Ricardo
Fico observando a tela do celular até que o brilho se apague, deixando-me no escuro do meu escritório. Ela não responde mais. O silêncio de Natália é uma sentença que eu aprendo a ler nas entrelinhas. Eu estou descobrindo, da maneira mais dolorosa, que meu silêncio passado foi uma arma de destruição em massa, e que agora meu cuidado é interpretado como uma invasão de privacidade.
Eu caminho sobre uma corda bamba esticada sobre um abismo. Se eu fizer demais, ela se fecha em sua concha de gelo. Se fizer de menos, eu apenas confirmo a imagem de homem indiferente que eu mesmo me esforcei para construir.
Levanto-me e vou até a imensa parede de vidro. São Paulo se estende lá embaixo, uma tapeçaria caótica de luzes e concreto que sempre pareceu dobrar-se à minha vontade. Eu tenho o mundo aos meus pés, o poder de mover montanhas financeiras com um telefonema, mas não tenho o direito básico de tocar a mão da mulher que carrega o meu sangue.
O segredo que guardei como uma maldição — a c