Mundo ficciónIniciar sesiónO salão nobre, com suas colunas de pedra negra e tapeçarias que narravam séculos de glória da linhagem Jones, nunca pareceu tão frio. O cheiro de carvalho e cera de abelha, que antes me trazia uma sensação de ordem e tradição, agora parecia sufocante. No centro do estrado, sentado não no trono principal, mas na cadeira de carvalho logo ao lado, estava meu tio Gael. Suas mãos, sempre adornadas com anéis de sinete pesados, repousavam calmamente sobre os joelhos.
— Tio... — Minha voz falhou, um som quebrado que ecoou no vazio do salão. — Eros... ele e Mirella... ele disse que ela está grávida. Ele quer me descartar como se eu fosse nada.
Eu esperava que ele se levantasse em fúria. Esperava que ele convocasse os guardas, que rugisse como o Alfa substituto que deveria proteger a honra da sobrinha. Mas Gael não se moveu. Ele apenas inclinou a cabeça levemente, um gesto quase contemplativo.
— A natureza é implacável com o que não floresce, Lyara — ele disse, sua voz mantendo aquele tom aveludado que eu sempre confundi com carinho. — O que Eros fez é apenas a consequência lógica de uma falha que começou há muito tempo.
Recuei um passo, o chão parecendo oscilar sob meus pés. A traição de Eros fora uma facada; o tom de Gael era o veneno que começava a paralisar meus sentidos.
— Uma falha? Eu sou sua família! Sou o sangue do seu irmão! — gritei, a dor se transformando em uma indignação desesperada.
Gael finalmente se levantou. O som de suas botas no mármore era como batidas de um martelo em um caixão. Ele caminhou até uma das grandes janelas que davam para os limites da alcateia, onde a floresta era uma massa negra sob o luar.
— O sangue do meu irmão... — ele repetiu, e houve uma nota de amargura tão profunda em sua voz que o ar ao redor dele pareceu esfriar. — Você sempre se orgulhou tanto disso, não é? A pequena e frágil Lyara, o último vestígio do Rei Caelum e da Rainha Seraphina. Você se olha no espelho e vê uma linhagem real. Eu olho para você e vejo o motivo da minha vida ter sido vivida nas sombras.
Ele se virou, e o rosto que eu conhecia — o rosto do "bom tio" que me consolava após os pesadelos — havia desaparecido. No lugar, havia uma máscara de ódio destilado por décadas.
— Você tinha apenas um ano de idade, Lyara. Era pouco mais que um fardo de carne e choro quando a noite da Purificação aconteceu. Você se lembra do que eu te contei? Que ladrões e renegados invadiram o palácio? — Ele soltou uma risada seca, desprovida de humor. — Eu era o "ladrão". Eu era o mentor.
O mundo parou. Meus ouvidos começaram a zumbir, um som agudo que parecia querer explodir meu crânio. Tentei falar, mas minha boca estava seca, as palavras morrendo em uma garganta bloqueada pelo horror puro.
— Seu pai era o sol, e eu era a poeira sob seus pés — Gael continuou, aproximando-se de mim com a calma de um predador que sabe que a presa não tem para onde fugir. — Ele era o herdeiro legítimo, o lobo puro, o rei amado. Eu era o irmão adotivo, o bastardo acolhido por misericórdia. Eu o odiava. Odiava a luz que ele emanava e, acima de tudo, odiava a loba que ele escolheu. Seraphina... sua mãe... a Beta que deu a vida para salvar uma prole defeituosa.
Ele parou a poucos centímetros de mim. Eu podia sentir o cheiro de tabaco e couro vindo dele, o cheiro que sempre me trouxe segurança. Agora, era o cheiro da morte.
— Seus irmãos... — ele sibilou, os olhos brilhando com uma crueldade sádica. — Você deveria ter visto como eles lutaram. Arthur tinha vinte e dois anos, já era um guerreiro formado, o orgulho de Caelum. Ele se postou diante da porta do seu berçário como um titã. Eu precisei de dez homens para derrubá-lo. Mesmo com o pescoço rasgado, ele ainda tentava rastejar para alcançar o berço onde você dormia.
Minhas pernas cederam. Caí de joelhos no mármore frio, as mãos tapando os ouvidos, mas a voz de Gael era como um trovão que penetrava meus sentidos. Imagens que eu nunca vivi começaram a surgir em minha mente como flashes de sangue e sombras.
— Depois veio Killian e os gêmeos, Lucian e Silas. Dezesseis e dezoito anos. Crianças brincando de soldados. Eles formaram uma barreira de carne diante de você. Silas perdeu o braço defendendo a porta, e Lucian... oh, Lucian implorou. Não pela vida dele, mas pela sua. Eles lutaram até o último batimento cardíaco, Lyara. O sangue deles banhou o assoalho do seu quarto. O cheiro... era o cheiro do fim de uma era.
Soltei um soluço que rasgou meu peito, um som animal de pura agonia. Eu podia ver a cena. Meus quatro irmãos, os protetores que eu nunca cheguei a conhecer, sendo massacrados um a um para proteger o bebê que eu era.
— Por que...? — consegui soltar, as lágrimas lavando meu rosto em um fluxo incontrolável. — Se você nos odiava tanto, por que me deixou viva?
— Porque a morte seria gentil demais para você — Gael rosnou, agarrando meu queixo com uma força que ameaçava deslocar minha mandíbula. — E porque Seraphina fez algo que nem mesmo eu previ. Quando eu finalmente atravessei o mar de sangue dos seus irmãos e cheguei até ela, sua mãe não implorou. Ela apenas olhou para você e, em um ato de magia proibida e sacrifício lupino, ela entregou a própria essência dela para você. Ela selou a alma dela na sua.
Ele me soltou com nojo, como se eu fosse um objeto imundo.
— Você não apenas sobreviveu, Lyara. Você se tornou um cofre. Um cofre que contém a força da Rainha Beta e, como descobri mais tarde, vestígios do próprio Caelum. Eu te mantive viva para garantir que essa força nunca despertasse. Para garantir que a linhagem dos Jones morresse em vida. Estéril, sem loba, sem voz. Eu transformei a herdeira do trono na serva humilhada de um marido que eu mesmo escolhi para te quebrar.
Eu olhei para ele, a visão turva de dor e ódio. O homem que eu amei como um pai era o carniceiro da minha família. Ele assistiu meus irmãos morrerem. Ele comandou a lâmina que cortou a garganta do meu pai.
— Você é um monstro — sussurrei, a voz agora carregada de uma frieza que eu não sabia possuir.
— Sou o rei que este império merece — ele retrucou. — E agora que Mirella está carregando o filho de Eros, o sangue Jones será finalmente substituído. Eu não preciso mais de você no palácio, Lyara. O teatro acabou.
Gael fez um sinal com a mão. Dois guardas — homens que eu conhecia pelo nome, homens que deveriam me proteger — surgiram das sombras com as faces impassíveis.
— Levem-na para as masmorras inferiores — ordenou Gael, voltando-se para a janela como se eu já não passasse de um detalhe insignificante na história. — Amanhã, quando a alcateia estiver celebrando o novo herdeiro, faremos com que o desaparecimento da pobre e instável Lyara seja lamentado. Uma tragédia... o suicídio da Luna que não pôde dar filhos ao marido.
— Eu vou te matar — eu disse, enquanto os guardas agarravam meus braços, arrastando-me para fora do salão. Minha voz não era mais um choro; era uma promessa gravada em ferro. — Eu juro pelo sangue dos meus irmãos que manchou suas mãos... eu vou ver o seu fim.
Gael nem sequer se deu ao trabalho de olhar para trás. Enquanto eu era arrastada pelos corredores escuros, o peso do passado esmagava meus ombros. Meus pais. Arthur. Killian. Lucian. Silas. Nomes que agora eram fantasmas gritando em meu sangue.
Eu não era apenas uma loba sem alma. Eu era um cemitério. E, naquela escuridão profunda, algo dentro de mim — algo que estivera enterrado sob camadas de dor e silêncio por vinte anos — começou a vibrar. Não era apenas tristeza. Era um eco antigo. Uma força que Gael acreditava ter selado, mas que o ódio puro começava a rachar.
Eu estava sendo jogada no abismo, mas pela primeira vez, eu não tinha medo do escuro. Pois agora eu sabia quem eram os monstros que o habitavam. E eu era filha dos reis que eles haviam traído.







