Mundo de ficçãoIniciar sessão"Você é minha agora."
A frase não fez sentido. Minha mente, já quebrada pela rejeição, tentou processar o som daquela voz grave, mas meu corpo simplesmente desistiu. O terror me paralisou. A dor no meu peito, onde o vínculo com Damon havia sido arrancado a força, explodiu em uma onda de agonia tão grande que cortou minha respiração.
A aura de Kael era pesada demais. O cheiro de sangue inundou minhas narinas, sufocando o pouco de ar que restava na floresta. Minhas pálpebras pesaram toneladas. A última coisa que senti antes da escuridão engolir o resto da minha consciência foi o impacto contra a lama.
Mas eu nunca atingi o chão.
Acordei de repente.
Minha boca tinha gosto metálico e cinzas. Tentei engolir, mas minha garganta parecia forrada com lixa grossa. O frio da chuva e o cheiro de terra podre tinham sumido.
Pisquei, forçando meus olhos a focarem no escuro.
Eu não estava na floresta. Não estava morta.
O som de pneus no asfalto molhado vibrava sob o meu corpo. Eu estava deitada no banco traseiro de um SUV espaçoso. O couro macio sob mim cheirava a carro novo. Minhas pernas estavam encolhidas, e um peso me cobria do pescoço aos pés.
Puxei o tecido com os dedos tremendo. Era um sobretudo masculino preto. Lã grossa. E exalava aquele mesmo cheiro sufocante que fez meus ossos travarem na fronteira.
Passei a mão pelo rosto. A lama grossa tinha sido limpa da minha bochecha, deixando apenas a pele ralada e ardendo. Minhas roupas ainda estavam úmidas por baixo do casaco, mas o pior era o meu peito. A dor da rejeição ainda estava lá, latejando como um dente infeccionado pulsando em carne viva.
Ouvi um clique.
Prendi a respiração.
Girei o pescoço devagar, os músculos protestando.
Ele estava ali. No banco oposto, de frente para mim.
Kael. O Alpha Supremo.
A cabine do veículo era imensa, projetada para conforto e luxo da elite, mas com ele ali dentro, parecia menor. Ele ocupava espaço demais. Os ombros largos demais bloqueavam a visão da janela blindada atrás dele. Ele não usava mais a capa militar que eu vi na tempestade. Estava apenas com uma camisa preta de botões, as mangas dobradas até os cotovelos, revelando antebraços grossos cobertos por cicatrizes pálidas e veias saltadas.
A luz azulada da tela de um tablet iluminava os traços do seu rosto. Ele não estava olhando para mim. Seus dedos longos e ágeis deslizavam pela tela, digitando algo com uma rapidez.
Nenhuma emoção. Nenhuma pena. Ele parecia um magnata analisando relatórios de falência, não o monstro sanguinário das histórias de terror da minha infância. E, de alguma forma, essa frieza era mil vezes mais aterrorizante do que se ele estivesse rosnando.
Tentei me afastar, arrastando meu corpo contra o encosto do banco para me fundir com a porta do carro. O couro rangeu sob o meu peso.
Os dedos dele pararam de digitar.
- A porta está trancada. E mesmo que não estivesse, pular de um carro a cento e vinte quilômetros por hora vai quebrar o seu pescoço. - A voz dele era grave, vibrando no espaço e fazendo os pelos dos meus braços se arrepiarem.
Ele não levantou os olhos da tela.
Engoli em seco, minha voz saindo gaguejando.
- Onde... onde estou?
- Indo para a capital. Para o meu território.
O pânico encheu meu peito, se chocando de forma violenta com a dor da rejeição. A capital da alcatéia Suprema ficava a centenas de quilômetros de distância.
- Me deixe sair - sussurrei, agarrando a maçaneta da porta. Minhas mãos suavam. - Eu prefiro os Rebeldes. Eu preciso... eu tenho que sair...







