CAPÍTULO 3 - ASSINE AQUI

Maytê não dormiu naquela noite.

Na verdade, dormir implicava paz suficiente para desligar o cérebro e paz era uma coisa que ela não tinha havia meses, talvez anos.

Ela virou na cama estreita pela décima vez enquanto encarava o teto manchado do apartamento.

Casamento por contrato.

A frase continuava soando absurda mesmo dentro da própria cabeça. Toda vez que fechava os olhos, via Gustavo Ferraresi parado diante daquela janela enorme, impecável dentro do terno escuro, falando sobre casamento como quem negociava ações.

Frio, controlado, perigoso e ainda assim, havia alguma coisa quebrada nele.

Ela percebeu isso no instante em que perguntou se ele era incapaz de amar alguém.

“Não sei mais.”

Aquela resposta não parecia ensaiada e nem manipulada, parecia cansada. Maytê soltou o ar irritada consigo mesma. Ótimo. Agora estava analisando emocionalmente um bilionário arrogante às três da manhã.

Perfeito.

O celular vibrou ao lado do travesseiro, número desconhecido, rla franziu a testa antes de atender.

— Alô?

— Senhorita Maytê? Aqui é Elisa Albuquerque.

Claro. Porque aparentemente Gustavo Ferraresi funcionava vinte e quatro horas por dia.

Maytê sentou na cama.

— São três da manhã.

— Na verdade, três e dezessete.

Ela fechou os olhos devagar.

— Isso melhora muito a situação.

Do outro lado, Elisa ignorou completamente o sarcasmo.

— O senhor Gustavo gostaria de saber sua resposta.

Maytê ficou em silêncio, claro que ele queria, homens como Gustavo não estavam acostumados a esperar.

Ela passou a mão pelo rosto cansado.

— Ele sempre manda outras pessoas fazerem o trabalho sujo?

— Perdão?

— Nada. — suspirou — Eu ainda não decidi.

Elisa hesitou pela primeira vez.

— Entendo. Mas preciso informar que o conselho está pressionando o senhor Ferraresi para anunciar algo ainda esta semana.

Aquilo incomodou Maytê imediatamente, não sabia explicar exatamente por quê, talvez porque começasse a perceber o tamanho real da situação. Aquilo não era apenas uma ideia maluca de um homem rico entediado, era desespero. Controlado, elegante, bilionário, mas ainda desespero.

— Ele está tão ferrado assim? — perguntou antes de pensar.

Silêncio.

Depois:

— Boa noite, senhorita Maytê.

A ligação terminou.

Ela encarou o celular por alguns segundos, então caiu para trás na cama novamente.

O problema era simples: ela precisava daquele dinheiro, precisava desesperadamente.

Na manhã seguinte, o banco ligou duas vezes. O proprietário do apartamento ligou três e o antigo escritório de advocacia do ex-noivo mandou mais um aviso sobre as dívidas pendentes.

Maytê sentiu vontade de gritar, porque estava cansada. Cansada de sobreviver, cansada de contar moedas, cansada de fingir que tudo ficaria bem.

Ela abriu a geladeira: água, meio tomate, iogurte vencido. Perfeito.

Seu celular vibrou novamente. Mensagem.

“O contrato continua disponível. — G.F”

Ela encarou aquelas palavras por longos segundos, sem “bom dia”. Sem gentileza, sem pressão, só objetividade brutal. Muito a cara dele.

Maytê digitou:

“Você é sempre tão simpático?”

A resposta veio menos de dez segundos depois.

“Normalmente sou pior.”

Ela deveria ignorar, bloquear, fingir que aquele homem nunca apareceu em sua vida. Mas em vez disso…

“Ainda acho isso uma péssima ideia.”

Digitando… Parando… Digitando outra vez.

Então:

“Eu também.”

Aquilo pegou Maytê desprevenida, porque existia alguma coisa estranhamente honesta em Gustavo Ferraresi. Mesmo quando ele parecia emocionalmente incapaz de funcionar como um ser humano normal.

Ela mordeu o interior da bochecha e então escreveu:

“Quanto tempo eu tenho pra decidir?”

A resposta demorou um pouco dessa vez.

“Até o fim do dia.”

Claro. Sempre pressão.

Ela jogou o celular na cama irritada, precisava pensar, mas pensar exigia calma. E calma não existia quando o aluguel estava atrasado havia dois meses.

Às seis da tarde, Maytê estava sentada diante de Gustavo Ferraresi novamente e odiava o fato de aquele homem continuar absurdamente bonito, aquilo parecia defeito de caráter do universo.

Dessa vez estavam no escritório dele: maior, mais luxuoso e intimidante.

A cidade inteira brilhava atrás das enormes paredes de vidro enquanto Gustavo lia alguns documentos sentado atrás da mesa, ele não levantou imediatamente quando ela entrou, nem sorriu. Claro que não sorriu.

Maytê observou discretamente o ambiente: minimalista, escuro, organizado demais. Parecia que ninguém realmente vivia ali.

Então Gustavo finalmente ergueu os olhos e a encarou diretamente.

A intensidade daquele homem era irritante.

— Você voltou.

— Ainda não decidi nada.

— Mas voltou.

Ela cruzou os braços.

— Seu ego deve ser insuportável.

— Geralmente é.

Maytê estreitou os olhos.

— Você sempre responde minhas provocações assim?

— Assim como?

— Como se estivesse se divertindo.

Algo discreto surgiu no canto da boca dele, pequeno demais para ser chamado de sorriso.

— Talvez eu esteja.

Aquilo deveria irritá-la mais. Em vez disso, causou uma sensação estranha no peito dela, perigoso. Muito perigoso.

Gustavo levantou lentamente e caminhou até ela, sem pressa, controlado como sempre. Mas de perto… Maytê percebeu novamente os detalhes que ninguém parecia notar.

O cansaço escondido, a tensão constante nos ombros, o olhar pesado demais para alguém da idade dele.

Aquele homem carregava alguma coisa e ela tinha quase certeza de que era culpa.

— Você parece cansada. — ele comentou.

Ela soltou uma risada sem humor.

— Porque minha vida está um caos.

Silêncio.

Então:

— Eu posso resolver isso.

A resposta veio simples, sem arrogância dessa vez, o que tornava tudo pior.

Maytê desviou o olhar imediatamente, porque pessoas desesperadas eram perigosamente vulneráveis à esperança.

— E o que você ganha? — perguntou baixinho.

— Estabilidade, controle da narrativa, tempo.

Ela assentiu lentamente, negócio. Sempre negócio.

Mesmo assim…

— E se a imprensa descobrir que é falso?

— Não vai descobrir.

A confiança dele era absurda.

— Você controla tudo assim?

— Tento.

Aquilo saiu automático, quase cansado.

Maytê observou Gustavo em silêncio por alguns segundos, então percebeu, ele não controlava porque gostava. Controlava porque tinha medo do que acontecia quando perdia o controle.

— Você é solitário pra caramba, né?

A pergunta escapou antes que ela pudesse impedir, o olhar dele mudou imediatamente.

Travou. Como se ninguém perguntasse coisas daquele tipo para Gustavo Ferraresi e talvez ninguém perguntasse mesmo, a sala ficou silenciosa, pesada.

Então ele respondeu:

— Você faz perguntas demais.

— E você evita respostas demais.

Algo perigoso passou pelo olhar dele naquele instante, não raiva. Algo pior, vulnerabilidade, pequena, quase invisível.

Mas ali, Maytê sentiu o próprio coração acelerar sem motivo racional.

Então Gustavo se afastou dela lentamente e puxou uma pasta da mesa., o contrato.

— Se aceitar... — ele disse calmamente — Algumas coisas precisam ficar claras.

Ela respirou fundo.

— Tipo?

— Isso é atuação, nada além disso. Não vou controlar sua vida pessoal, você terá liberdade. Mas diante das câmeras, seremos um casal.

Maytê assentiu devagar.

— E dormir no mesmo quarto?

Ele sustentou o olhar dela por alguns segundos, longos demais.

— Quando necessário.

O estômago dela virou imediatamente. Ótimo.

Agora precisava imaginar Gustavo Ferraresi dormindo ao lado dela.

Péssima imagem mental, absolutamente péssima.

— Certo. — disse rapidamente — E… contato físico?

Pela primeira vez desde que entrara ali, algo escuro brilhou no olhar dele, perigoso.

— Você está nervosa, Maytê?

— Não muda de assunto.

Um silêncio carregado caiu entre os dois.

Então ele respondeu calmamente:

— Apenas quando necessário para convencer a imprensa.

O jeito como falou “necessário” fez o corpo dela ficar quente de repente.

Idiota. Idiota. Idiota.

Ela precisava ir embora dali, agora, imediatamente.

Mas então Gustavo deslizou a caneta sobre a mesa na direção dela.

— A decisão é sua.

Maytê encarou o contrato, depois a caneta.

Depois aquele homem é pela primeira vez em muito tempo, o medo não era a única coisa que sentia.

Porque no fundo, uma parte dela já sabia, estava prestes a assinar o maior erro da própria vida.

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