Capítulo 5 - Ethan

A arena ainda pulsa mesmo depois que a luta termina, como se o lugar demorasse a aceitar que o espetáculo acabou, e eu caminho pelo corredor com a Lily pela mão enquanto Marcus segue logo atrás, o cheiro de comida, suor e adrenalina misturados num cansaço que não é ruim, apenas denso.

Clara nos espera perto da saída dos bastidores, a mochila pendurada em um dos ombros, postura tranquila demais para alguém que acabou de atravessar um mundo que não é o dela, e ainda assim parece encaixar ali com uma naturalidade que me desconcerta.

Antes que eu diga qualquer coisa, Lily solta minha mão.

Ela atravessa a curta distância que nos separa sem hesitar, os passos decididos, e envolve Clara num abraço espontâneo, desses que não pedem permissão porque não aprenderam ainda a duvidar.

Eu prendo a respiração por reflexo.

Clara demora meio segundo para reagir, só o suficiente para não assustá-la, e então se inclina, retribuindo o abraço com cuidado, respeitando o tamanho, o espaço, o gesto.

— Você quer ser minha amiga? — Lily pergunta, a voz abafada contra o tecido do macacão, simples como quem oferece algo precioso sem calcular risco.

Meu peito aperta.

Clara sorri, e não é um sorriso treinado, é aquele que nasce fácil quando a resposta já existe antes da pergunta.

— Quero — ela diz. — E acho que a gente vai se ver de novo em breve.

Lily se afasta um pouco, satisfeita, como se tivesse acabado de resolver algo importante demais para ser adiado, e segura a mão de Clara por mais alguns segundos antes de finalmente soltá-la e voltar para o meu lado.

— Eu disse que você era legal — ela anuncia, olhando para mim como se estivesse confirmando uma teoria antiga.

— Disse mesmo — respondo, a voz mais baixa do que eu pretendia.

Marcus pigarreia atrás de nós, disfarçando um sorriso que eu conheço bem demais para fingir que não vi.

— A gente precisa ir, pequena — ele avisa. — Já passou do seu horário de virar abóbora.

Lily faz uma careta dramática, mas aceita, abraçando Marcus pela cintura antes de se despedir de Clara com um aceno exagerado.

— Tchau! — ela diz.

— Tchau, Lily — Clara responde. — Dorme bem.

Quando fico sozinho com ela por um instante, o barulho da arena parece diminuir, como se o mundo estivesse nos dando um espaço breve demais para o que aquela conversa realmente carrega.

— Obrigado por hoje — digo. — De verdade.

Ela ajusta a alça da mochila no ombro e assente.

— Obrigada você — responde. — Por confiar o suficiente para me mostrar tudo isso.

Há algo de firme no jeito como ela fala, sem promessas vazias, sem dramatização, e isso me agrada mais do que qualquer entusiasmo exagerado.

— Me avisa quando decidir — digo. — Seja qual for a resposta.

— Vou entrar em contato — ela garante. — Preciso organizar algumas coisas, mas eu te ligo.

Assinto, respeitando aquele espaço que ela pediu sem precisar justificar, e estendo a mão.

Ela aperta de volta com segurança, e por um segundo eu penso que algumas decisões importantes começam assim, sem assinatura, sem contrato, apenas com a sensação clara de que algo essencial acabou de se mover para mais perto do lugar certo.

Clara se afasta pelo corredor, e eu fico observando até ela desaparecer entre as pessoas, sentindo a Lily se encostar em mim, cansada, satisfeita, segura demais para alguém que acabou de conhecer uma possibilidade nova.

— Ela é minha amiga — Lily diz, bocejando.

— Talvez seja — respondo, passando a mão pelo cabelo dela.

Mas enquanto caminhamos para fora da arena, eu sei que aquela noite não terminou ali, porque algumas despedidas não fecham ciclos, apenas deixam portas entreabertas, esperando a coragem necessária para serem atravessadas.

***

A casa está silenciosa quando entramos, um silêncio macio, desses que só existem depois de um dia grande demais, e as luzes ficam baixas enquanto eu tiro os sapatos da Lily no tapete da sala, ela já meio sonolenta, mas ainda tentando segurar o fio da noite como se não quisesse deixar nada escapar.

Carrego ela no colo até o quarto, sentindo o peso leve do corpo relaxado contra o meu, e penso em como algumas vitórias fazem barulho demais enquanto outras se revelam nesse tipo de quietude que quase parece sagrada.

O quarto dela está do jeito de sempre, a luz de abajur desenhando sombras conhecidas nas paredes, as bonecas alinhadas com uma lógica que só ela entende, e eu a coloco na cama com cuidado, puxando o cobertor até o peito dela antes de me sentar na beirada do colchão.

— Hoje foi um dia cheio — digo, mais para acompanhar o ritmo da conversa do que para conduzi-la.

— Foi — ela concorda, bocejando. — Você ganhou.

— Ganhei — respondo.

— E eu comi cachorro-quente — ela acrescenta, como se aquilo equilibrasse perfeitamente a equação.

Sorrio e passo os dedos pelo cabelo dela, desfazendo um nó pequeno que se formou perto da nuca.

— O que você achou da noite? — pergunto.

Ela pensa por alguns segundos, os olhos seguindo um ponto invisível no teto, e então vira o rosto na minha direção, mais desperta do que eu esperava.

— Foi legal — diz. — Tinha barulho, mas eu gosto quando você está perto.

— E da Clara? — pergunto, tentando manter o tom leve, como quem pergunta sobre um desenho novo, mas por dentro atento a cada detalhe.

Lily sorri imediatamente, um sorriso aberto, sem hesitação.

— Eu gostei dela.

O coração b**e diferente com essa resposta simples demais para carregar tudo o que significa.

— Por quê? — pergunto, sabendo que crianças sempre têm motivos que adultos ignoram.

— Porque ela me escutou — Lily responde, como se fosse óbvio. — E porque ela riu comigo. E porque ela não tentou mandar em mim.

Engulo em seco.

— Ela cheira bem — Lily acrescenta, como se estivesse lembrando de algo importante. — Cheira a café e sabonete.

Rio baixo, encostando a testa na dela por um instante.

— Você perguntou se ela queria ser sua amiga — digo.

— Perguntei — ela confirma. — Amiga pode ficar.

A frase me atinge em cheio, não pela inocência, mas pela clareza.

— E se ela ficasse mais tempo com a gente? — arrisco. — Você ia gostar?

Lily não responde de imediato. Ela pensa, séria, ponderando com uma responsabilidade que não combina com cinco anos, e então dá um pequeno aceno afirmativo.

— Ia. — diz. — Mas só se ela quiser.

O cuidado nessa resposta me desmonta mais do que qualquer grito de torcida naquela noite.

— Só se ela quiser — repito.

Ela boceja de novo, agora sem resistência, os olhos pesados, o corpo afundando no colchão enquanto eu ajeito o cobertor uma última vez.

— Pai? — ela murmura, já quase dormindo.

— Oi, pequena.

— Diz pra ela que eu gostei.

Minha mão permanece ali, firme, guardando o sono dela, enquanto a respiração se acalma e a casa parece se ajustar ao ritmo daquela criança que ainda não sabe, mas já sente, quando algo bom está tentando entrar no nosso mundo.

***

O quarto está escuro demais para pensamentos que insistem em acender sozinhos, e eu fico deitado de costas, um braço jogado sobre os olhos, ouvindo o som distante da casa acomodando a noite, o ar-condicionado ligando e desligando, o estalo suave da madeira esfriando, como se tudo estivesse tentando me convencer a descansar.

Não funciona.

É sempre assim quando o dia termina carregado demais de coisas novas, porque o silêncio acaba puxando lembranças antigas, aquelas que nunca pedem licença antes de sentar ao meu lado.

Ela vem como vem sempre.

Não como dor aguda, não como tragédia, mas como presença, um contorno suave que se desenha no escuro do quarto, o jeito como ela costumava ocupar o outro lado da cama, deixando os travesseiros desalinhados e um cheiro leve que demorava a ir embora mesmo depois que as janelas ficavam abertas o dia inteiro.

Penso nela rindo baixo, daquele jeito que começava no peito antes de chegar à boca, penso no modo como ela falava com a Lily ainda na barriga, explicando o mundo como se estivesse contando um segredo importante demais para ser apressado, e sinto o peso familiar da saudade se acomodar onde já existe espaço reservado para ela.

Eu me pergunto o que ela diria sobre a noite de hoje.

Se acharia graça da Lily narrando a luta como se fosse uma história inventada, se repararia primeiro na minha vitória ou no fato de que eu observei uma ruiva desconhecida como quem encontra água no meio de um terreno seco demais.

Ela sempre percebeu essas coisas antes de mim.

Fecho os olhos e quase consigo ouvi-la dizendo que nem toda mudança precisa vir acompanhada de medo, que às vezes a vida só testa se a gente ainda sabe abrir a porta sem tentar controlar tudo antes.

Clara surge no meio desse pensamento sem pedir desculpa, o cabelo ruivo iluminado pela memória recente, o sorriso fácil, o cuidado silencioso com a Lily, e por um segundo eu sinto culpa, não por sentir algo novo, mas por perceber que a casa respirou diferente quando aquela possibilidade apareceu.

Não é substituição.

Nunca foi.

É continuidade, ainda que a palavra pareça grande demais para caber agora.

Viro de lado, encarando a parede, e deixo que a lembrança da minha esposa se assente com a mesma dignidade que sempre teve, sem disputa, sem comparação, apenas como parte de quem eu sou e de tudo o que construímos juntos.

Sussurro um agradecimento que ninguém escuta, nem sei exatamente para quem, talvez para ela, talvez para o tempo que passou, talvez para a coragem silenciosa de seguir em frente mesmo quando o caminho ainda parece borrado.

Quando finalmente o sono começa a chegar, não é pesado nem inquieto.

É um descanso cauteloso, desses que não prometem respostas, mas oferecem trégua, e pela primeira vez em muito tempo, eu adormeço com a sensação de que lembrar não dói tanto quando o futuro começa, ainda que timidamente, a pedir espaço ao lado das memórias.

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