Você sabe que isso não apaga nada, Ricardo.
Ricardo
A porta se abre no exato milésimo de segundo em que minha mão se prepara para ferir o silêncio com a campainha pela segunda vez.
Elza surge no vão, uma sentinela doméstica em seu avental de linho claro, o pano de prato pendurado no ombro como uma insígnia de autoridade. O olhar que ela me lança é uma balança de precisão: mede meu terno, meu cansaço e minha audácia em um único relance. Não há o calor das boas-vindas, nem o gelo da hostilidade; há apenas a vigilância de quem guarda um território sagrado.
— Boa tarde, Sr. Ricardo.
— Boa tarde, Elza.
Ela recua, um convite mudo que me permite atravessar o umbral do apartamento que, em outra vida, ostentou meu nome na escritura.
— Pode entrar. A dona Natália está no banho.
A frase é um estilhaço de intimidade que me atinge com a precisão de um bisturi. É um detalhe cotidiano, banal para qualquer um, mas para mim é um lembrete brutal de que fui exilado da rotina. Eu não conheço mais a temperatura da água que ela prefere, nem o tempo