Natália
Dias se passam desde que a poltrona cor de areia invadiu a minha sala. Ela está ali, um monumento silencioso ao cuidado que eu não pedi, mas que o meu corpo aceita com gratidão traiçoeira. Eu me sento nela todos os dias, sentindo o bebê se mover, e o conforto me desarma.
O quarto que deveria ser o berçário permanece intocado. É o antigo escritório de hóspedes, um cômodo neutro, cheio de caixas que eu deveria ter organizado, mas que eu não consigo sequer olhar. A ideia de planejar, de escolher cores, de montar móveis, me paralisa. É um peso logístico e emocional que eu não tenho forças para carregar. A gravidez me rouba a energia, e a separação me rouba a vontade.
Eu sei que o tempo corre. Sei que o bebê chega, e o quarto precisa estar pronto. Mas a procrastinação é o meu único refúgio. Se o quarto não existe, talvez a realidade não seja tão iminente.
O celular toca. É um número desconhecido. Eu hesito, mas atendo.
— Natália? — a voz dele soa clara, mas não tem a autoridade fri