Capítulo 2 - Clara

Eu estou sentada no chão do apartamento porque a cama já foi desmontada e o colchão encostado na parede me dá a sensação de que eu já não pertenço mais a esse lugar, mesmo antes de ir embora, e talvez seja por isso que meus pensamentos ficam rodando em círculos, como se estivessem procurando um canto para se apoiar sem encontrar.

Los Angeles sempre foi grande demais para quem não tem nada garantido, e hoje ela parece ainda maior, espalhada além da janela, indiferente ao fato de que meu contrato de aluguel acabou, de que a minha amiga já voltou para a cidade dos pais e de que eu fiquei para trás tentando esticar um plano que não existe mais.

O estágio no orfanato terminou oficialmente há duas semanas, com direito a despedidas emocionadas, desenhos dobrados dentro da mochila e promessas que eu não sei se vou conseguir cumprir, e desde então meus dias se resumem a enviar currículos, responder e-mails com cuidado excessivo, ajustar palavras para parecer confiante quando tudo em mim está em modo espera.

Já fiz entrevistas suficientes para começar a reconhecer padrões, o sorriso educado do outro lado da mesa, as perguntas que se repetem, o “entraremos em contato” que nunca vem acompanhado de prazo, e eu volto para casa sempre com a mesma sensação estranha de ter ido bem demais para não receber resposta nenhuma, ou mal demais para merecer um retorno sincero.

O problema é que esperar custa caro.

Custa aluguel, custa tempo, custa aquele aperto no peito que aparece toda vez que eu penso em ligar para meus avós e dizer que talvez precise voltar antes do planejado, mesmo sabendo que eles me receberiam de braços abertos, porque carinho nunca foi o problema, mas voltar agora parece admitir uma derrota que ainda não aconteceu completamente.

Eu olho ao redor do apartamento quase vazio, caixas empilhadas, a mesa sem cadeiras, a cozinha ecoando quando eu caminho descalça, e me pergunto como vou continuar aqui, como vou pagar o próximo mês, como vou sustentar a ideia de que esse lugar ainda pode ser meu quando tudo indica que ele já está me expulsando com delicadeza.

Meu celular está ao meu lado, em cima de uma caixa etiquetada como “livros”, e eu o encaro como se ele tivesse alguma resposta guardada que se recusa a aparecer, porque nenhuma das empresas ligou, nenhum e-mail novo chegou, e o silêncio começa a ficar alto demais.

É quando a tela se acende.

Número desconhecido.

Por um segundo, eu penso em não atender, porque aprendi rápido demais a desconfiar de esperanças repentinas, mas algo em mim se mexe, uma inquietação pequena, insistente, e antes que eu possa racionalizar demais, passo o dedo pela tela e levo o celular ao ouvido.

— Alô? — digo, a voz um pouco mais baixa do que eu gostaria, como se falar alto demais pudesse espantar qualquer possibilidade.

Do outro lado, há uma breve pausa, curta o suficiente para não ser erro de ligação, longa o bastante para me fazer prender a respiração, e eu sinto, sem saber explicar por quê, que aquele simples toque pode estar prestes a mudar mais do que apenas o rumo daquele dia.

— Alô?

Do outro lado da linha, a respiração é firme, adulta, controlada demais para ser engano, e a voz que surge em seguida tem um peso que não vem do volume, mas da segurança de quem está acostumado a ser ouvido.

— Clara? Aqui é o Ethan. Ethan Walker.

Meu cérebro demora um segundo a acompanhar, porque o nome não me diz nada de imediato, e eu fico ali, com o celular colado à orelha, olhando para a parede vazia do apartamento como se ela pudesse me ajudar a completar a frase que ainda não terminou.

— Eu consegui seu contato através de algumas referências no orfanato onde você fez estágio — ele continua, sem pressa, como se soubesse que aquela informação precisava pousar com cuidado. — Falaram muito bem de você.

Meu coração dá um salto pequeno, involuntário, desses que não chegam a doer, mas deixam rastro, e eu me ajeito no chão, puxando as pernas mais para perto do corpo, porque de repente aquela ligação exige postura, mesmo que ninguém esteja me vendo.

— Certo… — respondo, tentando manter a voz firme, profissional, apesar de sentir os dedos ficarem levemente frios. — Em que posso ajudar?

Ele faz uma pausa curta, estratégica, como quem escolhe palavras com a mesma atenção que escolheria um caminho.

— Eu estou procurando alguém para um trabalho específico — diz. — Algo que exige confiança, sensibilidade e referências muito sólidas. Seu nome surgiu mais de uma vez.

A palavra confiança se aloja em mim de um jeito estranho, quase íntimo demais para uma primeira conversa, e eu engulo em seco antes que ele continue.

— Pensei que talvez fosse melhor conversarmos pessoalmente — ele acrescenta. — Se você tiver disponibilidade, gostaria de te convidar para um café. Só para conversarmos sobre uma proposta de emprego.

Proposta de emprego.

As palavras ecoam dentro da minha cabeça como se alguém tivesse aberto uma janela depois de dias de ar parado, e eu sinto um calor súbito subir pelo peito, misturado com cautela, porque esperança demais também assusta quando a gente já está cansada de esperar.

— Um café… — repito, mais para ganhar tempo do que por falta de entendimento. — Claro.

Ele parece perceber a minha hesitação, porque o tom dele suaviza um pouco.

— Sem compromisso algum, Clara. Se depois da conversa você achar que não faz sentido, tudo bem.

Eu olho para o apartamento quase vazio, para as caixas, para o colchão encostado na parede, para o celular ainda pressionado contra a minha orelha, e penso que às vezes a vida não resolve nada de uma vez, mas oferece pequenas mesas de café onde escolhas começam a se desenhar.

— Eu posso, sim — respondo, sentindo a voz ganhar um pouco mais de firmeza. — Quando você pensou?

Do outro lado da linha, eu quase consigo ouvir um sorriso contido, discreto, como se aquela fosse a primeira confirmação de algo que ele já vinha considerando.

— Amanhã à tarde, se for possível — ele diz. — Conheço uma cafeteria tranquila, nada muito cheio.

Amanhã.

A palavra soa perigosamente próxima e, ao mesmo tempo, estranhamente certa.

— Amanhã funciona — digo.

Ele agradece, combina o horário, promete mandar o endereço por mensagem e se despede de forma objetiva, sem excessos, como se soubesse que aquela conversa ainda não terminou de verdade.

Quando a ligação se encerra, o silêncio volta ao apartamento, mas não é mais o mesmo, porque agora ele carrega expectativa, possibilidade e uma pergunta nova pulsando no fundo do peito.

Eu baixo o celular devagar e encaro a tela apagada por alguns segundos, respirando fundo, consciente de que, pela primeira vez em dias, Los Angeles não parece apenas um lugar de onde eu preciso sair, mas talvez um lugar onde algo ainda possa começar.

***

Eu chego alguns minutos antes do combinado porque não consigo mais ficar dentro do apartamento vazio fingindo que não estou nervosa, e a cafeteria é exatamente como ele descreveu, pequena, clara, com mesas de madeira claras e uma vitrine simples onde os bolos parecem ter sido colocados ali com cuidado quase doméstico.

Escolho uma mesa mais afastada, perto da janela, não por estratégia, mas por hábito, porque sempre gostei de observar antes de ser observada, e deixo a mochila no chão, encostada na perna da cadeira, como se isso pudesse me manter ancorada.

Estou usando meu macacão jeans de sempre, aquele já surrado nos joelhos e um pouco mais claro nas dobras do tecido, porque foi comigo em dias longos demais no orfanato, em entrevistas que não deram em nada e em manhãs em que eu precisei me lembrar de quem eu era antes de qualquer resposta negativa. Nos pés, meu Converse velho e desbotado, que já perdeu a cor original há tanto tempo que virou quase um tom próprio, e por um instante eu me pergunto se deveria ter tentado parecer outra coisa, mais organizada, mais profissional, menos eu.

A resposta vem sozinha quando a porta da cafeteria se abre.

Ethan entra como se o espaço tivesse que se adaptar a ele, e não o contrário, alto demais para o ambiente delicado, largo nos ombros, com uma postura que não pede licença nem atenção, mas acaba recebendo as duas coisas mesmo assim. Ele veste algo simples, uma camiseta escura e jeans, nada ostensivo, mas há algo bruto na maneira como ele ocupa o próprio corpo, como se cada movimento fosse econômico, treinado, contido por escolha e não por falta de força.

Ele olha ao redor uma única vez, rápido, avaliando o ambiente com o mesmo cuidado de quem já precisou medir saídas, riscos e distâncias, e quando seus olhos encontram os meus, eu sei imediatamente que é ele, mesmo sem foto, mesmo sem referência visual anterior, porque há uma coerência estranha entre a voz da ligação e o homem que agora caminha na minha direção.

Ele para diante da mesa por um segundo, como se estivesse ajustando o próprio tamanho àquele contexto, e estende a mão.

— Clara.

A voz é a mesma, grave, firme, e quando eu seguro a mão dele, sinto a diferença de imediato, a palma quente, calejada, grande demais em comparação à minha, e aquilo me deixa consciente do contraste entre nós de um jeito quase físico demais para uma primeira impressão.

— Ethan — respondo, levantando-me por reflexo, mesmo sabendo que não precisava.

Sentamos.

Ele ocupa a cadeira com facilidade, joelhos afastados, antebraços apoiados na mesa, enquanto eu cruzo as pernas sem perceber, puxo um pouco o tecido do macacão e apoio as mãos no colo, tentando não parecer menor do que já sou ao lado dele.

Por um instante breve, me sinto deslocada, como se tivéssemos vindo de mundos que só se encontram em histórias improváveis, ele com aquele corpo que parece feito para o impacto, para o confronto, para a proteção, e eu com minhas roupas gastas, meus tênis velhos e uma vida que, naquele momento, está em suspenso.

Ele observa tudo sem parecer julgador, mas atento, como alguém que percebe detalhes porque aprendeu que detalhes importam, e quando fala, o tom não tem condescendência, nem pressa.

— Obrigado por ter vindo.

— Obrigada pelo convite — respondo, e percebo que minha voz não treme, o que me surpreende um pouco.

O garçom se aproxima, fazemos os pedidos quase automaticamente, e quando ficamos sozinhos de novo, o silêncio que se instala não é desconfortável, apenas cheio demais de coisas não ditas, como se aquela mesa fosse um ponto de interseção onde duas trajetórias muito diferentes decidiram parar por alguns minutos para se observar.

Eu noto, então, que apesar da imponência, Ethan mantém uma distância cuidadosa, não invade o espaço, não se inclina demais, não impõe presença além do inevitável, e isso cria uma contradição curiosa entre o homem que parece feito de força e a maneira como ele escolhe contê-la.

Enquanto espero que ele comece a falar, eu penso que talvez aquela diferença gritante entre nós não seja um problema imediato, mas um dado, algo a ser entendido antes de ser temido, e pela primeira vez desde que meu telefone tocou, eu sinto que estou exatamente onde deveria estar, mesmo sem saber ainda o porquê.

Ele é o primeiro a quebrar o silêncio, apoiando os antebraços com mais firmeza sobre a mesa, como se estivesse se preparando para dizer algo que não cabe em rodeios, e eu reconheço aquele movimento antes mesmo de entender o conteúdo, porque urgência tem uma linguagem própria.

— Vou ser direto — Ethan diz, a voz baixa, mas sólida o suficiente para atravessar o barulho suave da cafeteria sem esforço. — Eu preciso encontrar alguém de confiança para cuidar da minha filha.

A palavra filha cria um pequeno deslocamento dentro de mim, não pelo peso, mas pela forma como ele a pronuncia, como se fosse um território sagrado que não admite deslizes, e eu me endireito na cadeira quase sem perceber, a atenção agora completamente voltada para ele.

— Lily tem cinco anos — ele continua. — E não é uma situação planejada. A babá que eu tinha precisou sair de repente. Meio de temporada não me dá margem para erro, e eu não posso simplesmente contratar alguém por indicação vaga ou currículo bonito.

Ele faz uma pausa curta, observando minha reação, não para medir aprovação, mas para confirmar se eu estou acompanhando.

— Disseram que você trabalhou com crianças em situação de vulnerabilidade — acrescenta. — Que sabe lidar com apego, com rotina, com silêncio também.

Meu coração acelera um pouco, não por vaidade, mas pelo reconhecimento cuidadoso, porque não é comum alguém perceber que cuidar também envolve respeitar o que não é dito.

— Sim — respondo. — Foi isso que eu fiz no orfanato.

Ethan inclina levemente a cabeça, como se aquela confirmação fechasse uma equação interna.

— Eu não estou procurando só alguém que fique com ela enquanto eu não estou — ele diz, agora ainda mais sério. — Estou procurando alguém que entenda que a Lily não é um trabalho temporário, nem um favor, nem um improviso. Ela é tudo o que eu tenho.

A franqueza dele não vem carregada de drama, mas de necessidade, e eu sinto o peso daquela frase se acomodar entre nós com uma clareza quase brutal.

— A situação é urgente — ele admite. — Preciso de alguém que possa começar o quanto antes. Alguém em quem eu confie o suficiente para deixar a minha casa, a minha filha e o meu mundo sem precisar checar o relógio a cada cinco minutos.

Eu respiro fundo antes de responder, porque aquela proposta não soa como qualquer outra entrevista de emprego, e algo em mim entende isso antes mesmo de formular palavras.

— E por que eu? — pergunto, com honestidade, sem falsa modéstia. — Você não me conhece.

Ethan sustenta meu olhar sem desviar.

— Porque pessoas em quem eu confio confiam em você — ele responde. — E porque a forma como você foi descrita não tem a ver com técnica apenas, mas com postura.

Ele se afasta um pouco da mesa, como se tivesse dito tudo o que precisava naquele primeiro bloco, deixando espaço para que eu faça o mesmo, e eu percebo que aquela conversa não se trata apenas de uma vaga, mas de um cruzamento delicado entre urgência, proteção e a chance rara de que duas necessidades diferentes se encontrem no mesmo ponto.

Enquanto o café chega e o aroma quente se espalha entre nós, eu olho para a xícara sem tocá-la ainda, consciente de que aceitar ou recusar aquela proposta vai muito além de continuar em Los Angeles, e que, de alguma forma que ainda não compreendo, aquela criança chamada Lily já começou a existir dentro da minha decisão.

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