Capítulo 6

- Você precisa de um milagre para sobreviver até amanhã de manhã - ele cortou, finalmente desligando a tela do tablet.

A luz sumiu, deixando a cabine escura de novo, exceto pelos flashes distantes dos postes de iluminação passando pela rodovia. Kael ergueu o rosto. Os olhos de prata se fixaram em mim, me avaliando. Meu instinto de preservação se encolheu de terror no fundo do meu estômago.

- Aria. Dezoito anos. Órfã acolhida por caridade pelo Alpha da Lua Crescente. Sem primeira transformação. Sem utilidade. 

Ele listou meus maiores traumas e segredos como se lesse um catálogo de peças com defeito. 

- Eu vi o herdeiro arrogante rejeitar você no meio daquele salão. Eu vi o momento exato em que ele jogou você fora como lixo para ficar com a irmã perfeita.

As palavras dele foram socos no meu estômago já machucado. Minhas unhas cravaram nas minhas mãos até quase rasgarem a pele. O constrangimento queimou meu rosto miserável.

- Se você sabe que eu sou um lixo... - Minha voz falhou, quebrando no meio da frase. Apertei o casaco dele contra o meu pescoço, tentando conter o tremor dos meus ombros. - Por que me tirou da lama? Por que o Supremo se importaria com uma loba defeituosa?

Kael não piscou. Não houve um pingo de compaixão naquele olhar que ele me deu. Ele inclinou o corpo gigante para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. A proximidade fez o cheiro de tempestade me envolver como uma corda no pescoço.

- Eu não salvei você por bondade, pequena loba. Eu não ligo para a sua dor. - A sinceridade dele machucava. - Eu tirei você daquela floresta porque você é exatamente o que eu preciso. Uma fêmea sem valor político para o Conselho dos Anciões, sem matilha que a defenda e sem nada a perder.

Ele enfiou a mão ao lado do banco e tirou um envelope de couro escuro, jogando-o no espaço vazio entre nós.

- Eu preciso de uma esposa de mentira para fechar um acordo. Você assina este contrato e jura obediência absoluta às minhas regras. E em troca... - Kael inclinou a cabeça. Os lábios dele se curvaram em um sorriso frio. - Em troca, eu te dou proteção você será intocável, o meu sobrenome, e a cabeça do seu ex-companheiro servida em uma bandeja de prata.

A cabeça de Damon servida em uma bandeja de prata.

A velha Aria, a garota submissa e idiota que passava os dias esfregando o chão de madeira e implorando silenciosamente por um pingo de aceitação de quem a odiava, teria recuado, aterrorizada com a violência daquela promessa. Ela teria chorado. Teria fugido.

Mas essa garota morreu na lama daquela floresta há menos de uma hora.

O que sobrou de mim era apenas um buraco esfolado e sangrando no peito, misturado com um instinto animalesco de sobrevivência. O ódio começou a borbulhar nas minhas veias, abafando o pânico de estar trancada ali. Eu pisquei para o vazio, meus pulmões doendo a cada respiração, e então estiquei a mão trêmula.

Agarrei o envelope no banco.

Kael não disse uma palavra. Ele tocou em um botão discreto no encosto de braço e uma luz amarela acendeu no teto do SUV, iluminando o espaço entre nós. Puxei as folhas. O papel era grosso cheirava a tinta fresca e poder. Minhas unhas sujas de terra molhada mancharam as bordas brancas na mesma hora.

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