Capítulo 7

Meus olhos correram pelas linhas. Não era um conto de fadas. Era um documento de negócios, feito para me transformar na propriedade pública dele e no escudo contra as exigências do temido Conselho dos Anciões. No meio do jargão jurídico, duas regras saltaram na página, marcadas em negrito:

Cláusula 3: O casal dividirá os mesmos aposentos para manter as aparências perante a alcatéia e o Conselho, mas o toque físico íntimo sem consentimento prévio para fins de imagem pública é estritamente proibido.

Engoli em seco, minha garganta rasgando. Dividir o mesmo quarto com aquele monstro parecia uma sentença de morte. O cheiro dele já estava me deixando tonta dentro daquele carro, imagine dormindo a poucos metros de distância. Mas a regra seguinte era ainda pior ainda.

Cláusula 7: O desenvolvimento de sentimentos românticos ou qualquer tentativa de forjar um vínculo real de companheiros resultará na quebra imediata e irrefutável deste acordo, anulando toda a proteção fornecida.

Um sorriso quebrado, repuxou meus lábios rachados e sujos de sangue seco. Sentimentos românticos? Pelo Alpha Supremo? Eu preferia arrancar o meu próprio coração do peito com as unhas a confiar o meu corpo e a minha alma a outro lobisomem novamente. O vínculo sagrado de companheiros era uma mentira doentia da Deusa da Lua. A maior piada de todas. E eu havia sido a linha de chegada dessa piada.

- Uma caneta - exigi. Minha voz soou firme o suficiente para me surpreender.

Kael tirou uma caneta do bolso da calça e me entregou. Os dos dedos dele esbarraram nos meus. O choque fez minha pele formigar até o cotovelo, mas eu não recuei.

Apoiei o contrato na minha perna, alisando o papel sobre o sobretudo dele, e assinei na linha pontilhada no final da última página.

Aria. Sem sobrenome. A Alcatéia Lua Crescente não era mais a minha família. Eu não era literalmente ninguém no mundo, além do que estava naquele papel.

No exato momento em que deixei minha assinatura, o SUV freou bruscamente, jogando meu corpo magro para frente.

Kael arrancou o contrato da minha mão, enfiou de volta no envelope e apagou a luz. As fortes luzes externas de segurança começaram a invadir os vidros blindados, varrendo o interior do carro.

Olhei pela janela. Minha respiração travou na garganta.

Se a casa do Alpha da minha antiga alcatéia parecia uma mansão de gente rica, o lugar para onde Kael me arrastou era um império militar impenetrável. Nós atravessamos devagar dois portões de aço que se abriam para os lados sem fazer um único ruído. Os muros de pedra negra ao redor tinham metros de altura, envolto por equipamento de segurança que eu nem sabia nomear.

Não havia civis rindo nos jardins. Dezenas de guardas patrulhavam o perímetro em silêncio. Homens com fardas escuras seguravam fuzis de assalto pesados cruzados no peito, enquanto lobos em sua forma animal, bestas tão grandes quanto aquele carro, com pelos eriçados e olhos brilhando rondavam as sombras das árvores antigas.

No centro daquele campo de guerra, erguia-se a Fortaleza. Uma estrutura assombrosa de pedra vulcânica negra e painéis de vidro fumê. A riqueza exalava de cada pilar, misturada ao cheiro de sangue e um nível de dominância alfa que me fez encolher. Eu não era uma convidada. Eu era uma ovelha entrando de livre e espontânea vontade no covil dos predadores supremos.

O SUV parou diante de uma escadaria. As portas traseiras foram abertas por fora.

O ar gelado da madrugada me envolveu. Encolhi meus pés descalços, ralados e sujos de lama. O vestido arruinado repuxava nos cortes do meu joelho. Eu estava um lixo completo.

Kael saiu do lado dele e deu a volta na traseira do veículo. Ele parou bem ao meu lado. Não houve aviso.

A mão dele agarrou a minha cintura com uma força. Os dedos apertaram a lateral do meu corpo me puxando e colando minhas costas contra a lateral do quadril dele. Tentei recuar um pouco por estar em pânico, mas ele apertou mais firme, me fixand ono lugar. Ele não estava me abraçando. Ele estava me exibindo.

Ergui os olhos aterrorizados para o topo da escadaria.

O alto escalão da alcatéia de Kael estava todo ali. Dezenas de lobos e lobas lado a lado aguardando o retorno do seu líder supremo. Todos vestindo peças impecáveis, com as posturas eretas da elite. Todos estavam em silêncio e se ouvia apenas o som da chuva.

E todos os olhos, sem exceção, caíram sobre mim.

O choque passou pelo rosto treinado deles. Não era para menos. O Alpha, terror do continente, estava segurando uma humana raquítica e imunda, cheirando a dor de uma rejeição muito recente. O cheiro de Damon, de nojo e de sangue, ainda estava no meu pescoço.

Kael ergueu o queixo. A voz dele explodiu pelo pátio de pedra.

- Esta é Aria. - O tom não deixava margem para dúvidas, perguntas ou murmúrios. Era a lei. — A partir desta noite, ela é a futura Luna Suprema. A joia desta alcatéia. Tratem-na como tal.

A respiração coletiva dos guardas e da elite simplesmente falhou.

O silêncio durou exatos três segundos.

Das fileiras da frente, uma figura avançou com fúria.

Uma mulher estonteante. O cabelo ruivo dela caía pelas costas, no corpo vestia roupas táticas de couro preto que desenhavam seus músculos definidos. A Beta dele. A guerreira de mais alta patente que, claramente, acreditava que aquela coroa era o destino dela.

Ela não tentou esconder a raiva. As unhas das mãos dela já haviam se rasgado, transformando-se em garras longas enquanto ela descia um degrau na nossa direção. Os ossos do rosto começaram a estalar e se alongar para a frente, o focinho de um lobo enorme forçando a pele, deixando dentes expostos, pingando de raiva. Seus olhos explodiram em um amarelo, cravados em mim.

O som que rasgou a garganta dela fez meus joelhos cederem. Não foi humano. Foi um rosnado, vibrando no chão, prometendo arrancar o meu coração na frente do seu Alpha.

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