Capítulo 1 - Ethan

O camarim cheira a couro, linimento e eletricidade contida, aquela mistura estranha que sempre antecede uma luta e que eu aprendi a associar não só ao ringue, mas à necessidade de manter a cabeça no lugar mesmo quando tudo pede explosão.

Estou sentado no banco estreito, os antebraços apoiados nas coxas, as mãos enfaixadas descansando abertas, enquanto um dos caras da equipe termina de ajustar o tape no meu punho com movimentos automáticos, quase ritualísticos, e eu observo meu reflexo no espelho grande à minha frente, tentando reconhecer ali o mesmo homem que entra no ringue sem hesitar e aquele outro que deixa uma luz acesa no corredor de casa porque a filha não gosta de escuro.

O barulho do lado de fora é constante, abafado pelas paredes grossas, mas ainda assim presente, uma massa viva de vozes, música e expectativa, e eu estou exatamente onde deveria estar, no meio da temporada, focado, inteiro, preparado para mais uma luta que não admite distrações.

Ou pelo menos deveria.

O celular vibra em cima do banco ao meu lado, insistente o suficiente para me arrancar do transe, e eu olho para a tela mais por reflexo do que por vontade, esperando qualquer coisa banal, uma confirmação de horário, um recado da equipe, algo que possa ser resolvido depois.

Não é.

O nome da babá aparece ali, acompanhado de uma mensagem longa demais para ser boa notícia, e conforme meus olhos percorrem as palavras, uma sensação quente e incômoda começa a se espalhar pelo peito, como se alguém tivesse puxado o ar do ambiente sem pedir licença.

Ela se desculpa, diz que adorou cuidar da Lily, que foi uma experiência linda, que jamais esquecerá, mas explica que vai se casar, que o noivo recebeu uma proposta de trabalho em outro estado, que a mudança já está marcada e que, infelizmente, não poderá continuar.

Infelizmente.

A palavra ecoa na minha cabeça enquanto eu aperto a mandíbula sem perceber, sentindo o músculo do maxilar travar, porque não existe infelizmente quando se fala da minha filha, existe problema, existe urgência, existe uma engrenagem inteira prestes a sair do eixo.

É meio de temporada.

Não é uma fase em que eu possa improvisar, faltar, cancelar, adaptar agendas com facilidade, e muito menos confiar a Lily a qualquer pessoa só porque o tempo está correndo contra mim, porque ela não é um detalhe da minha rotina, ela é o centro, o ponto fixo em torno do qual todo o resto gira.

Minha filha é meu bem mais precioso, e isso não é uma frase bonita, é uma verdade dura, absoluta, que orienta cada escolha que eu faço desde o dia em que a segurei nos braços pela primeira vez sem saber como o mundo tinha conseguido caber em algo tão pequeno.

Eu passo a mão pelo rosto devagar, sentindo o tecido áspero da faixa roçar na pele, enquanto releio a mensagem como se ela pudesse mudar sozinha, como se uma segunda leitura fosse capaz de empurrar a realidade para outro lugar.

Não empurra.

A babá se oferece para ajudar na transição, para indicar alguém, para ficar mais algumas semanas se for possível, mas semanas não resolvem nada quando o problema é estrutural, quando o que eu preciso não é apenas alguém que fique com a Lily, e sim alguém que entenda, respeite, proteja, alguém que entre na minha casa sabendo que ali não se pisa em falso.

Do outro lado do espelho, meu reflexo parece mais duro agora, menos concentrado na luta e mais atento a esse outro combate invisível que ninguém anuncia, mas que sempre exige mais de mim do que qualquer adversário no ringue.

Eu respiro fundo, guardo o celular no bolso e fecho os olhos por um segundo a mais do que o necessário, sabendo que vou entrar naquela arena em poucos minutos como sempre entro, inteiro, implacável, preciso, enquanto minha cabeça já corre em outra direção, calculando opções, descartando riscos, buscando uma solução que não coloque em jogo a única coisa que eu jamais me permitiria perder.

A luta daquela noite eu sei como enfrentar.

O verdadeiro desafio começa quando as luzes se apagam, o público vai embora e tudo o que me espera é uma casa silenciosa demais para uma menina que merece muito mais do que pressa, improviso ou qualquer tipo de erro.

***

O nocaute vem como resposta, não como impulso, porque eu já estava ali antes mesmo de entrar no ringue, concentrado demais para errar, e quando meu punho encontra o alvo, tudo se resolve rápido, limpo, definitivo, do jeito que uma luta precisa terminar quando não há espaço para hesitação.

A arena explode em som e luz, o árbitro se apressa, o corpo do adversário fica no chão, e eu recuo dois passos, respirando fundo enquanto o sangue ainda corre quente, tentando lembrar que aquela vitória não muda o que realmente importa.

No caminho de volta para o camarim, entre cumprimentos, gritos e mãos batendo no meu ombro, eu sinto o corpo esfriar aos poucos, e é nesse intervalo silencioso entre a euforia dos outros e o meu próprio pensamento que o nome da Lily volta com força total.

Quando entro no camarim, a toalha já está ali, o banco no mesmo lugar de sempre, e eu ainda estou passando a mão pelo rosto quando escuto a voz que eu reconheceria em qualquer lugar.

— Você sempre faz essa cara depois de vencer — Marcus diz, encostando no armário metálico como se aquele fosse o escritório mais comum do mundo. — A de quem resolveu o problema errado primeiro.

Eu solto um meio sorriso cansado, porque ele me conhece demais para fingir que não percebe.

— Nem todo problema se resolve com um soco — respondo, enquanto me sento. — E alguns não se resolvem de jeito nenhum.

Marcus descruza os braços, dá dois passos na minha direção e abaixa um pouco o tom de voz, como se a conversa exigisse o mesmo cuidado que ele sempre teve com a Lily desde o dia em que aceitou ser padrinho dela.

— É a babá, né? — ele pergunta, direto, sem rodeios.

Levanto o olhar devagar e confirmo com a cabeça.

— Vai embora. Vai casar, mudar de estado, seguir a vida. — passo a toalha pelo cabelo ainda úmido. — E eu estou no meio da temporada, Marcus. No meio.

Ele solta um suspiro curto e balança a cabeça, pensativo.

— Tá. Então escuta antes de surtar — ele diz, erguendo um dedo como aviso. — Você lembra do orfanato onde eu faço trabalho voluntário?

— Lembro — respondo. — A Lily perguntou de você esses dias.

O canto da boca dele se curva num sorriso rápido.

— Então. Tinha uma estagiária lá. Ruiva. Nova, mas absurdamente responsável. — ele pausa, me observando com atenção. — As crianças adoravam ela. Não aquele gostar barulhento, mas aquele de procurar quando estão cansadas.

Eu fico em silêncio, ouvindo.

— Ela sentava no chão, Ethan — Marcus continua. — Literalmente. Nunca falava de cima. E quando alguma criança chorava, ela não apressava o choro, deixava acontecer. Isso não é comum.

Algo dentro de mim se ajusta, quase imperceptível.

— E o que isso tem a ver comigo? — pergunto, embora já saiba.

Marcus enfia a mão no bolso e tira o celular.

— Eu tenho o contato dela. Guardei porque gente assim não aparece toda hora. — ele me encara sério agora. — Não estou dizendo que é solução mágica, nem que você tem que confiar de olhos fechados. Estou dizendo que, se alguém merece ao menos uma conversa, é ela.

Eu fico alguns segundos em silêncio, sentindo o peso da decisão antes mesmo de existir uma proposta formal, porque qualquer coisa que envolva a Lily carrega um risco que eu nunca trato como pequeno.

— Não pode ser qualquer pessoa — digo por fim, a voz mais baixa. — Você sabe disso.

Marcus assente imediatamente.

— Eu sei. — ele responde. — Por isso estou aqui e não jogando esse nome no ar como se fosse favor. Ela não é qualquer criança. Ela é minha afilhada.

Essa frase fica no ar por um instante longo demais para ser ignorada.

Eu respiro fundo, encosto as costas no banco e fecho os olhos por um segundo, sabendo que, pela primeira vez naquela noite, a vida não está me empurrando contra a parede, e sim abrindo uma fresta cuidadosa.

— Me passa o contato — digo, finalmente. — Sem promessas. Sem pressa. Mas me passa.

Marcus sorri, satisfeito, e digita rápido antes de estender o celular na minha direção.

— É só uma conversa — ele reforça. — Às vezes, é assim que as coisas certas começam.

Eu olho para o nome na tela como quem encara algo que ainda não entende completamente, mas respeita, e guardo o telefone no bolso com o mesmo cuidado que teria ao segurar a mão da minha filha.

A luta daquela noite já ficou para trás.

O que vem agora exige um tipo diferente de força.

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