Natália
O consultório do Dr. Arnaldo está mergulhado em um silêncio quase reverente, quebrado apenas pelo som rítmico do meu próprio coração. Deito-me na maca, sentindo o gel frio do ultrassom se espalhar pela minha barriga de sete meses. A espera é sempre a parte mais difícil; é o momento em que a vulnerabilidade me despe de qualquer armadura.
Vítor está ao meu lado, segurando o celular com uma firmeza solene, como se carregasse um tesouro frágil. Ele é o emissário, o substituto, os olhos de Ricardo neste momento que deveria ser, por direito e desejo, estritamente nosso.
Ricardo está em casa, devastado por uma gripe que o derrubou. Ele me ligou de madrugada, a voz rouca, despida daquela autoridade habitual que costumava fazer o mundo girar ao seu redor.
— Eu não posso ir, Natália — ele disse, e a voz falhou, um som quebrado que eu nunca imaginei ouvir vindo dele.
A frase me atingiu como um choque elétrico. Eu não posso ir. O eco do abandono ressoou na minha alma com uma força devasta