Mundo de ficçãoIniciar sessãoApesar do título de nobreza não ter valor legal no Brasil, algumas famílias ainda mantém suas tradições e costumes. É o caso da família Alencastro. Neste cenário, Maria Clara, uma jovem professora e aspirante a freira, órfã, criada entre as irmãs do Instituto Santa Bárbara, é enviada pela madre superiora para trabalhar como babá e educadora no Solar Alencastro, uma propriedade imponente pertencente ao reservado Conde Álvaro Alencastro, um homem cuja frieza só não supera a frieza que reina em sua própria casa. Após a morte misteriosa de sua esposa, um caso envolto em mistério, Álvaro passou a ignorar quase completamente os filhos pequenos. As crianças, carentes e indisciplinadas, já haviam expulsado diversas babás. Ao chegar ao Solar, Maria Clara encontra uma casa cheia de sombras, mistério, regras rígidas e crianças que só querem carinho e atenção. Com sua alegria, sensibilidade, ela vai conquistando cada um deles e desperta algo inesperado no próprio conde, sentimentos que ele jamais experimentou, sobretudo porque seu casamento anterior foi um arranjo de conveniências familiares. Enquanto Maria Clara transforma a vida da família Alencastro, um segredo começa a emergir: A morte da antiga condessa não foi tão simples quanto as aparências sugerem.
Ler maisAlheia que estava sendo observada da janela pelo conde, Maria Clara foi ao encontro de Roberto e as crianças.Aproximou-se de Roberto e das crianças, e bastaram poucos segundos para que a cena ganhasse vida. Helena e Thomas começaram a correr pelo gramado, rindo alto, enquanto Roberto e Maria Clara fingiam persegui-los, errando de propósito, deixando-se alcançar apenas para ouvir novas gargalhadas.Álvaro apoiou a mão no parapeito da janela, a expressão fechada.Quando se reuniram à beira do lago, as crianças passaram a lançar pequenas pedras na água, contando os círculos que se formavam. Maria Clara inclinava-se para ouvi-los, sorria, enquanto Roberto observava, visivelmente à vontade naquele papel improvisado de adulto presente.A alegria dos filhos era clara, quase dolorosa de se ver. Riam soltos, livres, como não faziam há muito tempo.E então veio o incômodo. A imagem diante dele parecia… completa.Havia ali uma naturalidade que o atingiu sem aviso. A interação fluía com facilida
A mesa já estava posta quando todos chegaram ao salão pontualmente às sete horas. Helena e Thomas estavam quietos, sentados lado a lado, Maria Clara foi colocada do lado de Thomas.Mal tinham acabado de sentar, Álvaro entrou, o conde puxou sua própria cadeira e se sentou polidamente, mas não olhou para ela nem uma única vez.Roberto chegou por último, como sempre, mas dessa vez trazia um humor leve demais.— Bom dia a todos! — anunciou, abrindo um sorriso exageradamente amplo enquanto se acomodava na cadeira.Helena e Thomas responderam em uníssono, educados como haviam sido ensinados:— Bom dia, tio Roberto.Álvaro limitou-se a um breve aceno de cabeça, os olhos fixos no jornal à sua frente.— Ah, Clara… — continuou Roberto, apoiando o cotovelo na mesa com uma familiaridade que destoava do ambiente. — Que bom tê-la conosco nas refeições. Sua presença, sem dúvida, traz mais luz à casa… e alegria. — fez uma breve pausa, e acrescentou suavizando a voz. — Além de nos encantar com sua bel
No dia seguinte, a rotina das crianças começou como de costume. Pela manhã, Maria Clara conduziu as aulas com paciência e método. Helena se esforçava para manter a atenção, enquanto Thomas, inquieto, balançava as pernas debaixo da mesa.Após o almoço, vieram as sonecas obrigatórias. Helena resistiu um pouco, alegando que já estava “grande demais para dormir à tarde”, mas acabou cedendo. Thomas adormeceu quase imediatamente, abraçado a seu ursinho.Quando acordaram, Maria Clara tinha outros planos.— Hoje vamos fazer algo diferente — anunciou, assim que as crianças acordaram.— Aula diferente? — perguntou Helena, desconfiada.— Sim. Ao ar livre.Os olhos de Thomas brilharam.— Pode correr?— Pode — respondeu Maria Clara, sorrindo. — E bastante.Ela explicou que as atividades da tarde seriam no jardim. As crianças precisavam de movimento, de ar fresco, de gastar energia. Organizou brincadeiras simples: pique, corrida leve, jogo de bola. A propriedade oferecia espaço de sobra, um campo d
Naquela noite, assim que Maria Clara e as crianças entraram na sala de jantar, souberam que o conde não retornaria ao solar. Permaneceria na cidade.A notícia foi dada de maneira simples, quase casual, mas mudou o tom da refeição. À mesa, estavam apenas os três. Sem a presença austera que costumava impor certa contenção, Helena e Thomas pareciam mais soltos. Conversavam, riam baixinho, faziam perguntas que se atropelavam umas às outras.— Senhorita Maria, o Sebastião dorme à noite? — perguntou Thomas, sério, enquanto empurrava o prato com o garfo.— Dorme, sim — respondeu ela com um sorriso. — E, como vocês, precisa de silêncio.— Então não posso falar com ele agora? — insistiu Helena.— Pode amanhã — disse Maria Clara, com delicadeza. — Tudo tem seu tempo.Enquanto falava, ensinava. Não com lições rígidas, mas com gestos simples, correções suaves e paciência constante. As crianças aprendiam sem perceber.Depois do jantar, ajudou-os a se preparar para dormir. Helena pediu que ela fica
O escritório estava silencioso após a saída deles. Álvaro permaneceu imóvel por longos segundos, diante da porta fechada, como se o ar tivesse mudado de densidade.A raiva já havia se dissipado, mas no lugar dela havia algo pior. Uma inquietação profunda, quase dolorosa.Ele caminhou até a janela, apoiou as mãos no parapeito e deixou a testa repousar ali, respirando devagar como se tentasse recuperar o fôlego.— O que eu estou fazendo… — murmurou para si mesmo.Não era uma pergunta. Era uma confissão. Lembrou-se da lágrima de Maria Clara, do tremor sutil em sua voz quando achou que seria despedida.E algo nele apertou.“Por que isso me afetou assim?”Ele não tinha resposta. Ou talvez tivesse… mas não queria encarar.Sentou-se, apoiando os cotovelos nos joelhos, as mãos entrelaçadas.— Eu não posso… — disse baixinho — não posso me envolver. Mas a voz soou fraca, quase um pedido, cada palavra que Maria Clara dissera ecoava em sua mente. Ela falava com firmeza, mas nunca com insolência.
Ele respirou fundo e finalmente falou:— Helena… — sua voz saiu mais grave do que pretendia — venha aqui.Helena se aproximou hesitante e com os olhos amedrontados, Álvaro percebeu.— Você que levou o sapo para o café da manhã?Ela assentiu, fungando.— Sim, mas… mas eu só queria…— Shhh. — ele a interrompeu, mais suavemente desta vez. — Estou apenas perguntando.Ela limpou outra lágrima, tímida.— Sim, papai.Álvaro se ajoelhou.O conde. O homem duro, o homem inflexível. Ajoelhando-se diante da filha.Algo que nem Maria Clara imaginava ver.Thomas arregalou os olhos, ainda segurando a mão de Maria Clara. Álvaro colocou as duas mãos sobre os ombros de Helena.— Obrigado por dizer a verdade — murmurou. — Isso requer coragem.A menina piscou, surpresa.— Eu… eu não queria que a tia Clara… a senhorita Duarte fosse embora.Álvaro fechou os olhos por um instante como se aquela frase tivesse atravessado suas defesas.Ele se levantou devagar e tentou recuperar o papel de autoridade, embora a
Último capítulo