Mundo de ficçãoIniciar sessãoEthan Carter vive de combate. Nos ringues da WWE, ele é imbatível. Frio. Estratégico. Aplausos, luzes, títulos e uma reputação construída à base de força bruta. Mas fora das cordas, ele é apenas um homem tentando ser suficiente para a filha de cinco anos que perdeu a mãe cedo demais. Lily é tudo o que restou de Hannah. E também é o maior medo de Ethan. Medo de errar. Medo de não saber preencher o vazio. Medo de que o silêncio da casa seja maior do que o amor que ele tenta oferecer. É então que Clara entra em suas vidas. Recém-formada em pedagogia e especializada em crianças com dificuldades de apego emocional, Clara carrega no olhar a doçura de quem também conheceu a perda e escolheu transformar dor em cuidado. Ela foi contratada para ajudar Lily. Apenas isso. Nada mais. Mas a casa que deveria ser apenas um local de trabalho começa a ganhar outra temperatura. Clara não trata Lily como uma criança quebrada. E não olha para Ethan como um ídolo intocável. Ela enxerga o pai por trás do lutador. O homem por trás da armadura. Entre canções de ninar, tardes no jardim e olhares que demoram segundos a mais do que deveriam, uma linha invisível começa a ser traçada. Uma linha perigosa. Porque Ethan sabe que se apaixonar pela babá da própria filha pode custar muito mais do que qualquer derrota no ringue. Mas o que ele não esperava… é que sua maior rendição não aconteceria diante de um adversário. Aconteceria diante de uma menina que só queria ver o pai sorrir outra vez. E diante de uma mulher que veio cuidar de sua filha… e acabou cuidando do seu coração também.
Ler maisMeu quarto é o lugar mais seguro da casa porque aqui tudo fica onde eu deixo e nada some sem avisar, as bonecas sentam direitinho no tapete cor-de-rosa, a caminha delas fica encostada na parede de baixo da janela e o sol da tarde entra sempre do mesmo jeito, fazendo um quadrado quentinho no chão que eu gosto de atravessar descalça, mesmo quando o chão está frio em outros lugares.
Hoje eu estou sentada no meio do tapete, com as pernas cruzadas meio tortas, porque nunca consigo ficar igual às meninas das fotos dos livros, e a minha boneca favorita está no meu colo, aquela de cabelo castanho comprido que eu penteio com cuidado para não embaraçar, porque embaraço dói, mesmo quando é cabelo de mentira, e eu não gosto de imaginar dor em coisas que eu gosto.
Do meu lado, bem pertinho, está a foto da mamãe.
Ela fica sempre ali, encostada na caixinha de música que só toca quando eu lembro de dar corda, e eu gosto de deixar a foto perto de mim quando brinco, porque assim parece que ela está assistindo, como se estivesse sentada na cama, com aquele sorriso que não muda nunca, nem quando eu fico olhando por muito tempo.
A mamãe na foto é bonita de um jeito calmo, como quando a gente acorda sem pressa, e eu sei que ela é minha mãe porque o papai diz, porque as pessoas dizem, porque tem vídeos também, mas às vezes eu sinto que sei disso por dentro, como se meu coração tivesse aprendido antes da minha cabeça.
O papai diz que ela mora no céu, mas não daquele jeito que dá para apontar com o dedo, e sim num lugar que não some nunca, mesmo quando a gente fecha os olhos.
Eu não lembro dela de verdade, só lembro das histórias.
O papai conta que ela ria alto quando ficava feliz e que cantava para mim quando eu era bebê, mesmo cantando meio errado, e às vezes, quando a casa fica muito silenciosa à noite, eu imagino que o silêncio é só ela ouvindo a gente dormir.
Meu papai é grande.
Não grande como os gigantes dos livros, mas grande de um jeito que ocupa os lugares, o sofá, a cozinha, os corredores, como se a casa tivesse sido desenhada para ele e eu tivesse sido desenhada para caber no espaço do braço dele quando ele me pega no colo.
Ele trabalha muito, eu sei disso porque as pessoas sempre dizem, e porque ele sai cedo e volta quando o céu já está mudando de cor, mas quando ele chega, ele sempre pergunta como foi meu dia, mesmo que meu dia seja só bonecas, desenhos e histórias repetidas.
Eu gosto quando ele me chama de “pequena”, porque parece que essa palavra me guarda.
Às vezes ele fica olhando para mim como se estivesse pensando em outra coisa, e eu não sei explicar, mas parece um olhar pesado, como quando a mochila da escola fica cheia demais, e eu tenho vontade de dizer que está tudo bem, mesmo sem saber exatamente o que é esse tudo.
No meu quarto tem cheiro de sabonete, lápis de cor e um pouquinho do perfume dele, que fica nas minhas roupas quando ele me abraça forte demais antes de sair, como se estivesse tentando me levar junto sem ninguém perceber.
Eu não sei tudo sobre o mundo.
Eu sei o nome das minhas bonecas, sei que a mamãe está na foto e em algum lugar que não dói mais, sei que o papai é meu e que eu sou dele, e sei que aqui, sentada no tapete com o sol passando devagar pelo chão, eu sou feliz de um jeito simples, daquele que não precisa ser explicado.
Eu encosto a foto da mamãe mais perto da boneca, como se estivesse apresentando as duas, e sorrio sozinha, porque gosto de pensar que, mesmo sem estar aqui de verdade, ela ainda faz parte das minhas brincadeiras, do meu quarto e de mim.
E isso, para mim, já é quase tudo.
Hoje a casa acordou diferente porque meu pai vai viajar e isso normalmente deixa tudo meio torto por dentro, mas dessa vez não ficou, ficou só… diferente de um jeito bom, como quando a gente muda o lugar dos móveis e descobre que dá mais espaço para dançar.Eu sei que ele vai lutar porque ele sempre luta quando viaja, e eu gosto de ir junto porque fico nos bastidores e vejo tudo de pertinho, mas agora eu vou ficar em casa, e isso não me dá aquele frio na barriga que dava antes, porque agora tem a Clara.A Clara acorda cedo, mas não cedo demais, e ela sempre bate na porta antes de entrar no meu quarto, mesmo quando eu já estou sentada na cama esperando, porque eu gosto de saber quando as pessoas chegam.— Bom dia — ela diz, com a voz ainda meio dormindo.— Bom dia — respondo. — Hoje é dia de meninas.Ela ri, daquele jeito que não faz barulho alto, mas faz cócegas no ar.No café da manhã, eu explico tudo direitinho, o que a gente vai fazer enquanto meu pai estiver fora, porque é importa
O silêncio da sala pesa diferente depois que a Clara sobe, não pesado como culpa, mas pontudo, daqueles que ficam cutucando a cabeça até você perceber exatamente onde errou.Eu continuo sentado no sofá, olhando para um ponto qualquer da parede, me perguntando em que momento achei uma boa ideia perguntar, mesmo que de forma indireta, se ela tinha amigos, vida social e, claro, um possível namorado, como se isso fosse um comentário neutro, casual, absolutamente normal.Não foi.Foi estranho.Pior, foi o tipo de estranho que parece inofensivo na sua cabeça e soa completamente fora de lugar no mundo real, e o fato de ela ter subido logo depois não ajuda em nada, porque agora minha mente insiste em criar versões alternativas daquela conversa onde eu simplesmente ficava quieto e evitava parecer um sujeito que perdeu a noção básica de convivência humana.Anos sem nenhum relacionamento fazem isso com um homem.Enferrujam neurônios importantes, corroem filtros sociais, deixam a gente confundir
Os dias seguintes não chegam com alarde, eles simplesmente se instalam, um depois do outro, como se aquela casa tivesse decidido me testar em silêncio antes de me aceitar por completo.Acordo cedo demais no primeiro dia por puro hábito, mesmo sem despertador, e fico alguns minutos deitada na cama nova, ouvindo sons que ainda não reconheço direito, passos distantes, o canto baixo de algum pássaro no jardim, o murmúrio da casa acordando sem pressa. A suíte é grande demais para quem passou meses dividindo espaço, mas não é fria, tem uma luz suave entrando pela janela e uma sensação estranha de abrigo provisório, como se dissesse “fica, mas observa”.Lily bate na porta antes de entrar, duas batidinhas rápidas que já viraram código, e aparece com o cabelo despenteado e uma energia que não combina com o horário.— Bom dia — ela anuncia, como se fosse meio-dia.— Bom dia — respondo, sorrindo. — Você dormiu bem?— Dormi — diz, satisfeita. — Sonhei com o cachorro.— Claro que sonhou.Ela se jo
Lily está elétrica de um jeito que não vem do açúcar nem da vitória da noite anterior, mas daquele entusiasmo raro que aparece quando algo novo encaixa no lugar certo sem esforço, e eu observo isso do outro lado da mesa com a atenção silenciosa de quem já aprendeu a medir o humor da própria filha pelos detalhes mais pequenos.Ela se senta com as pernas balançando sob a cadeira, inclinada na direção da Clara como se o mundo inteiro tivesse encolhido até caber naquele espaço entre as duas, e antes mesmo que o almoço seja servido, o interrogatório começa.— Você sempre morou aqui? — Lily pergunta, séria, apoiando os cotovelos na mesa.Clara sorri, mas não daquele jeito condescendente que adultos usam quando acham a pergunta “fofa”, e sim como quem considera a curiosidade legítima.— Não — ela responde. — Eu já morei em outros lugares. Alguns bons, outros nem tanto.— Tipo onde?— Em uma casa pequena perto dos meus avós. Depois em um apartamento apertado com uma amiga.— E você gostava?—
O colchão está direto no chão, encostado na parede onde a tinta é um pouco mais clara por causa de um quadro que já não existe ali, e eu estou deitada de lado, o celular apoiado no peito, observando a luz do fim da tarde atravessar a janela como se estivesse tentando decidir se fica ou vai embora.Eu já sei o que vou fazer.Isso é o mais estranho.Não é dúvida que me mantém ali parada, é o cuidado com o gesto, como se aceitar aquele emprego exigisse um ritual próprio, um último momento de silêncio antes de atravessar uma porta que não se fecha depois.O nome do Ethan está salvo no meu telefone desde a noite anterior. Não como “vaga”, não como “entrevista”, apenas o nome dele, simples demais para tudo o que carrega, e eu já ensaiei mentalmente a ligação algumas vezes, imaginando minha voz firme, adulta, dizendo que sim, que aceito, que estou disponível.Mesmo assim, não ligo.Em vez disso, desbloqueio a tela e faço o que qualquer pessoa faria antes de mudar a própria vida de forma tão
A arena ainda pulsa mesmo depois que a luta termina, como se o lugar demorasse a aceitar que o espetáculo acabou, e eu caminho pelo corredor com a Lily pela mão enquanto Marcus segue logo atrás, o cheiro de comida, suor e adrenalina misturados num cansaço que não é ruim, apenas denso.Clara nos espera perto da saída dos bastidores, a mochila pendurada em um dos ombros, postura tranquila demais para alguém que acabou de atravessar um mundo que não é o dela, e ainda assim parece encaixar ali com uma naturalidade que me desconcerta.Antes que eu diga qualquer coisa, Lily solta minha mão.Ela atravessa a curta distância que nos separa sem hesitar, os passos decididos, e envolve Clara num abraço espontâneo, desses que não pedem permissão porque não aprenderam ainda a duvidar.Eu prendo a respiração por reflexo.Clara demora meio segundo para reagir, só o suficiente para não assustá-la, e então se inclina, retribuindo o abraço com cuidado, respeitando o tamanho, o espaço, o gesto.— Você qu





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