Mundo de ficçãoIniciar sessãoMaytê Lopes ficou em silêncio, completo, absoluto. Porque existiam frases absurdas e existiam frases capazes de fazer o cérebro simplesmente desligar.
— Desculpa... o quê?
— O senhor Gustavo Ferraresi gostaria de fazer uma proposta matrimonial formal.
Matrimonial. Formal.
Maytê encarou a parede descascada da cozinha e piscou duas vezes, depois olhou ao redor: a pia cheia de louça, a lâmpada piscando, os boletos espalhados pela mesa, o ventilador velho reclamando no canto.
Entãovoltou o celular lentamente para a orelha.
— Certo. — silêncio — Isso é pegadinha? — nada — Programa de televisão? — mais silêncio — Se for, aviso desde já que não tenho roupa bonita.
— Senhorita Maytê...
— Porque se eu aparecer na televisão desse jeito, viro meme em cinco minutos.
Do outro lado, a mulher respirou fundo.
— Amanhã, às nove horas, um carro passará no endereço cadastrado.
— Espera. Que proposta é essa?
Silêncio.
Então:
— O Senhor Gustavo explicará pessoalmente.
A ligação terminou, simples assim. Maytê abaixou o celular devagar.
— Meu Deus.
Ela estava desempregada, cheia de dívidas e agora um bilionário queria conversar sobre casamento. Ótimo. Perfeito. Porque sua vida claramente ainda não estava bagunçada o suficiente.
...
Na manhã seguinte, ela quase desistiu. Quase. Mas pessoas desesperadas aceitavam oportunidades estranhas e pessoas afundadas em dívidas aceitavam coisas ainda piores.
Às oito e cinquenta e oito, um carro preto parou diante do prédio. Luxuoso, bonito, assustador. Maytê apertou os olhos, com certeza custava mais do que tudo que ela possuía somado.
Ela segurou a bolsa contra o peito, porque aquele era exatamente o tipo de situação que terminava em documentários criminais. Motorista elegante, carro preto, convite misterioso, pessoa desesperada entrando sozinha. Nada suspeito. Absolutamente nada.
...
Trinta minutos depois, Maytê atravessava a entrada do Grupo Ferraresi e imediatamente odiou o lugar. Muito vidro, muito mármore, muito silêncio. Dinheiro demais.
Ela se sentiu pequena. Não. Pior. Sentiu-se deslocada. Uma mulher elegante apareceu rapidamente.
— Senhorita Maytê? Sou Elisa Albuquerque.
Ela sorriu. Maytê não. Porque estava ocupada pensando em quantas parcelas atrasadas carregava dentro da bolsa.
— Por aqui.
Elevador. Corredor. Portas. Silêncio.
Até pararem diante de uma enorme sala de reuniões. Elisa abriu a porta, Maytê entrou e parou. Porque ele estava ali, Gustavo Ferraresi.
Em pé diante das janelas gigantescas, terno escuro, postura impecável, olhar frio. Ele não sorriu, nem tentou. Apenas virou lentamente e observou Maytê.
Silêncio. Cinco segundos. Seis. Sete.
Ela franziu a testa.
— Vai começar a entrevista ou estamos competindo para ver quem pisca primeiro?
Algo mudou na expressão dele, quase imperceptível. Quase.
— Sente.
Ela não sentou.
— Não antes de saber por que um bilionário me ligou propondo casamento.
Silêncio.
Gustavo a encarou e depois falou:
— Porque preciso de uma esposa.
Maytê cruzou os braços.
— E eu preciso de terapia.
Pela primeira vez, algo parecido com um sorriso apareceu em seu rosto. Pequeno, rápido, perigoso.
E naquele instante, Maytê sentiu uma certeza atravessar seu corpo. Aquele homem era problema, do tipo que destruía vidas sem precisar levantar a voz. Ela deveria ir embora, deveria agradecer pelo tempo, pegar o elevador e correr para muito longe daquele prédio.
Mas então lembrou do aluguel atrasado, das cobranças, das noites sem dormir, do medo constante apertando seu peito havia meses. Desespero era uma coisa cruel, ele mudava limites, escolhas, pessoas e olhando para Gustavo Ferraresi pela primeira vez, Maytê percebeu algo assustador: talvez estivesse desesperada o suficiente para ouvir a proposta inteira.
E talvez aquele fosse exatamente o começo do maior erro da sua vida inteira.







