Mundo ficciónIniciar sesiónO almoço decorre num silêncio que me pesa mais do que deveria.
Consigo engolir algumas colheradas, mas o apetite não acompanha o gesto. Há qualquer coisa que me incomoda, um desconforto difuso e persistente que não consigo identificar. Não é a cabeça — essa dor quase desapareceu. É outra coisa. Uma inquietação silenciosa, como um pensamento que insiste em rondar sem se deixar agarrar. Dou-me conta de que, mais do que a comida, é a minha atenção que se dispersa. Olho, quase sem querer, para as janelas da sala de jantar. Ele já não está lá fora. O alívio surge de imediato. Injustificado. Talvez até infantil. Como se a simples ausência dele fosse suficiente para devolver-me o controlo que tanto prezo. Endireito as costas, inspiro fundo e obrigo-me a terminar a refeição. — Dona Léonor, está tudo bem? — pergunta a camareira, com cautela. — Está, sim — respondo. — Apenas um pouco cansada. Ela observa-me por um instante mais longo do que o habitual. — Talvez um chá ajude — sugere. — Depois — digo, levantando-me antes que surjam mais perguntas. — Vou dar um passeio. Como sempre, a camareira acompanha-me. Caminhamos pelo jardim, o sol filtrado pelas copas das árvores, o ar morno e tranquilo. Durante alguns minutos permanecemos em silêncio, até que ela retoma, em voz baixa, o hábito de me trazer as novidades da semana — heranças disputadas, alianças silenciosas, famílias atentas a cada movimento. — Dizem que o conde Henry Ashford finalmente herdará os bens do padrasto — comenta. — Depois do desaparecimento daquele herdeiro… tudo ficou mais claro para a família. Assinto, distraída. Ela inclina-se um pouco mais na minha direção. — E dizem também que toda a alta sociedade estará presente no grande baile oferecido pela chegada de Sua Graça, o Duque Alexander Weston. Muitas famílias importantes já confirmaram presença… vários casais também. O nome ecoa mais tempo do que devia. — Será um daqueles bailes de que se fala durante meses — acrescenta, com excitação. — Veremos — respondo, fria. Ela percebe a minha distração. — A senhora parece… decidida hoje. — A viver como bem quero — digo, com frieza contida. — Já chega de permitir que decidam por mim. Chegamos perto dos estábulos quando uma das serviçais se aproxima, chamando-a com urgência. A governanta precisa dela. — Pode ir — digo. — Continuarei sozinha. Ela hesita. — Tem a certeza? — Absoluta. A camareira afasta-se a contragosto. Fico só, protegida pelo guarda-sol que seguro acima da cabeça. Abrando o passo. Agora caminho sem pressa, fingindo desinteresse, mas com o olhar atento. Não o vejo. O domador de éguas não está ali. O cavalo que me fizera cair encontra-se calmo na baia. Sereno. Obediente. Aproximo-me apenas o necessário, mantendo distância. — Então foi isto… — murmuro. O animal já não mostra qualquer traço de inquietação. Engulo em seco. Deve tê-lo domado, penso, contrariada. Viro-me para sair. E o ar muda. Dou meia-volta… e paro abruptamente. O espaço diante de mim está ocupado. Demasiado ocupado. O ar foge-me por um segundo e o coração acelera sem aviso. A mão sobe instintivamente ao peito, num gesto contido e elegante, enquanto o corpo reage antes mesmo de o pensamento se organizar. A proximidade é inesperada. Excessiva. — Cuidado… — diz ele, num tom baixo. — Deve prestar mais atenção, ou acaba por se magoar outra vez. Levanto o olhar. Arthur está ali, à minha frente. O corpo grande e sólido bloqueia-me a passagem sem intenção aparente. O cheiro do estábulo mistura-se com o dele — couro, sol, trabalho. Algo cru, masculino, impossível de ignorar. — Está tudo bem? — pergunta. — Não se magoou? Demoro um instante a recompor-me. Endireito as costas, imponho distância com a postura, embora ele não se afaste. — Estou bem — respondo. — Foi apenas… um susto. Ele observa-me com atenção. Não como os outros homens. Não há pressa nem ansiedade. Apenas uma avaliação calma e segura, que me deixa desconfortavelmente consciente de mim mesma. — Ainda bem — diz. — O médico afirmou que tinha sido apenas uma contusão. — E desde quando isso lhe diz respeito? — pergunto, fria. O canto da boca dele ergue-se, quase impercetível. — Desde que fui eu a segurá-la quando caiu. A frase instala-se entre nós. Pesada. Sinto o calor subir-me ao rosto. Dou um pequeno passo atrás, mas ele permanece onde está. Nem avança nem recua — como se soubesse que, agora, a distância já não depende apenas do espaço. — Não me chame de patroa — digo de imediato, tentando recuperar o controlo. — É excessivamente direto. — Muito bem — responde. — Dona Léonor. Inclina ligeiramente a cabeça. — Ou Lady Léonor… — acrescenta, num tom que roça a provocação. — Tenho estatuto social — afirmo, erguendo o queixo. — Sim — responde ele, tranquilo. — Já reparei. O silêncio entre nós torna-se denso. — Além disso — continuo —, o senhor é um bruto. Domador de éguas ou jardineiro das minhas rosas, não passa de um bruto pretensioso. Ele inclina-se ligeiramente para a frente, sem tocar, apenas o suficiente para reduzir ainda mais o espaço. Sinto a respiração dele. O meu corpo reage antes que eu consiga impedir. — Faço o meu trabalho com afinco, Lady Léonor — diz. — As éguas precisam de firmeza. As rosas… — faz uma breve pausa — as mais belas sempre têm espinhos. Engulo em seco. — Pretensioso — murmuro, percorrendo-o com o olhar num gesto que pretendo ser desprezo… mas que dura mais do que devia. Viro-lhe as costas de forma brusca e afasto-me. — Tenha uma boa tarde, patroa — lança ele atrás de mim, com uma calma irritante. O ar torna-se mais respirável fora dos estábulos. O meu coração ainda b**e acelerado. Deve ser o calor… o cheiro do feno… dos cavalos. Sim, só pode ser isso, digo a mim mesma. O que mais poderia ser? Continuo a caminhada e avisto, ao longe, a camareira a aproximar-se apressada. No mesmo instante, o domador de éguas sai dos estábulos a cavalo e passa por nós. — Boa tarde, Arthur — diz a camareira. O olhar que lhe lança não me passa despercebido. Demora-se. Demasiado. — Não devias pousar os olhos num homem assim — digo, tentando chamar-lhe a atenção. A camareira fita-me, surpreendida. — O que a senhora disser é uma ordem. — É para o teu bem — acrescento. — Não te apaixones por um domador. É pretensioso. Mereces melhor. — Obrigada por se preocupar — responde ela, com delicadeza. — Mas Arthur é um bom homem. — Como sabes? — pergunto, abrupta. — É respeitoso, trabalhador… e, bem… — hesita — a beleza exterior também conta. Perdoe-me, Dona Léonor, fui inconveniente. Não respondo. Mas a ideia instala-se. A minha camareira… interessada no domador de éguas? Se esse pretensioso pensa que vai andar a cortejá-la impunemente, está muito enganado.






