O camarim cheira a couro, linimento e eletricidade contida, aquela mistura estranha que sempre antecede uma luta e que eu aprendi a associar não só ao ringue, mas à necessidade de manter a cabeça no lugar mesmo quando tudo pede explosão.Estou sentado no banco estreito, os antebraços apoiados nas coxas, as mãos enfaixadas descansando abertas, enquanto um dos caras da equipe termina de ajustar o tape no meu punho com movimentos automáticos, quase ritualísticos, e eu observo meu reflexo no espelho grande à minha frente, tentando reconhecer ali o mesmo homem que entra no ringue sem hesitar e aquele outro que deixa uma luz acesa no corredor de casa porque a filha não gosta de escuro.O barulho do lado de fora é constante, abafado pelas paredes grossas, mas ainda assim presente, uma massa viva de vozes, música e expectativa, e eu estou exatamente onde deveria estar, no meio da temporada, focado, inteiro, preparado para mais uma luta que não admite distrações.Ou pelo menos deveria.O celul
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