Helena
Eu deveria estar acostumada ao caos. À tensão constante. Aos jogos de poder que ricocheteiam entre Felipe e Adrian como facas arremessadas no escuro, sempre passando perto demais da minha garganta. Eu já tinha aprendido a viver em alerta, a decifrar silêncios, a perceber quando um olhar dura um segundo a mais do que deveria. Mas nada — absolutamente nada — me preparou para o momento em que os dois gigantes decidiram mover o tabuleiro ao mesmo tempo. Porque, quando isso aconteceu, eu deixei de ser peça lateral. Eu virei o centro da batalha.
Quando acordei naquela manhã, a cidade parecia normal demais para justificar o aperto no meu peito. O céu estava cinza demais, baixo demais, como se São Paulo tivesse decidido me esmagar sob o próprio peso. O ar parecia espesso, difícil de atravessar. Cada respiração exigia esforço. Eu senti antes de entender. Um desconforto difuso, uma intuição aguda, aquela sensação cruel de que algo estava errado — só não sabia ainda que o erro era eu.
Eu