Entre as sombras

O telefone tocou antes do amanhecer.

Rodrigo atendeu no segundo toque. Não precisou perguntar quem era.

— Temos um problema.

A ligação durou menos de um minuto. O suficiente para alterar o eixo do dia.

Quando desligou, já estava de pé, vestindo a jaqueta, a mente funcionando em camadas paralelas. Cenários. Riscos. Pontos de falha. Nada gritava perigo imediato — e isso o incomodava mais do que uma ameaça clara.

Minutos depois, aguardava no escritório de Augusto Valente.

Braços cruzados. Postura imóvel. Atenção total.

Helena entrou ainda sonolenta, os cabelos presos às pressas, o olhar irritado por ter sido arrancada da cama.

— Isso está virando rotina — murmurou.

Augusto fechou a pasta com calma excessiva.

— Gustavo registrou um boletim de ocorrência ontem à noite.

A frase caiu seca.

— Ele fez o quê? — Helena avançou um passo. — Depois de me seguir?

— A versão dele é outra — respondeu Augusto. — Alega agressão injustificada.

Helena soltou uma risada curta, sem humor.

— Claro que alega.

Rodrigo permaneceu em silêncio. Mas os dedos pressionaram a borda da mesa com mais força do que pretendia.

— Isso pode virar manchete — continuou Augusto. — E manchetes não perguntam. Elas afirmam.

— Eu assumo — disse Rodrigo, sem hesitar. — Fui eu quem interveio.

Helena virou-se para ele.

— Eu disse para não se envolver.

— Ele estava te perseguindo.

— Seu heroísmo vai render um belo título — rebateu ela. — Segurança de Augusto Valente agride herdeiro de sócio histórico.

Rodrigo desviou o olhar por um instante. O suficiente para perder o controle da expressão.

— Até isso se resolver — decretou Augusto —, você não sairá sozinha. E você — apontou para Rodrigo — não sairá do lado dela.

— Isso é punição? — Helena perguntou.

— É contenção de danos.

Rodrigo assentiu uma única vez.

Helena sentiu o estômago se fechar.

O dia se arrastou.

Rodrigo acompanhava cada deslocamento de Helena com precisão silenciosa. Não como vigilância ostensiva, mas como ajuste constante de espaço e tempo. Ele estava sempre onde ela terminava de chegar.

— Vai me seguir até o banheiro? — provocou ela, parando no corredor.

— Se o risco justificar.

— E quem decide isso?

— O ambiente.

Helena observou o espaço ao redor como se procurasse uma falha invisível. Não encontrou.

— Você só sabe falar assim?

— É o que mantém você segura.

Ela deu dois passos à frente, diminuindo a distância de propósito.

Rodrigo não recuou. Ajustou a postura. O corpo atento demais ao espaço mínimo entre eles.

O teste durou segundos. Mas algo se ajustou ali.

No meio da tarde, a energia caiu.

Primeiro as luzes. Depois o sistema de segurança.

Rodrigo reagiu antes mesmo do som terminar de ecoar. Um gesto rápido — e Helena já estava mais perto do que pretendia.

— Fica comigo.

— Eu não sou criança.

— Agora.

Ela hesitou. Não por medo. Por consciência. Sabia exatamente o que significava aceitar aquela ordem.

E, ainda assim, ficou.

O corredor mergulhou em penumbra. Um estrondo metálico ecoou do lado de fora.

— O que foi isso? — Helena perguntou, mais baixa.

— Portão lateral — respondeu ele. — Pode ser falha. Pode não ser.

Rodrigo a conduziu até uma sala interna, sem janelas. O espaço era reduzido demais para dois corpos tensos. Ele se posicionou entre ela e a porta.

Proteção. Clara. Inegociável.

Helena percebeu a proximidade tarde demais.

— Você está tenso — observou.

— Situação instável.

— Não. — Ela deu um passo à frente, invadindo o espaço que ele vinha controlando o dia inteiro. — Você sempre está.

Rodrigo apoiou a mão na parede ao lado dela, bloqueando o avanço com intenção clara. Não tocou. Mas o gesto era inequívoco.

— Não se mexe.

— Eu não vou fugir — disse ela, firme.

— Eu sei.

— Então por que me prende aqui?

Rodrigo manteve o olhar fixo no dela. Algo novo atravessou a contenção — rápido demais para ser nomeado.

— Porque eu não erro duas vezes.

A frase caiu pesada demais para ser ignorada.

As luzes voltaram segundos depois. O gerador entrou em funcionamento.

Rodrigo se afastou de imediato. Distância retomada. Controle recomposto.

— Vou verificar o perímetro.

Helena ficou sozinha na sala pequena demais para o que sentia.

À noite, Augusto chamou Rodrigo novamente.

— Isso não foi um acidente — disse. — Testaram nossos limites.

— Gustavo?

— Não acredito. — Augusto pausou. — Alguém maior.

— A partir de agora — continuou —, você não é apenas segurança. É contenção.

— Entendido.

Helena ouviu da porta, invisível para eles.

A palavra ecoou dentro dela.

Contenção.

No quarto, sentou-se na cama, os braços cruzados.

Ela odiava se sentir cercada.

Mas, pela primeira vez, desejou que ele estivesse ali.

E isso a irritou mais do que qualquer ameaça.

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