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Estamos no início do século XX.
Na Inglaterra, o poder não se media apenas pela coroa ou pelos títulos, mas pelas terras, pelas alianças e, sobretudo, pelos casamentos. As famílias ricas tratavam o matrimónio como um acordo silencioso, onde dotes eram trocados por nomes, prestígio e continuidade de sangue. O chamado mercado casamenteiro era vasto e implacável. As mães transformavam-se em estrategas, calculando cada gesto, cada apresentação, cada olhar lançado num baile. Procuravam o melhor partido possível para as filhas, não por amor, mas por segurança e ascensão social. Um conde ou um duque eram considerados o auge — os predadores supremos daquele jogo social cuidadosamente disfarçado de etiqueta e sorrisos. As jovens, por sua vez, eram educadas para serem puras, castas e obedientes. Cresciam envoltas em lições de postura, música e silêncio. Aprendiam a baixar os olhos, a sorrir no momento certo e a calar qualquer opinião que pudesse desagradar. A virtude feminina era a sua única moeda de valor. Bastava um deslize, um rumor, uma suspeita, para que tudo fosse perdido. A desonra não recaía apenas sobre a jovem, manchava toda a família e títulos podiam ser retirados. Portas, fechadas para sempre. A moda acompanhava esse teatro social. Vestidos longos, espartilhos apertados, tecidos importados de Paris. Certas famílias exibiam a elegância parisiense como sinal de sofisticação e riqueza, enquanto outras preferiam a rigidez inglesa, mais austera, mais contida. A aparência era uma arma e todas sabiam usá-la. Foi neste mundo que cresci, mas nunca me senti parte dele. Depois de compreender todas essas regras não escritas, depois de observar em silêncio o destino que se impunha às mulheres da minha posição, comecei a ver o casamento não como um privilégio, mas como uma sentença. Uma troca, uma jaula dourada. E foi então que deixei de temer ficar fora daquele mercado. Aos vinte e seis anos, já não era considerada uma escolha desejável. Para a sociedade, eu havia ultrapassado a idade ideal. Para mim, esse rótulo trouxe um alívio inesperado. Estava fora da toca dos leões — assim chamava aquele jogo cruel em que jovens eram lançadas, indefesas, à espera de serem escolhidas. Essas jovens mal sabiam escrever. Tinham sido criadas apenas para agradar, procriar e obedecer às ordens dos homens que nunca escolheram. Serviam como moeda de troca entre famílias poderosas. Eu teria tido o mesmo destino… se os meus pais ainda estivessem vivos. — Entre — digo eu, sentada em frente ao espelho. A camareira empurra a porta com cuidado e fecha-a atrás de si, quase sem fazer ruído. — Dona Léonor, vai sair de novo esta noite? — pergunta em voz baixa. Gosto dela. É simples, discreta, e nunca comenta as minhas saídas noturnas diante da governanta. Desde a morte dos meus pais, vivo rodeada de empregados e sob a vigilância constante de uma mulher que se encarregou de controlar cada passo meu. Olho o meu reflexo no espelho. O rosto sereno, o olhar firme, a frieza que aprendi a vestir como armadura. — Talvez — respondo. E, naquele instante, sei que sou livre apenas naquilo que ninguém vê. A camareira pega na escova e começa a pentear-me, sempre em silêncio, mas apercebo-me dos seus olhares pelo espelho e, como já estou habituada à sua forma discreta de observar, digo-lhe logo: — Desembucha, o que é que queres dizer? Ela hesita por um instante antes de responder: — Dona Léonor, a governanta esteve desconfiada hoje. Fez-me perguntas, perguntou se eu tinha… se a senhora me tinha dito alguma coisa, se tinha saído de casa. Olho-a através do espelho e pergunto-lhe de imediato: — E tu, o que é que respondeste? A camareira continua a pentear-me, como se aquela rotina lhe desse coragem. — Disse que não sabia de nada, que vinha apenas de manhã para ajudá-la a vestir-se, depois arrumava o quarto e que só voltaria à noite para a ajudar a vestir a roupa de dormir. Volto a insistir: — E ela acreditou? A camareira encolhe ligeiramente os ombros. — Acho que sim… não tenho a certeza. Ficamos as duas em silêncio. Sei que corro riscos, tanto quanto ela, caso sejamos apanhadas, mas sinto que já é hora de tomar as rédeas da minha própria vida. Não sou uma criança, já não faço parte da sociedade casamenteira e, se já fui descartada por ela, porque razão não posso sair, observar, respirar um pouco além destes muros? A governanta faz tudo o que pode desde a morte dos meus pais, isso é verdade. Criou-me com regras, limites e proteção, porque, se não o tivesse feito, os meus tios teriam tomado posse de tudo o que pertencia à minha família. De certa forma, devo-lhe agradecimento pela educação e pela segurança que me deu, mas, noutra parte de mim, cresce uma vontade cada vez mais forte de ser diferente, de ser mais rebelde, de ter liberdade. A camareira continua a arranjar-me o cabelo com cuidado, e explico-lhe que quero prendê-lo num apanhado simples, preso com um alfinete de cabelo ornamentado com safiras, que combinam com a cor do meu vestido. Depois, ajuda-me a vestir o espartilho curto, ajustando-o com precisão até sentir o tecido comprimir-me o ventre e sustentar o busto. A respiração torna-se mais contida, mais controlada. Em seguida, veste-me a camisa fina e a anágua leve, quase impercetível, feita para dar fluidez ao movimento. Por fim, desliza sobre mim o vestido de corte Império, de tecido leve e esvoaçante, que cai a partir debaixo do busto e acompanha o corpo sem o aprisionar. O corpete é delicadamente bordado à mão, com fios subtis que captam a luz a cada movimento, e as mangas, suaves e curtas, deixam os braços livres. O tecido roça-me a pele com leveza, como se o vestido flutuasse em vez de pesar. Cada detalhe foi pensado para exibir graça e contenção, beleza sem excesso. Cada camada molda-me não só o corpo, mas também o papel que esperam que eu desempenhe… mesmo quando, por dentro, sinto exatamente o oposto. Por último, coloco as joias: os brincos de safira e o colar a condizer. Olho-me ao espelho uma última vez, pego nas luvas e dirijo-me à porta. A camareira abre-a devagar, espreita para o corredor e faz-me sinal. Saímos as duas em silêncio. Os candelabros ainda estão acesos, lançando sombras longas pelas paredes. Sigo-a pelo corredor do segundo andar, paro sempre que ela me indica para parar, atentas ao mínimo ruído, para não sermos apanhadas. Descemos as escadas rapidamente e dirigimo-nos à ala dos fundos da casa. A ala Este era destinada aos serviçais, um corredor pouco iluminado, com vários quartos alinhados lado a lado. Nunca tinha passado por aquela parte da casa. A mansão tem dois andares, jardins amplos e bem cuidados atrás da casa, construída para impressionar e impactar quem a vem visitar. Havia uma ala reservada aos criados, um grande salão de baile, uma sala para receber visitas, uma ampla sala de jantar, um espaço onde se alinhavam os retratos dos antepassados, a cozinha sempre cheia de movimento, a lavanderia com cheiro de alfazema… cada divisão refletia a hierarquia daquela casa e o mundo rígido em que eu crescera. Chegámos ao portão dos fundos. Para além do portão, aguardava uma carruagem parada. Os cavalos estavam imóveis, enquanto o cocheiro permanecia sentado à frente, com a postura direita e elegante, segurando as rédeas com firmeza. A camareira aproxima-se e coloca-me sobre os ombros o casaco comprido e pesado. É feito de tecido espesso, forrado. Algumas senhoras preferem peles ou cetins mais nobres, mas este cumpre perfeitamente o meu propósito. O capuz, feito do mesmo tecido, cai sobre a cabeça. Amarro-o com cuidado, sentindo o pano roçar-me o rosto. À sombra daquele tecido, qualquer traço que pudesse denunciar quem sou desaparece. A camareira ajuda-me a avançar, certifica-se de que ninguém observa e faz um sinal discreto ao cocheiro. A porta da carruagem abre-se. Entro sem hesitar. Assim que me sento, o interior fecha-se à minha volta. O cocheiro estala levemente o chicote no ar e os cavalos iniciam a marcha com o passo habitual, ritmado, seguro. Reconheço esse som. Já percorri este caminho vezes suficientes para saber quando deixamos a propriedade e quando chegamos ao destino. Com a carruagem em andamento, ouço vozes lá fora. Riso, conversas, passos apressados sobre a calçada. Aproximo-me da janela e afasto ligeiramente o cortinado, apenas o suficiente para observar o mundo exterior por uma pequena brecha. Hoje, o baile realiza-se na casa da família Ashford, uma das mais distintas da alta sociedade. Ouvi dizer que o conde Ashford teria desaparecido há algum tempo, dado como falecido, deixando viúva a sua esposa. Os serviçais sabem sempre de tudo, mesmo aquilo que deveria permanecer escondido. A carruagem começa a abrandar. Depois, pára. Aliso o vestido com cuidado e aguardo. A porta abre-se, e um serviçal estende-me a mão para ajudar-me a sair, atento para que eu não tropece no tecido do vestido. Estou maravilhada. É a primeira vez que venho a este baile. Entramos no hall de entrada, onde um grande burburinho enche o ar. Casais de braço dado riem, outros conversam em pequenos grupos. Alguns seguram taças nas mãos, observando tudo à sua volta. Na pista, pares dançam ao som do violino, os movimentos elegantes, quase ensaiados. Gosto dos bailes. Gosto da temporada, das fofocas sussurradas, dos olhares trocados à distância. O que não quero é fazer parte do mercado, exposta como se fosse um objeto, como um leitão em leilão. Um serviçal ajuda-me a retirar o casaco. Enquanto observo os detalhes, reparo nos candelabros dourados, nos criados imóveis com bandejas nas mãos, exibindo sorrisos largos e treinados para todos os que passam em sinal de respeito. Embora saiba que muitos dos casais ali presentes mantêm a reputação apenas por causa de um título que lhes foi acordado. Segundo a minha camareira, alguns desses homens frequentam bordéis e tavernas, e estão longe de cumprir aquilo a que chamam deveres matrimoniais. Uma vez perguntei-lhe quais eram esses deveres, mas ela mudou rapidamente de conversa. Vagueio pelo salão sem pressa, misturando-me entre os convidados, como se ainda fizesse parte daquele mundo. Ouço risos, comentários leves, elogios vazios. As mulheres observam-se entre si, medem vestidos, avaliam posturas. Os homens falam de negócios, terras e títulos, como se trocassem cartas num jogo em que só eles conhecem as regras. É então que começo a ouvir outro tipo de murmúrio. — Ainda ninguém sabe ao certo o que aconteceu… — Dizem que desapareceu há anos. — Mas era o herdeiro legítimo, não era? — Legítimo… isso depende de quem conta a história. Abrando o passo sem parecer interessada. Aproximo-me de uma mesa com refrescos, finjo escolher uma taça, enquanto mantenho os ouvidos atentos. — A condessa Ashford teve de assumir tudo sozinha — comenta uma senhora em voz baixa. — Uma situação muito delicada. — Delicada seria se o rapaz ainda estivesse por perto — responde outra. — Mas dizem que fugiu. Ou foi afastado. Ninguém sabe ao certo. — Há quem diga que nem devia herdar nada… um bastardo não pode reclamar um condado. Sinto um leve aperto no estômago, embora não saiba explicar porquê. — Ainda assim — acrescenta um cavalheiro —, é estranho que nunca mais se tenha ouvido falar dele. Um filho não desaparece assim sem deixar rasto. As vozes misturam-se ao som do violino, às gargalhadas forçadas, aos passos que cruzam o salão. A conversa dissolve-se, mas a ideia permanece. O antigo herdeiro, o filho do conde. O seu nome não foi pronunciado, mas permanece como uma sombra inconveniente na sociedade. A família Ashford festeja, dança, recebe convidados… e, ainda assim, a ausência é sentida. Há sempre alguém disposto a lembrar aquilo que foi convenientemente esquecido. Afasto-me lentamente, levando comigo aquelas palavras.






