Mundo de ficçãoIniciar sessãoMaytê continuou em pé, porque sentar significava permanecer. Permanecer significava ouvir e ouvir significava considerar. Ela não queria considerar absolutamente nada vindo de Gustavo Ferraresi.
O problema era que a parte racional do cérebro dela estava começando a perder espaço para a parte desesperada e desespero era perigosamente convincente. — Certo. — disse, lentamente — Vamos fingir por um momento que isso não é completamente insano. Por que eu? Gustavo sustentou o olhar dela sem hesitar, aquilo era irritante. Homens normais desviavam os olhos em algum momento, piscavam e demonstravam desconforto. Gustavo parecia construído de controle. — Porque você não tentou me agradar. Maytê franziu a testa. — Isso é critério pra casamento agora? — É mais raro do que imagina. Ela soltou uma risada seca. — Talvez porque pessoas normais não recebam propostas matrimoniais de bilionários aleatórios numa terça-feira de manhã. Algo quase divertido atravessou o rosto dele outra vez, rápido, pequeno. Como um homem que tinha desaprendido a sorrir há muito tempo. — Você fala demais. — E você parece um vilão de filme corporativo. Silêncio. Então, inesperadamente: — Justo. Maytê piscou. Ok. Aquilo ela não esperava. Ela tinha imaginado arrogância, superioridade, alguma resposta cruel. Mas Gustavo Ferraresi simplesmente aceitava as provocações como alguém acostumado a ouvir coisas piores, aquilo mexeu com ela mais do que deveria. Elisa discretamente fechou a porta da sala atrás deles, agora estavam sozinhos, péssima notícia. Maytê apertou a alça da bolsa. — Olha, senhor Ferraresi... — Gustavo. — Não tenho intimidade pra isso. — Vai precisar fingir que tem. A resposta veio rápida, calma, direta. Ela odiou o pequeno arrepio que percorreu sua nuca. — Ainda não entendi por que precisa desse teatro. O olhar dele escureceu ligeiramente. Ali. Finalmente alguma emoção real. — Porque minha reputação está sendo destruída. Maytê cruzou os braços. — E um casamento resolve? — Para investidores? Sim. Para imprensa? Provavelmente. Para o conselho? Definitivamente. Ela absorveu aquilo em silêncio. Então era verdade. As manchetes, os rumores, as acusações. Mesmo vivendo ocupada demais tentando sobreviver, Maytê sabia quem Gustavo Ferraresi era. Todo mundo sabia. O empresário brilhante, o homem das capas de revista, o bilionário admirado por metade do país e odiado pela outra metade. Ela lembrava especialmente de uma entrevista antiga. A jornalista perguntou: “O que o senhor mais valoriza?” E ele respondeu: “Controle.” Frio, sem hesitar. Na época, internet inteira chamou aquilo de arrogância. Agora, olhando para ele pessoalmente, Maytê percebeu outra coisa. Controle não era luxo para Gustavo Ferraresi, era sobrevivência. — Então eu sou uma estratégia de marketing? — perguntou. — Simplificando? Sim. Ela soltou o ar pelo nariz. Nossa. Ele realmente não sabia adoçar nada. — Uau. Você é pior pessoalmente. — E você continua aqui. Aquilo atingiu mais fundo do que ela gostaria, porque era verdade, ela ainda estava ali. Mesmo sabendo que deveria ir embora. Gustavo caminhou lentamente até a mesa enorme no centro da sala e puxou uma pasta escura. — Um ano de casamento, aparições públicas, eventos corporativos, algumas viagens. Nada além disso. Maytê observou enquanto ele deslizava o contrato em sua direção, aquilo parecia absurdo, irreal. Como se tivesse tropeçado acidentalmente dentro da vida de outra pessoa. Ela abriu a pasta devagar, então arregalou os olhos. — Meu Deus. O valor escrito ali era suficiente para mudar completamente sua vida: quitar dívidas, pagar aluguel, respirar. Respirar parecia um conceito distante ultimamente. Maytê engoliu seco imediatamente irritada consigo mesma por reagir daquela forma. Gustavo percebeu, homens como ele percebiam tudo. — Isso resolveria seus problemas? — perguntou calmamente. Ela fechou a pasta rápido demais. — Dinheiro não compra dignidade. — Não. Mas compra tempo e pessoas desesperadas geralmente precisam mais de tempo do que de orgulho. O silêncio caiu pesado entre os dois. Maytê sentiu vergonha da própria raiva, porque parte dela queria odiá-lo. Mas outra parte, a parte cansada, a parte sufocada pelas contas, queria ouvir. Aquilo era horrível. — Quais são as regras? — perguntou antes que pudesse se impedir. Os olhos dele mudaram discretamente, vitória silenciosa e Maytê odiou perceber isso também. Gustavo voltou para perto da janela. — Discrição absoluta, nada de entrevistas sem autorização e nada de escândalos. Você terá acesso à cobertura, cartão corporativo, motorista e equipe de imagem. — Equipe de imagem? — Você precisará parecer confortável diante das câmeras. Ela quase riu. — Você quer transformar minha vida num reality show. — Não. Quero transformar um problema em solução. Frio. Sempre frio. Maytê se perguntou se aquele homem falava daquele jeito até dormindo. — E qual é seu problema exatamente? — perguntou — Além da personalidade? Pela primeira vez, a tensão mudou dentro da sala. Porque aquilo atravessou alguma barreira invisível, o maxilar dele travou. Os dedos ficaram rígidos ao lado do corpo. — Você faz perguntas perigosas. — Você quer casar com uma desconhecida. Acho que perdemos o direito ao normal faz tempo. Silêncio. Então Gustavo respondeu: — As pessoas acreditam que sou incapaz de me importar com alguém além de mim mesmo. A frase saiu simples, sem emoção, mas Maytê percebeu. Ali, bem ali, dor. Pequena, escondida, antiga. Ela imediatamente desviou o olhar. Porque homens quebrados eram perigosos, especialmente os que escondiam as rachaduras atrás de bilhões e ternos caros. — E você é? — perguntou baixinho. Ele demorou alguns segundos para responder, longos demais. — Não sei mais. Aquilo desarmou Maytê de um jeito irritante, porque ela esperava arrogância, não honestidade. Gustavo apoiou as mãos na mesa lentamente. — Não preciso que goste de mim, só preciso que consiga fingir. Ela respirou fundo, seu coração estava acelerado agora. Não por atração, não só por isso, mas porque sentia que estava prestes a atravessar uma linha impossível de desfazer. — E se eu disser não? O olhar dele encontrou o dela outra vez, intenso, escuro e cansado. — Então eu encontro outra pessoa. A resposta deveria ter facilitado, mas estranhamente, incomodou. Maytê não entendia por quê, talvez porque tivesse esperado insistência, controle e pressão. Mas Gustavo parecia genuinamente preparado para deixá-la ir, como alguém acostumado a perder pessoas. Ela odiou pensar nisso. O silêncio voltou pesado. Até que ela perguntou: — E existe alguma cláusula sobre não me apaixonar pelo bilionário emocionalmente indisponível? Pela primeira vez desde que entrara naquela sala, Gustavo Ferraresi sorriu de verdade. Pequeno, perigoso, bonito demais. — Essa cláusula é principalmente pra mim. E foi naquele instante que Maytê percebeu uma coisa terrível, ela precisava ir embora imediatamente. Porque homens como Gustavo Ferraresi não destruíam vidas de uma vez, eles faziam isso lentamente.






