Átila Megalos

Presente momento

Acordo com um leve, mas insistente, som de passos no corredor. É um ruído abafado, mas suficiente para perfurar a névoa densa que envolve minha mente. O sol da manhã, um intruso ousado, entra pelas janelas do quarto, iluminando a bagunça ao meu redor. Garrafas vazias, roupas jogadas, a desordem que reflete a noite anterior. O cheiro adocicado e enjoativo de perfume barato ainda paira no ar, misturando-se ao meu próprio hálito de uísque, e sinto o peso de uma ressaca iminente pressionando minha cabeça como um capacete de chumbo. Ao meu lado, uma mulher de cabelos descoloridos e maquiagem borrada dorme profundamente, alheia ao meu tormento, suas roupas espalhadas pelo chão como folhas secas.

Estou tentando, em vão, processar os eventos da noite passada, juntar os fragmentos de memória, quando a porta do quarto se abre bruscamente. O som ecoa, cortando o silêncio com a violência de um trovão. Lá está ele, meu tio Petros, uma figura imponente e ameaçadora, com uma expressão que poderia derreter aço. Suas sobrancelhas se frangem em um vinco profundo, e seus olhos cinzentos disparam faíscas de desdém, de pura e inabalável desaprovação. Ele sempre foi o guardião intransigente dos valores tradicionais da nossa família, um homem cujo rigor e conservadorismo frequentemente beiram o tirânico, sufocando qualquer resquício de individualidade.

— Bom dia, tio Petros — digo, tentando injetar alguma leveza na minha voz, mas a tensão é palpável, densa como a fumaça de um charuto. Sei que é inútil. Ele não está aqui para amenidades.

Ele olha para a mulher na cama, um olhar que a reduz a pó, e depois para mim, suas narinas inflando como as de um touro prestes a atacar na arena. O desprezo é quase físico.

— O que é isso, Átila? — sua voz é um rosnado baixo, carregado de uma desaprovação que conheço bem demais. É a mesma voz que me persegue desde a infância.

Eu suspiro, um som que parece carregar todo o cansaço do mundo, e passo a mão pelos cabelos desgrenhados, sentindo a fúria latente em seu olhar. Não há escapatória.

— É exatamente o que parece — respondo com um encolher de ombros, um gesto de desafio e resignação ao mesmo tempo. Não vou me desculpar por ser quem sou.

Ele avança para dentro do quarto, os passos firmes e determinados, cada um deles um golpe em minha já frágil paz. A mulher na cama começa a se mexer, acordada pela presença ameaçadora de Petros, seus olhos se arregalando em pânico ao vê-lo. Ela sabe quem ele é.

— Saia daqui, agora! — ele ordena à mulher, a voz cortante como um chicote. Ela rapidamente se levanta, apanhando suas roupas espalhadas com um olhar aterrorizado, como um animal encurralado. Não diz uma palavra, apenas se apressa para sair do quarto, a porta batendo suavemente atrás dela, um som que sela o fim de mais uma noite vazia.

Meu tio costumava não se importar com quem eu levava para a cama. Sempre fui invisível ao olhar dele, uma sombra que não merecia sua atenção. Mas desde a morte de Ícaro, ele tem demonstrado cada vez mais irritado com minha atitude, como se eu devesse carregar o luto que ele não consegue expressar. É como se a morte do filho o tivesse despertado para a minha existência, mas de uma forma que me sufoca.

Petros se vira para mim, cruzando os braços sobre o peito, a postura rígida, o olhar ainda mais penetrante, capaz de ver através da minha alma.

— Você acha que isso é aceitável, Átila? — ele pergunta, a voz cheia de desprezo, de uma superioridade que me enoja. — Trazer uma prostituta para a sua casa? Que desgraça! Que vergonha para o nome Lykaios!

Sinto a raiva borbulhando dentro de mim, um vulcão prestes a entrar em erupção, mas tento manter a calma, a máscara de indiferença. Não vou dar a ele a satisfação de me ver quebrado.

— Como o senhor mesmo disse, essa casa é minha. Sou adulto e sei o que estou fazendo — respondo, a voz controlada, mas com uma pontada de veneno.

— É isso que você chama de saber o que está fazendo? — a voz de Petros está carregada de ironia e desaprovação, um escárnio que me atinge em cheio. — Você tem má fama. Está destruindo o legado de nossa família, manchando o nome que nossos ancestrais construíram com tanto sacrifício e honra. Ícaro nunca faria uma coisa dessas.

Meu tio sempre teve um talento especial para me fazer sentir como se fosse um fracasso, uma decepção ambulante. Mas hoje ele parece especialmente decidido a me humilhar, a esfregar na minha cara a minha inadequação. Ícaro sempre teve a supremacia, a condição de superioridade, o domínio, a autoridade absoluta. Ele era o sol, e eu, a sombra que o seguia, condenado a viver em sua penumbra. Lembro-me de uma noite, um flashback amargo que me assombra...

Era uma noite de inverno, fria e sombria, a lareira crepitando no salão principal da mansão, suas chamas dançando como fantasmas. Eu tinha acabado de completar dezesseis anos, e Petros havia organizado um jantar para empresários importantes da cidade, uma oportunidade para eu aprender sobre o mundo dos negócios, ou assim ele dizia. Na verdade, era mais uma vitrine para Ícaro.

— Átila, venha aqui — chamou ele, sua voz autoritária cortando o burburinho das conversas, atraindo todos os olhares para mim. Eu me aproximei hesitante, sentindo o peso dos olhares dos convidados sobre mim, cada um deles um julgamento silencioso. Petros estava de pé, ao lado de Ícaro, que já parecia à vontade, conversando com os homens mais poderosos da sala, como se tivesse nascido para aquilo.

— Quero que você explique aos nossos convidados o plano de expansão dos hotéis que discutimos ontem — disse Petros, com um sorriso que não chegava aos olhos, um sorriso que eu conhecia bem, um sorriso de armadilha. Eu havia estudado o plano com afinco, memorizado cada detalhe, mas a pressão daquele momento me fez gaguejar. As palavras saíam confusas, atropeladas, como se minha língua tivesse se enrolado. Senti o suor escorrendo pelas costas, o rosto queimando de vergonha, a humilhação me consumindo.

— Está vendo, senhores? — interrompeu Petros, com um tom de desdém que me perfurou a alma. — Esse é o meu sobrinho. Não consegue sequer explicar um plano simples. Venha aqui, Ícaro, e explique tudo a eles.

A sala ficou em um silêncio constrangedor. Os olhos de Ícaro brilhavam com uma mistura de pena e satisfação, uma vitória silenciosa. A humilhação pública foi como uma marca de ferro quente em minha alma. A partir daquele momento, ficou claro que, aos olhos de Petros, eu nunca seria suficiente, nunca seria digno do nome Lykaios.

— Se você veio aqui para me insultar, talvez seja melhor que vá embora — respondo, tentando controlar minha frustração, a voz embargada pela lembrança.

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