Capítulo 2

Pela primeira vez na minha vida inteira, algo dentro de mim se contorceu. Não era minha loba, não de verdade, mas era um instinto cru, primitivo, rasgando minhas veias como fogo.

Companheiro.

A palavra explodiu na minha mente e ecoou em cada parte do meu corpo. Minhas pernas se moveram sozinhas. 

Eu não estava mais no controle de nada. Empurrei um casal alto que estava no meu caminho, ignorando os rosnados ofendidos que eles deram. O cheiro era um ímã puxando meu peito com força.

Passei pela mesa de comida, tropecei na borda do tapete do salão, quase caí, mas continuei andando, farejando o ar. Mais perto. Mais perto. 

O cheiro estava ficando muito forte. Minha pele formigava, queimando de antecipação. Lágrimas começaram a se acumular nos cantos dos meus olhos. O alívio ameaçava me derrubar. Eu o encontrei. Finalmente.

A multidão se abriu de repente. Parei no lugar, ofegante, o peito subindo e descendo bem rápido.

O cheiro vinha do grupo perto da lareira. O grupo da elite da alcatéia.

Meus olhos encontraram os ombros virados de costas para mim. A jaqueta de couro preta, a postura rígida de quem nasceu para mandar no mundo. Ele estava no meio de uma risada quando paralisou. Os músculos das costas dele travaram.

Ele também sentiu.

O copo de uísque na mão dele estalou. O vidro quebrou em dezenas de pedaços, espalhando bebida e sangue pelo chão. Ele se virou devagar, como se estivesse lutando contra o próprio corpo.

Damon.

O futuro Alpha da Alcatéia Lua Crescente. O filho prodígio. O garoto que não apenas me ignorava, mas que deixava seus amigos me usarem de saco de pancadas por pura diversão durante os treinamentos. O herdeiro arrogante.

O mundo parou de girar. Quando os olhos escuros dele encontraram os meus, o choque do vínculo estalou no ar entre nós, tão real e violento que eu quase pude ouvir o estrondo. O universo inteiro desapareceu, deixando apenas o espaço que nos separava. Meu peito se encheu de uma esperança cega, idiota e desesperada. Meu Alpha. Meu companheiro.

Por um segundo, um milésimo de segundo que pareceu durar horas, os olhos dele brilharam no tom dourado mais puro e intenso que eu já tinha visto. Seus lábios se abriram levemente. O instinto de posse estampou cada traço do seu rosto.

Mas então, veio a compreensão.

O dourado sumiu, engolido por um negro furioso. O rosto de Damon se contorceu. A surpresa inicial desapareceu, sendo substituída rapidamente por um nojo tão grande, tão profundo, que foi como levar um chute no meio do estômago.

Ele deu um passo na minha direção, o ódio irradiando do seu corpo em ondas de calor que fizeram os lobos ao redor se afastarem. Eu dei um passo para trás, tremendo da cabeça aos pés, morrendo de medo.

- Damon? - a voz doce de Chloe soou bem ao meu lado.

Eu nem a vi se aproximar. Damon não piscou. Sem desviar os olhos de mim, aqueles olhos que agora me encaravam como se eu fosse um pedaço de lixo apodrecendo na frente dele, ele estendeu a mão. Mas não para mim.

Os dedos dele agarraram a cintura de Chloe, puxando minha irmã adotiva de forma possessiva para colar contra o seu corpo. Ela ofegou, surpresa, mas imediatamente sorriu, vitoriosa e presunçosa, esfregando o nariz no ombro dele.

Meu sangue congelou. O ar sumiu dos meus pulmões.

Damon soltou uma risada seca, sem um pingo de humor. Ele esticou a mão livre agarrando o meu queixo com brutalidade que me fez soltar um gemido agudo de dor. Ele ergueu meu rosto com força, forçando-me a olhar diretamente para a repulsa em seus olhos, garantindo que absolutamente todos no salão estivessem prestando atenção em nós. 

Ele falou.

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