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Capitulo 6:Entre o amor e o Ódio

O almoço decorre num silêncio que me pesa mais do que deveria.

Consigo engolir algumas colheradas, mas o apetite não acompanha o gesto. Há qualquer coisa que me incomoda, um desconforto difuso e persistente que não consigo identificar. Não é a cabeça — essa dor quase desapareceu. É outra coisa. Uma inquietação silenciosa, como um pensamento que insiste em rondar sem se deixar agarrar.

Dou-me conta de que, mais do que a comida, é a minha atenção que se dispersa.

Olho, quase sem querer, para as janelas da sala de jantar.

Ele já não está lá fora.

O alívio surge de imediato. Injustificado. Talvez até infantil. Como se a simples ausência dele fosse suficiente para devolver-me o controlo que tanto prezo. Endireito as costas, inspiro fundo e obrigo-me a terminar a refeição.

— Dona Léonor, está tudo bem? — pergunta a camareira, com cautela.

— Está, sim — respondo. — Apenas um pouco cansada.

Ela observa-me por um instante mais longo do que o habitual.

— Talvez um chá ajude — sugere.

— Depois — digo, levantando-me antes que surjam mais perguntas. — Vou dar um passeio.

Como sempre, a camareira acompanha-me.

Caminhamos pelo jardim, o sol filtrado pelas copas das árvores, o ar morno e tranquilo. Durante alguns minutos permanecemos em silêncio, até que ela retoma, em voz baixa, o hábito de me trazer as novidades da semana — heranças disputadas, alianças silenciosas, famílias atentas a cada movimento.

— Dizem que o conde Henry Ashford finalmente herdará os bens do padrasto — comenta. — Depois do desaparecimento daquele herdeiro… tudo ficou mais claro para a família.

Assinto, distraída.

Ela inclina-se um pouco mais na minha direção.

— E dizem também que toda a alta sociedade estará presente no grande baile oferecido pela chegada de Sua Graça, o Duque Alexander Weston. Muitas famílias importantes já confirmaram presença… vários casais também.

O nome ecoa mais tempo do que devia.

— Será um daqueles bailes de que se fala durante meses — acrescenta, com excitação.

— Veremos — respondo, fria.

Ela percebe a minha distração.

— A senhora parece… decidida hoje.

— A viver como bem quero — digo, com frieza contida. — Já chega de permitir que decidam por mim.

Chegamos perto dos estábulos quando uma das serviçais se aproxima, chamando-a com urgência. A governanta precisa dela.

— Pode ir — digo. — Continuarei sozinha.

Ela hesita.

— Tem a certeza?

— Absoluta.

A camareira afasta-se a contragosto. Fico só, protegida pelo guarda-sol que seguro acima da cabeça.

Abrando o passo.

Agora caminho sem pressa, fingindo desinteresse, mas com o olhar atento. Não o vejo.

O domador de éguas não está ali.

O cavalo que me fizera cair encontra-se calmo na baia. Sereno. Obediente. Aproximo-me apenas o necessário, mantendo distância.

— Então foi isto… — murmuro.

O animal já não mostra qualquer traço de inquietação. Engulo em seco.

Deve tê-lo domado, penso, contrariada.

Viro-me para sair.

E o ar muda.

Dou meia-volta… e paro abruptamente.

O espaço diante de mim está ocupado.

Demasiado ocupado.

O ar foge-me por um segundo e o coração acelera sem aviso. A mão sobe instintivamente ao peito, num gesto contido e elegante, enquanto o corpo reage antes mesmo de o pensamento se organizar.

A proximidade é inesperada. Excessiva.

— Cuidado… — diz ele, num tom baixo. — Deve prestar mais atenção, ou acaba por se magoar outra vez.

Levanto o olhar.

Arthur está ali, à minha frente. O corpo grande e sólido bloqueia-me a passagem sem intenção aparente. O cheiro do estábulo mistura-se com o dele — couro, sol, trabalho. Algo cru, masculino, impossível de ignorar.

— Está tudo bem? — pergunta. — Não se magoou?

Demoro um instante a recompor-me. Endireito as costas, imponho distância com a postura, embora ele não se afaste.

— Estou bem — respondo. — Foi apenas… um susto.

Ele observa-me com atenção. Não como os outros homens. Não há pressa nem ansiedade. Apenas uma avaliação calma e segura, que me deixa desconfortavelmente consciente de mim mesma.

— Ainda bem — diz. — O médico afirmou que tinha sido apenas uma contusão.

— E desde quando isso lhe diz respeito? — pergunto, fria.

O canto da boca dele ergue-se, quase impercetível.

— Desde que fui eu a segurá-la quando caiu.

A frase instala-se entre nós. Pesada.

Sinto o calor subir-me ao rosto. Dou um pequeno passo atrás, mas ele permanece onde está. Nem avança nem recua — como se soubesse que, agora, a distância já não depende apenas do espaço.

— Não me chame de patroa — digo de imediato, tentando recuperar o controlo. — É excessivamente direto.

— Muito bem — responde. — Dona Léonor.

Inclina ligeiramente a cabeça.

— Ou Lady Léonor… — acrescenta, num tom que roça a provocação.

— Tenho estatuto social — afirmo, erguendo o queixo.

— Sim — responde ele, tranquilo. — Já reparei.

O silêncio entre nós torna-se denso.

— Além disso — continuo —, o senhor é um bruto. Domador de éguas ou jardineiro das minhas rosas, não passa de um bruto pretensioso.

Ele inclina-se ligeiramente para a frente, sem tocar, apenas o suficiente para reduzir ainda mais o espaço. Sinto a respiração dele. O meu corpo reage antes que eu consiga impedir.

— Faço o meu trabalho com afinco, Lady Léonor — diz. — As éguas precisam de firmeza.

As rosas… — faz uma breve pausa — as mais belas sempre têm espinhos.

Engulo em seco.

— Pretensioso — murmuro, percorrendo-o com o olhar num gesto que pretendo ser desprezo… mas que dura mais do que devia.

Viro-lhe as costas de forma brusca e afasto-me.

— Tenha uma boa tarde, patroa — lança ele atrás de mim, com uma calma irritante.

O ar torna-se mais respirável fora dos estábulos.

O meu coração ainda b**e acelerado. Deve ser o calor… o cheiro do feno… dos cavalos. Sim, só pode ser isso, digo a mim mesma.

O que mais poderia ser?

Continuo a caminhada e avisto, ao longe, a camareira a aproximar-se apressada. No mesmo instante, o domador de éguas sai dos estábulos a cavalo e passa por nós.

— Boa tarde, Arthur — diz a camareira.

O olhar que lhe lança não me passa despercebido. Demora-se. Demasiado.

— Não devias pousar os olhos num homem assim — digo, tentando chamar-lhe a atenção.

A camareira fita-me, surpreendida.

— O que a senhora disser é uma ordem.

— É para o teu bem — acrescento. — Não te apaixones por um domador. É pretensioso. Mereces melhor.

— Obrigada por se preocupar — responde ela, com delicadeza. — Mas Arthur é um bom homem.

— Como sabes? — pergunto, abrupta.

— É respeitoso, trabalhador… e, bem… — hesita — a beleza exterior também conta. Perdoe-me, Dona Léonor, fui inconveniente.

Não respondo.

Mas a ideia instala-se.

A minha camareira… interessada no domador de éguas?

Se esse pretensioso pensa que vai andar a cortejá-la impunemente, está muito enganado.

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