Natália
No dia seguinte, o sol de São Paulo entra pela janela como um intruso indesejado, iluminando a poeira que dança no ar e a solidão que se instalou definitivamente nos cantos do meu apartamento. Sento-me no sofá e deixo o corpo relaxar com um cuidado quase cerimonial, como se cada músculo fosse um cristal precioso prestes a trincar e precisasse de uma permissão formal para finalmente ceder. A manhã já escorreu por entre meus dedos, mas meu corpo ainda carrega aquela sensação incômoda de um início inacabado — como se eu tivesse despertado no meio de um sonho interrompido, uma melodia que parou abruptamente antes da nota final.
Levanto-me cedo, impulsionada não pela minha própria vontade, mas pelo chamado imperioso da vida que cresce em meu ventre. O banho é um ritual lento, quase meditativo; sinto o peso da água quente fustigando minhas costas, um alívio momentâneo para a tensão que se acumula na base da coluna. Meus dedos percorrem a pele esticada da barriga, espalhando o creme