Mundo de ficçãoIniciar sessãoRodrigo não dormiu.
Não pela queda de energia em si, mas pelo que ela representava. O que não acontecia costumava ser mais revelador do que o que se concretizava. Testes vinham antes de movimentos reais. Sempre. Ainda de madrugada, revisou as gravações das câmeras uma a uma. Avançou, voltou, pausou. Nenhuma imagem fora do padrão. Nenhuma falha evidente. Isso não o tranquilizou. Segurança absoluta não existia. Existia apenas a ilusão dela — e ilusões custavam caro. Quando o céu começou a clarear, deixou a sala de monitoramento e seguiu para o jardim dos fundos, atraído por um silêncio que não parecia natural. Helena estava ali. Sentada no chão, descalça, o vestido fino tocando a grama ainda úmida. Os joelhos recolhidos, os braços apoiados de forma distraída. Observava as plantas com atenção silenciosa, como se aquele espaço fosse o último lugar onde ainda pudesse existir sem vigilância. A imagem o atingiu mais forte do que deveria. Rodrigo parou a alguns metros. Não se aproximou. O corpo atento fazia isso por ele, mesmo quando a mente dizia para recuar. — Você não devia estar aqui — disse, a voz baixa, controlada. — Eu sei — respondeu Helena, sem se virar. — Por isso vim. Ele não comentou. O olhar percorreu o entorno, avaliando ângulos, acessos, riscos invisíveis. Ainda assim, parte da atenção permanecia presa nela — na forma como mantinha os ombros tensos demais para alguém que fingia calma. — Aquilo de ontem… — Helena continuou. — Não foi um acidente, foi? — Não foi — corrigiu ele. Ela se levantou devagar, limpando as mãos na barra do vestido. O movimento foi lento, cuidadoso, como se o corpo ainda estivesse em alerta. — Então alguém tentou entrar. — Tentou medir — respondeu Rodrigo. — Tempo de resposta. Alcance. Limites. Helena virou-se totalmente para ele. O olhar agora era outro. Mais atento. Mais sério. — E você acha que isso vai acontecer de novo? — Vai. A certeza na voz dele não deixava espaço para alívio. Nem para esperança. — Foi por isso que você ficou daquele jeito ontem? — perguntou ela, observando-o com cuidado. — Quando a luz caiu. — Atento. — Não — rebateu, dando um passo à frente. — Tenso. Rodrigo sustentou o olhar apenas o necessário. Mas, dessa vez, não desviou de imediato. — Preparado. Helena avançou mais um passo. A distância diminuiu sem aviso, sem pedido. Perto demais para ser casual. Rodrigo sentiu o ajuste automático do corpo — não para fugir, mas para conter. — Você fala como se já tivesse passado por isso — disse ela, a voz mais baixa. — Como se soubesse exatamente o que vem depois. — Eu sei. — O que costuma vir depois de um teste? — Uma tentativa real. O vento atravessou o jardim, fazendo as folhas se moverem juntas. Helena respirou fundo. O ar parecia mais denso entre eles. — Você disse ontem… — começou, hesitando. — Que não erra duas vezes. Rodrigo desviou o olhar para a cerca ao fundo, como se aquela linha fosse mais segura do que o rosto dela tão perto. — Algumas decisões cobram mais caro quando se repetem. — Você está falando de mim? Ele voltou o olhar lentamente. Os olhos escuros sustentaram os dela por tempo demais. — Estou falando do que acontece quando você acha que consegue controlar tudo. Helena sentiu um aperto inesperado no peito. — Então o problema não sou eu — disse, com cuidado. — É o que você carrega. A mandíbula de Rodrigo se contraiu. Um músculo saltou, denunciando tensão que ele raramente deixava escapar. — Volte para dentro. A ordem veio firme, mas havia algo novo ali. Urgência. Preocupação. Algo que não se explicava apenas como dever. Helena sustentou o olhar por um segundo a mais do que o necessário. Observou os detalhes: a barba por fazer, as olheiras discretas, a rigidez contida de quem estava sempre pronto para o impacto. — Você não vive assim por escolha — disse, antes de se virar. Rodrigo não respondeu. Ela entrou na casa com a certeza incômoda de que havia atravessado uma linha invisível. E que ele sentira o mesmo. ⸻ Mais tarde, Rodrigo deixou a mansão sozinho. Dirigiu até um bairro antigo, ruas estreitas, fachadas gastas pelo tempo. Estacionou em frente a um prédio simples e permaneceu no carro por longos minutos, o motor desligado, o silêncio pesado. No bolso, girava entre os dedos uma medalha militar marcada por riscos e amassados. Não era lembrança. Era aviso. Não desceu. Não tocou o interfone. Algumas portas permaneciam fechadas porque abri-las significava repetir erros. E ele não podia se dar a esse luxo — não agora. Rodrigo deu partida e se afastou antes que a memória ganhasse espaço. ⸻ No quarto, Helena encarava o teto. Pensava no jardim. Na proximidade inesperada. Na forma como ele desviara o olhar quando ela se aproximou demais — não por indiferença, mas por controle. Ela não sabia quem Rodrigo Almeida havia sido. Mas agora entendia quem ele temia voltar a ser. E isso não o tornava fraco. Tornava-o perigoso.






