Mas, no fundo, naquela parte de mim que eu mantenho trancada sob sete chaves, em um porão onde nem eu mesma gosto de entrar, sinto uma pontada de algo que não é raiva. É uma saudade lancinante, uma dor aguda que me atravessa, uma vontade quase física e desesperada de pegar o celular, ligar para ele e dizer que a poltrona é perfeita. Que ele, de alguma forma tortuosa e silenciosa, ainda sabe exatamente do que eu preciso antes mesmo que eu mesma saiba.
O meu corpo agradece, traiçoeiro e rendido. Minhas costas relaxam, a tensão acumulada na lombar se dissipa e minha respiração finalmente encontra um ritmo calmo que eu não sentia há semanas. O bebê se move em ondas suaves, um bailado rítmico, como se aprovasse aquele novo refúgio que o protege do cansaço da mãe.
Levanto-me com a lentidão e o cuidado que a gravidez avançada me impõe. Caminho pela sala, recolhendo uma xícara esquecida, organizando as almofadas do sofá, tentando ignorar o fato de que o apartamento agora parece ter uma nova â