Helena
Horas depois, o mundo finalmente silencia. Estou no apartamento de Felipe, sob o jato quente do chuveiro, como se a água pudesse lavar não só o medo, mas os restos da guerra que ainda grudam na minha pele. O vapor sobe, embaça o espelho, envolve tudo numa névoa íntima. Meus músculos relaxam aos poucos, mas meu corpo ainda treme — não de frio, e sim de descarga. De tudo o que foi contido. Engolido. Sobrevivido. A água escorre pelos meus ombros, pelo colo, pelas curvas tensas que só agora começam a ceder. Fecho os olhos. Respiro fundo. Pela primeira vez em dias, não estou em alerta. Então sinto. A presença dele antes do toque. O ar muda. O espaço se contrai. Meu corpo reconhece antes que eu veja.
Felipe entra no banheiro sem dizer nada. Não há pressa. Não há palavras. Só a certeza silenciosa de que ele também precisava desse momento para voltar inteiro. Ele se aproxima. O calor do corpo dele encontra o meu, misturando-se ao vapor. As mãos firmes me puxam para perto com uma urgê