O caminho de volta para casa é um silêncio de cautela. Eu sinto o bebê se mexer, um lembrete de que a vida continua, apesar de tudo.
Eu chego em casa e ligo a TV. O noticiário está falando sobre a fusão que Ricardo cancelou.
Ricardo cancelou uma fusão?
A televisão murmura sozinha quando eu deixo a bolsa cair no sofá. O som é um ruído distante, irrelevante, até que uma frase se repete. Pela segunda vez. Mais clara. Mais dura.
A manchete na tela da TV é um soco no estômago.
— "...especialistas avaliam que o cancelamento da fusão no Rio de Janeiro é um movimento arriscado para o grupo..."
Ricardo cancelou a fusão? O projeto pelo qual ele sacrificou noites, viagens e, em última instância, o nosso casamento?
O celular vibra, cortando o ar denso. No visor, o nome que é a origem de toda a minha turbulência: Ricardo.
Eu atendo, a mão tremendo levemente.
— Natália?
A voz dele está rouca, ainda marcada pela gripe que o derrubou, mas há uma tensão nela, um alerta que desmente qualquer fraqueza.