Mundo de ficçãoIniciar sessão
O tecido barato do meu vestido pinicava a minha pele, mas esse era o menor dos meus problemas. Minhas mãos suavam tanto que eu tive que seca-las pela quinta vez em menos de dois minutos. Encarei meu reflexo no espelho manchado do banheiro que me deram no porão da Casa da Alcatéia.
Dezoito anos. Hoje era o dia.
Aproximei o rosto no espelho, procurando qualquer sinal. Um brilho dourado nos olhos, um rosnado preso na garganta, um calor repentino no peito. Nada. Meus olhos castanhos continuavam opacos, comuns. Humanos. Engoli em seco, sentindo um nó na garganta. Minha loba não tinha despertado. De novo.
Eu era a chacota da Alcatéia Lua Crescente desde os meus dezesseis anos, quando a primeira transformação deveria ter acontecido. Dois anos de atraso. Dois anos sendo empurrada contra os armários, tendo minha comida roubada, ouvindo os sussurros cruéis de que eu era um fardo. Uma aberração que só desperdiçava os recursos do Alpha.
A defeituosa. Era assim que eles me chamavam.
Fechei os olhos com força, respirei fundo. Respirei o ar mofado do porão. Eu não podia desmoronar agora, não hoje. A Cerimônia de Maioridade não era apenas sobre a primeira transformação. Era o momento em que os lobos que completavam dezoito anos finalmente podiam reconhecer seus companheiros.
A Deusa da Lua não comete erros. Esse era o meu único mantra. A Ela não me deixaria sofrer para sempre. O vínculo de companheiros é sagrado, inquebrável por natureza. Meu companheiro me amaria pelo que eu sou. Ele não se importaria com a minha loba adormecida. Ele me protegeria das garras dessa alcatéia que me odiava. Ele seria minha passagem só de ida para longe desse inferno.
Com as pernas tremendo, abri a porta do banheiro e caminhei em direção as escadas. A música alta fazia o chão vibrar sob os meus saltos gastos. O cheiro de carne assada, cerveja, perfume forte e dezenas de lobos eufóricos subiam pelos degraus.
Assim que pisei no grande salão, todos pararam ao meu redor.
Grupos que riam alto pararam para me encarar. Não precisei de audição sobrenatural para ouvir as risadas contidas e os comentários venenosos ao fundo da música que tocava.
- A humana teve a coragem de aparecer.
- Olha o estado dela. Parece que roubou as roupas de um mendigo.
- Será que ela acha mesmo que alguém vai querer uma loba morta?
Encolhi os ombros, abaixando a cabeça enquanto tentava desaparecer atrás da mesa de bebidas. Meu coração batia tão rápido que doía nas costelas. No centro da pista de dança, brilhando com os lustres de cristal, estava Chloe. Minha irmã adotiva.
O cabelo loiro ondulado, o vestido vermelho que grudava em suas curvas e que custava mais do que eu ganharia em dez anos limpando o chão daquela casa. Ela ria, jogando a cabeça para trás, o centro das atenções.
A loba perfeita. O orgulho da família que me adotou apenas por caridade.
Desviei o olhar, servindo um copo de água com as mãos instáveis. Só preciso aguentar até a meia-noite, pensei. Só até o ápice da lua.
E então, aconteceu.
Foi um cheiro.
Um aroma tão denso, tão perigosamente embriagador, que o copo de plástico escorregou dos meus dedos, batendo no chão e espirrando água nos meus sapatos. Cheirava a chuva em uma floresta de pinheiros, Café torrado, couro velho e terra molhada.
Meu estômago deu um solavanco. Meus pulmões aspiraram com força, puxando o ar com desespero, querendo me afogar naquele cheiro. Minha visão embaçou.







