Ricardo
Saio de casa ajustando o relógio no pulso, e o pensamento volta àquele sábado sem que eu permita. Não vem inteiro. Nunca vem. Surge como um incômodo antigo, desses que não pedem atenção, mas também não desaparecem.
Natália cruza a sala atrás de mim, procurando a bolsa. O som dos passos dela ecoa no mármore da cobertura — leve demais para um espaço sério demais. Sempre foi assim. Ela nunca precisou se moldar aos lugares. Os lugares é que acabavam cedendo.
— Já estou pronta — diz.
Viro-me.
Vestido leve. Tecido solto. Nada calculado. Nada estratégico. Apropriado para o calor, para um churrasco informal na casa de um cliente. Jovem sem esforço. Jovem sem intenção.
Assinto.
— Vamos.
No elevador, o silêncio se instala sem resistência. Ela ajeita o rabo de cavalo, cruza os braços, descruza, inquieta de um jeito quase alegre. Observo pelo reflexo do espelho, sem demonstrar nada.
Aprendi cedo a esconder.
Aprendi cedo que homens como eu não se explicam.
Mas enquanto descemos, eu já sei.