Cara de cachorro que caiu da mudança.
— Natália.
Meu nome na voz dele ainda carrega peso. Não o suficiente para me desmontar. Mas o bastante para me fazer erguer os olhos. E para me fazer pensar: o que ele quer agora?
— Ricardo.
Só isso. Nenhum adjetivo. Nenhuma defesa. Nenhuma gentileza extra. Para quê? Ele não merece.
Ele me olha inteiro agora. Não apenas o rosto. Não apenas a barriga. Ele olha como quem tenta compreender um conjunto que não se explica mais pelas antigas peças. Como se eu fosse um quebra-cabeça que ele quebrou e agora não consegue montar de novo.
— Você está… — ele começa, e para. A luta breve entre o controle e a verdade. Ah, que drama. Ele sempre foi um ator medíocre.
— Você está radiante — diz, enfim.
Radiante? Eu estou grávida, exausta e com vontade de chutar a canela dele. Mas obrigada pelo elogio forçado.
Não sorrio. Também não desvio. Que ele veja o que perdeu. Que ele sinta o gosto amargo do arrependimento.
— Obrigada.
É educado. Nada além. Não vou dar a ele a satisfação de uma reação emocional.