os arreios dos cavalos, talvez sirva. Bruto, sem modos, sem educação alguma… um insulto ao meu jardim.
— Pode encontrar outro jardineiro — digo por fim. — Esse homem não trata do meu jardim como deve ser.
A governanta observa-me por um breve instante, como se quisesse dizer algo mais, mas limita-se a acenar com a cabeça.
— Muito bem.
Sai da cozinha sem acrescentar palavra.
Por alguma razão — que me incomoda admitir — sigo-a à distância. Não intervenho. Fico apenas à espreita, escondida junto ao corredor, observando.
O jardineiro levanta-se quando a vê. Pára o trabalho. Escuta.
Não consigo ouvir as palavras, apenas ver o gesto firme da governanta, a postura dele — reta, imóvel. Alguns minutos passam. Depois, sem protestar, ele pega nos seus utensílios, limpa as mãos à calça e afasta-se.
Um aperto estranho instala-se no meu peito.
Bom, penso. teve o que mereceu.
Digo isso a mim mesma… Mas não consigo evitar a sensação incómoda de que, de alguma forma, não era isso que eu esperava sentir.