Passo através daquele homem rapidamente, ignorando totalmente sua presença e como meu coração acelera em meu peito.
Paro em frente ao balcão onde consigo contatar o recepcionista daquele hotel.
—Boa noite, como posso ajudar a senhorita?— um senhor de cabelos grisalhos e muito sorridente me pergunta.
—Boa noite. O senhor poderia me informar algum número de táxi e onde posso pegá-lo por aqui?— minha voz está tão ofegante, que acredito ter assustado aquele senhor. Por isso, forço um sorriso logo em seguida.
O recepcionista apenas dá uma pequena tossida fingida e em seguida olha para tela do computador e com um sorriso empático no rosto, me informa.
—Eu sinto muito, minha querida. Mas nessa área do hotel, os únicos carros permitidos a fazer rota são os do próprio hotel. E receio que nesse momento, todos estejam ocupados.
Solto uma respiração completamente cheia de exasperação. Eu realmente gostaria de saber em qual ponto da minha vida, toda a sorte resolveu simplesmente dissipar.
—Pode deixar, Asher.— A voz firme e autoritária soa atrás de mim. —Eu assumo daqui.
—A sua disposição, sr. Barichello.— O recepcionista diz enquanto se afasta.
É claro que seria ele, penso, revirando os olhos antes de finalmente o olhar.
No entanto, ele segue parado em minha frente. Me encarando, esperando que eu falasse, que eu pedisse sua ajuda, como o maldito arrogante que era. Mas eu não faria isso, não o daria o gosto de me ver me humilhando diante dele.
—O que está esperando?— é tudo que falo, um tanto rude e completamente impaciente. —Você me trouxe até esse lugar, é a sua obrigação me deixar exatamente no local em que me encontrou.
—Quer dizer desmaiada no meio da rua?— ele pergunta, o ar de ironia cobrindo sua voz. —Esse foi o modo que a vi na última vez, antes de a trazer até aqui. E honestamente, eu deveria tê-la deixado lá.
Ouço o sarcasmo em sua voz, mas não permito que isso me abale. Porque naquele momento, eu pude finalmente ver o vestígio do homem irritante e convencidamente arrogante que me roubou o táxi no primeiro dia.
—Acredite, eu preferia estar definhando em qualquer lugar agora a estar em sua presença.— Cuspo com raiva. —Mas isso não te fará se livrar da obrigação de me levar onde me encontrou.
—Essa é sua maneira de pedir ajuda?— ele pergunta e um pequeno sorriso torto cruza seus lábios, enquanto ele enfia as mãos no bolso da calça.
Ele realmente estava se divertindo com aquela situação? Qual transtorno mental afetava aquele homem? E por que ele queria levar minha sanidade junto?
—Eu não estou pedindo sua ajuda, estou apenas relatando que você me trouxe até um lugar desconhecido para mim, enquanto eu estava inconsciente. Isso soa bom pra você?
Outra vez ele parece sorrir e sem dizer mais nenhuma palavra, dá as costas para mim e sai hotel a fora. Percebo que ele está caminhando em direção a um carro, o que parece um convite para que eu o siga.
Quanto cavalheirismo! Penso com ironia e quando atravesso a rua e entro em seu carro, ele acelera com o automóvel no mesmo instante, antes mesmo que eu termine de encaixar o cinto de segurança.
Maldito!
Ele permanece no maior silêncio enquanto corta aquela avenida na maior velocidade. Eu encaro a janela ao meu lado, enquanto o vento ricocheteia meu cabelo para todas direções.
—Por que ficou tão chateada com aquela pergunta?— ouço a voz do sr. Barichello de repente encher aquele espaço.
Percebo que os seus olhos estão presos na estrada, o rosto sério. Sem nenhum traço de ironia em sua expressão.
—Porque não existe algo que eu mais odeio na vida do que mentiras e traições.— Eu digo, por fim. —Quando você me perguntou isso, só acendeu em mim gatilhos que me fez...
—Se odiar por alguém te comparar a tudo que você mais abomina na vida.— Ele conclui o meu pensamento e dessa vez, seus olhos recaem profundamente nos meus.
Eu percebo a ambiguidade em sua frase ao acusar que eu havia feito a mesma coisa com ele.
Eu engulo em seco e deixo minha respiração sair alta. A verdade era que eu estava cansada demais, não aguentava o peso que fazia o meu coração se apertar tão profundamente em meu peito.
—Eu o amava, de verdade.— Me vejo falando, por fim, desabafando. Mesmo que fosse com um desconhecido irritante. —Sempre pensei nele como alguém que nunca me machucaria. Até que ele fez isso de uma maneira tão horrível que nem em meus maiores pesadelos eu poderia sonhar.
Vejo o sr. Barichello segurar o volante com toda força, e a sua mandíbula parece rígida em seu rosto. Como se aquele tipo de sensação fosse familiar pra ele.
—E quanto a sua irmã?— ele me surpreende ao perguntar.
—Ela era estranha.— Suspiro. —É mais velha que eu e eu sempre a amei e respeitei muito. Mas ela sempre me tratava com muita rigidez e arrogância. Achava que era apenas o seu modo de me proteger, mas acho que ela só não gostava de mim. Mesmo eu sempre tendo feito o possível para chamar sua atenção.
Aquela revelação parece tirar um peso em meu peito surreal, quando eu percebo que eu jamais havia falado aquilo em voz alta. Que jamais havia expressado quaisquer sentimentos assim. Uma vida inteira de solidão te obriga a reprimir tempestades de sentimentos.
—Não importa o que você faça. Para algumas pessoas, você só não será o suficiente.— Ele resmunga, no mesmo instante que o sinal fecha.
E não me deixando mais nenhuma oportunidade de pensar em sua afirmação, ele vira o olhar em minha direção e volta a perguntar:
—Vai ficar no mesmo local em que a encontrei? Em frente ao bar da Fênix? Ou vai pra casa?
No mesmo instante, tenho um sobressalto ao perceber que não saberia como explicar aquilo a ele. Como eu poderia dizer que ainda não tinha uma casa na cidade e estava literalmente morando no anexo em sua casa? Eu claramente não diria isso.
—Eu estou muito cansada e moro um pouco distante daqui.— Dissimulo. —Teria algum problema em passar a noite no meu quarto na mansão?
Ele não responde a minha pergunta, apenas acelera com o carro e percebo que estamos fazendo o caminho até sua casa. Suspiro um pouco aliviada.
Ele não fala mais nada no caminho inteiro e eu também não me atrevo a o fazer. Mesmo que as dúvidas e curiosidades pareçam queimar o meu cérebro.
Poucos minutos depois, ele para o carro na garagem de sua casa. Descemos do carro e ele está prestes a entrar na casa, quando eu o chamo.
—Sr. Barichello. Desculpe, mas o senhor pode me acompanhar até o meu quarto? Tenho algo para o entregar.
Ele parece desconfiado com aquele pedido, mas mesmo assim, me segue.
—Um minuto.— Peço, enquanto entro no meu quarto e procuro o objeto em meio as minhas coisas.
Ele está parado em frente ao alpendre, me esperando. As mãos no bolso, um tanto impaciente.
—Você deixou cair.— Eu explico. —No táxi.
Entrego o objeto em sua direção e ele pega. O brilho do isqueiro parece cintilar em seus olhos negros e vejo quando sua testa franze. Como que só naquele momento, as memórias daquele dia enchessem sua mente.
—Obrigado.— Sua voz sai baixa, e ele começa a se afastar, mas não me olha.
No entanto, antes que eu volte até o meu quarto e feche a porta, ele se volta a mim.
—Não é o que você pensa.— Sua voz soa firme e áspera e ele finalmente me olha. —A Bianca. Não é o que você pensa. Na verdade, nada aqui é o que você pensa. E acredite quando digo que você não quer conhecer nada disso.
Eu engulo em seco. Um tanto assustada. Mas ao mesmo tempo, sinto um alivio invadir meu peito ao perceber que o quer que haja entre ele e Bianca, não era a verdade horrível que estava em minha mente.
—É nas sombras que as coisas mais brilhantes se escondem, até que finalmente estejam prontas pra se mostrar. Está tudo bem, sr. Barichello.
Vejo um pequeno vestígio de um sorriso sutil em seu rosto e olhando mais uma vez para o seu isqueiro e em seguida para mim, ele fala:
—É Juan. Meu nome é Juan.
E dizendo isso, ele simplesmente vai embora. Deixando todas as memórias daquele dia, queimando em minha mente. Ansiosa, me vejo perguntando tudo que ele esconde e me vejo ansiando por descobri-las.
E eu irei.