Mundo de ficçãoIniciar sessãoDepois de perder o pai, Molly se agarra à única coisa que ainda a mantém de pé: a fazenda onde cresceu. Entre dívidas, luto e ameaças veladas, ela tenta sustentar sozinha um legado que parece pesado demais para suas mãos. Thomas surge como um acidente inesperado — poderoso, reservado e envolto em segredos que não pertencem ao campo, mas à cidade grande. O encontro entre os dois muda rotas, desperta desejos e coloca Molly diante de escolhas que ela nunca imaginou precisar fazer. Entre a terra que a prende e um mundo que a chama, Molly terá que decidir até onde pode confiar… e o que está disposta a arriscar quando o coração entra em jogo.
Ler maisO sol ainda nem havia rompido completamente o horizonte quando eu me levantei. O frio da manhã entrou pelas frestas da janela como um aviso silencioso de que o dia começava, queira eu ou não. Meus pés tocaram o chão de madeira, e por um instante fiquei parada, respirando fundo, tentando reunir forças para mais um dia na fazenda… sem ele.
Dois meses. Apenas dois meses desde que meu pai se foi, e ainda assim parecia que o tempo havia parado naquela manhã em que tudo desmoronou. Vesti minhas botas gastas — as mesmas que ele havia consertado tantas vezes — e caminhei para fora. O cheiro da terra úmida me envolveu imediatamente. Era um cheiro familiar, quase reconfortante, mas também cruel. Tudo ali carregava a presença dele. Os galinheiros foram meu primeiro destino. Abri a porta de madeira com cuidado, e as galinhas começaram a se agitar, cacarejando como sempre. Peguei o balde de ração e espalhei no chão, observando os movimentos apressados delas. Meu pai costumava dizer que galinhas reconheciam quem cuidava delas de verdade. — Elas sabem quando é você — ele dizia, sorrindo. Engoli em seco. Minha garganta ardia, mas continuei. Segui para o estábulo. As vacas me olharam com aqueles olhos calmos e profundos, como se entendessem mais do que deveriam. Passei a mão pelo lombo de uma delas, sentindo o calor do corpo, o movimento lento da respiração. Meu pai sempre conversava com os animais, como se fossem parte da família. Eu achava graça… agora, fazia o mesmo, sussurrando palavras que nem eu mesma sabia explicar. — Tá tudo bem… eu tô aqui — murmurei, mais para mim do que para elas. O som distante do vento passando entre as árvores trouxe outra lembrança. Ele me ensinando a consertar a cerca, segurando minha mão para mostrar como usar o alicate do jeito certo. “Firme, Molly. Mas com cuidado.” Olhei para a cerca agora, levemente torta em um dos lados, e prometi mentalmente que iria ajeitá-la mais tarde. Do jeito que ele faria. No celeiro, empilhei fardos de feno, o corpo trabalhando quase no automático. Cada músculo parecia lembrar da rotina melhor do que meu coração. Suor escorreu pela minha testa, misturando-se ao cansaço que não era só físico. Era um peso constante no peito, uma saudade que não dava trégua. A casa ao fundo da fazenda permanecia silenciosa demais. Nenhuma risada grave ecoando, nenhum assobio distraído enquanto ele passava de um cômodo a outro. Só o som dos meus próprios passos… e da ausência. Fiz tudo o que precisava ser feito naquela manhã. Cada tarefa concluída era uma pequena vitória, mas também um lembrete doloroso: agora era só eu. Quando finalmente parei, apoiando as mãos nos joelhos e encarando o campo à minha frente, senti os olhos marejarem. O vento passou por mim, suave, quase como um toque. Por um segundo, fechei os olhos e imaginei que ele ainda estava ali, observando de longe, orgulhoso. — Eu tô tentando, pai — sussurrei. — Do jeito que você me ensinou. E mesmo com o coração em pedaços, continuei. Porque a fazenda não esperava, os animais não entendiam a dor… e porque era assim que ele teria feito. --- O passeio com meu cavalo sempre foi o único momento em que o mundo parecia silenciar um pouco. O som ritmado dos cascos contra a terra, o vento batendo no meu rosto, o cheiro do campo… por alguns minutos, eu conseguia respirar sem sentir o peso esmagador no peito. Meu pai costumava dizer que os cavalos sentem quando estamos quebrados por dentro. Talvez por isso ele estivesse tão calmo naquele dia, caminhando devagar, como se soubesse que eu não tinha forças para correr. Quando voltei, o sol já começava a descer, tingindo o céu de tons alaranjados. Levei meu cavalo até o estábulo, tirei a sela com cuidado e passei a mão por seu pescoço, num gesto quase automático. — Obrigada — murmurei, apoiando a testa nele por um instante. Foi então que ouvi vozes. Vinham da casa de máquinas. No começo, achei que fosse coisa da minha cabeça. A fazenda sempre fazia barulhos estranhos, rangidos, ecos. Mas conforme me aproximei, meu corpo inteiro entrou em alerta. Meu coração acelerou, não de medo… mas de um pressentimento ruim, pesado, quase sufocante. Empurrei a porta devagar. O mundo parou. Meu namorado estava lá. E com ele… minha irmã. Os dois se afastaram num movimento brusco quando me viram, como se só então lembrassem da realidade. Minha visão ficou turva, não sei se pelas lágrimas que surgiram de repente ou pelo choque violento que me atingiu. O ar faltou. Minhas pernas quase cederam. Eu não consegui dizer nada. Nenhuma palavra saiu da minha boca. O silêncio pesou mais do que qualquer grito. Foi ele quem falou primeiro. — Molly… — disse, passando a mão pelos cabelos, visivelmente irritado. Não envergonhado. Irritado. Como se eu estivesse no lugar errado. — Não começa — ele continuou, a voz dura. — Isso é culpa sua. Aquelas palavras me atingiram como um tapa. — Minha? — consegui dizer, num fio de voz. — Desde que seu pai morreu você não é mais a mesma — ele disparou, sem hesitar. — Você se fechou, vive nesse luto eterno, nessa fazenda… Eu não consigo mais viver assim com você. Cada frase era um golpe. Olhei para minha irmã, esperando qualquer sinal de arrependimento, culpa, dor. Mas ela evitava meu olhar, em silêncio, como se aquilo tudo fosse apenas um detalhe inconveniente. — Você devia encarar a realidade — ele continuou, dando alguns passos na minha direção. — Essa fazenda é grande demais pra você. Essas terras que seu pai deixou… você não vai dar conta sozinha. Meu coração doeu de um jeito diferente. Não era só traição. Era algo mais fundo. Mais cruel. — O melhor seria vender — ele disse, agora com um tom quase prático. — Pra mim e pra sua irmã. A gente sabe administrar isso. Você… não. As palavras ecoaram dentro de mim. Vender as terras do meu pai. O último pedaço dele que ainda existia. Senti algo se romper dentro do meu peito. Não foi só dor. Foi a quebra definitiva de algo que eu ainda tentava salvar. Ali, naquela casa de máquinas, cercada pelo cheiro de óleo e ferrugem, eu entendi que não tinha perdido apenas meu pai. Eu tinha perdido tudo. E, talvez pela primeira vez desde a morte dele, as lágrimas que caíram não foram apenas de tristeza… mas de uma raiva silenciosa, profunda, que queimava por dentro. Algo dentro de mim simplesmente parou de doer. Foi estranho perceber isso. Como se, depois de tantas perdas, meu coração tivesse finalmente atingido o limite — e, ao invés de se partir mais uma vez, tivesse endurecido. Meus olhos vagaram pela casa de máquinas quase por instinto. O cheiro metálico, o chão manchado de graxa, as ferramentas penduradas na parede… tudo aquilo fazia parte da fazenda. Da minha história. Da história do meu pai. E então eu vi a arma. Meu corpo se moveu antes que minha mente tivesse tempo de pensar. Minhas mãos a seguraram com firmeza, apesar do leve tremor nos dedos. O peso frio do metal parecia me ancorar na realidade. Quando levantei o braço e apontei para ele, o silêncio caiu pesado entre nós. — Molly, você enlouqueceu? — ele disse, dando um passo para trás. Eu não pisquei. — Não — respondi, a voz surpreendentemente firme. — Eu acordei. As palavras saíram de um lugar profundo, um lugar que a dor ainda não tinha conseguido destruir. — Eu prometi ao meu pai — continuei, sentindo o nó na garganta, mas sem recuar. — Prometi que construiria minha família aqui. No mesmo chão onde ele construiu a dele. Nesta terra. Minha mão apertou um pouco mais a arma. — Vocês não têm direito nenhum sobre isso — falei, olhando diretamente para ele… e depois para minha irmã. — Nada aqui pertence a vocês. O medo apareceu nos olhos dele então. Não era arrependimento. Era medo puro. Ele ergueu as mãos devagar, tentando parecer calmo. — Abaixa isso, Molly… vamos conversar. Soltei uma risada curta, amarga. — Conversar? — balancei a cabeça. — Vocês já falaram demais. Minha irmã estava pálida, os olhos arregalados, respirando rápido. Ela finalmente me olhou, e naquele olhar não havia amor. Havia pânico. — Vão embora — ordenei. — Agora. Ninguém discutiu. Ninguém tentou argumentar. Eles recuaram lentamente, cada passo cuidadoso, como se qualquer movimento brusco pudesse ser o último. Quando finalmente passaram pela porta, senti o ar voltar aos meus pulmões, como se eu tivesse estado submersa por tempo demais. Só abaixei a arma quando o silêncio voltou a tomar conta do lugar. Minhas pernas fraquejaram. Encostei-me na parede, fechando os olhos com força. O choro veio então — não alto, não descontrolado — mas pesado, profundo, carregado de tudo o que eu tinha engolido nos últimos dois meses. Meu pai se foi. Meu amor também. Mas aquela terra… aquela promessa… ainda eram meus. E ninguém mais pisaria nelas para me tomar isso.Acordei com uma sensação estranha no peito, como se algo estivesse fora do lugar. A vela já tinha se apagado há horas, e a casa estava mergulhada num silêncio profundo, quebrado apenas pelo som distante da chuva, agora mais fraca, cansada. Virei o rosto devagar e foi então que o vi. Thomas estava ali. Deitado na cama, coberto até a cintura, o corpo pesado demais, imóvel demais. Por um segundo, fiquei apenas observando, tentando entender em que momento ele tinha vindo parar ali — ou se eu mesma o tinha levado, no automático, guiada por um cuidado que meu coração insistia em ter. Estendi a mão com hesitação. Toquei seu braço. Minha pele encontrou fogo. — Thomas… — murmurei, sentando-me de imediato. Passei a mão por sua testa e confirmei o que meu corpo já tinha entendido antes da mente aceitar. Ele estava queimando em febre. A respiração era irregular, pesada, e um vinco de desconforto marcava suas sobrancelhas mesmo dormindo. Meu coração apertou. — Droga… — sussurrei para mim
Uma semana se passou. E eu gostaria de dizer que estou bem. Que a ausência de Thomas não me afeta mais. Que o silêncio dele é apenas isso: silêncio. Mas seria mentira. A fazenda segue viva ao meu redor — os animais, o cheiro de terra molhada pela manhã, o vento passando pelos campos — tudo exatamente como antes. Ainda assim, eu não sou mais a mesma mulher que saiu daqui semanas atrás. Algo em mim ficou para trás… ou talvez tenha voltado quebrado demais para se encaixar no lugar antigo. No fundo, eu esperei. Esperei que ele viesse atrás de mim. Que aparecesse na porteira, como quem não aceita perder. Que dissesse que errou, que lutasse, que provasse que eu não fui apenas parte de um plano bem calculado. Mas Thomas sumiu. As ligações cessaram. As mensagens pararam. Nenhuma tentativa. Nenhuma explicação além daquela que já me feriu o suficiente. Isso dói mais do que eu gostaria de admitir. Porque o silêncio também é uma resposta. Estou sentada no degrau da varanda quando
Quando coloco a última mala no porta-malas, minhas mãos estão trêmulas. Cada zíper fechado soa como um ponto final que eu não queria escrever, mas que já não posso apagar. — Molly, por favor… — a voz de Thomas vem atrás de mim, quebrada, desesperada. Eu não me viro. Se eu olhar para ele, eu sei que vacilo. Sei que minhas pernas vão fraquejar. Sei que vou lembrar de cada toque, cada promessa sussurrada na madrugada, cada plano que fizemos como se o futuro fosse algo sólido. — Eu não quero ouvir — digo, a voz baixa, mas firme como nunca fui. — Não agora. Ele dá alguns passos, o suficiente para que eu sinta sua presença atrás de mim, como sempre senti. Forte. Dominante. Familiar demais. — Eu te amo — ele diz, quase em um pedido de socorro. Fecho os olhos por um segundo. O amor dói mais quando é real. — Amar não é esconder verdades — respondo, sem coragem de encará-lo. Entro no carro antes que ele possa dizer mais alguma coisa. Antes que eu mude de ideia. Antes que e
Numa tarde silenciosa, a casa parecia grande demais. Thomas estava trabalhando fora, e os empregados tinham folga. Decidi aproveitar para arrumar alguns cômodos — não por obrigação, mas por necessidade de ocupar a mente. Liguei o aspirador e segui pelos corredores, sentindo aquele som contínuo preencher o vazio. Quando cheguei ao escritório de Thomas, hesitei por um segundo. Era o espaço mais dele naquela casa. Ainda assim, empurrei a porta, entrei e comecei pelo canto, próxima à mesa. Foi um descuido bobo. O aspirador bateu na lateral da mesa, e o impacto fez algumas folhas escorregarem, caindo espalhadas pelo chão como se alguém as tivesse soltado de propósito. — Droga… — murmurei, abaixando-me imediatamente para recolhê-las. Peguei a primeira. Depois a segunda. E então… eu li. O ar simplesmente deixou meus pulmões. Meu nome estava ali. O nome da fazenda. A descrição exata das terras que meu pai me deixou. Meu coração começou a bater tão forte que cheguei a ouvir o som
Ele me posiciona com cuidado, ajusta meu corpo como se quisesse ter certeza de que eu estou exatamente onde deveria estar. Então se coloca à minha frente. Sinto a presença dele antes mesmo de ouvir sua voz — firme, carregada de emoção. — Molly… — ele começa, e meu nome na boca dele sempre soa diferente. Mais intenso. — Você é uma mulher maravilhosa. Sonhadora. Simples. Forte. Você entrou na minha vida de um jeito que eu nunca esperei… e me deixou completamente encantado. Meu coração dispara. — Talvez pareça rápido demais — ele continua, a voz mais baixa agora, quase vulnerável. — Mas tudo em você me faz ter certeza. Eu não quero imaginar meus dias sem você. Engulo em seco. — Pode tirar a venda — ele diz. Minhas mãos tremem levemente quando puxo o tecido dos olhos. E então… o mundo para. Diante de mim, um letreiro enorme se ilumina no topo do prédio: “QUER CASAR COMIGO?” Meu cérebro demora alguns segundos para processar. Antes que eu consiga respirar direito, fogos de artifíc
O dia começa devagar. Sem pressa. Sem interrupções. Thomas prepara café da manhã para nós dois — ou pelo menos tenta. Eu fico encostada no balcão observando enquanto ele finge que sabe exatamente o que está fazendo. A cozinha fica uma pequena bagunça, mas ele parece orgulhoso demais para admitir. — Se abrir um restaurante falir, você já tem um plano B — ele provoca. — Você jamais pisaria na minha cozinha como chef — respondo, cruzando os braços, fingindo indignação. Ele ri. Aquele riso leve que quase não aparece quando ele está no modo “homem de negócios”. Tomamos café juntos na varanda. O sol da manhã entra suave, iluminando o rosto dele de um jeito tranquilo, quase vulnerável. Ele segura minha mão sobre a mesa, desenhando círculos distraídos com o polegar na minha pele, como se precisasse daquele contato constante. Depois, saímos sem destino certo. Caminhamos pelas ruas da cidade como um casal comum — o que, de certa forma, nunca fomos. Ele mantém a mão na minha cint





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