Natália
Ana me liga no meio da tarde, quando o sol já começa a desenhar sombras longas e melancólicas pelas paredes da cobertura. O celular vibra sobre a mesa de mármore da cozinha, um som persistente que parece ecoar o batimento acelerado do meu próprio coração. Por um longo segundo, e eu fico apenas observando o aparelho, sentindo uma vontade avassaladora de não atender, de me recolher em um silêncio absoluto onde ninguém possa me alcançar. Tudo em mim pede isolamento, um casulo onde eu possa processar os estilhaços da manhã. Mas a voz de Ana, vibrante e cheia de uma energia que eu já não possuo, atravessa a tela antes mesmo que eu possa tomar qualquer decisão.
— Nati, pelo amor de Deus, reage! Vem para a piscina agora — ela diz, soltando uma risada leve do outro lado da linha. — O dia está lindo demais, um azul que parece pintura, e você está aí trancada nessa torre de marfim. Eu não vou deixar você mofar em casa.
Eu fecho os olhos com força, sentindo o peso das pálpebras inchadas.