Mundo ficciónIniciar sesiónAnabela Queirós é uma artista e professora de artes que tem seu próprio Atelier no Porto (Portugal). Num sábado, ela sai em busca de inspiração entre as Flores de Cerejeira do Douro, mas encontrou mais do que isso. Entre passeios e novas descobertas, despertou de sua própria consciência e manifestou o impossível. Uma história apaixonante com doses de intrigas, mentiras e drama. Será preciso muita coragem, força e um amor real para superar todos os desafios. Anabela não imaginaria que iria encontrar algo tão genuíno e verdadeiro que transformaria a sua trajetória para sempre, provando que o amor e a abundância caminham lado a lado.
Leer más"Faz hoje um ano que abri as portas deste ateliê."
Olhei ao redor, absorvendo cada detalhe. Era maravilhoso ver o meu trabalho tomando forma. Neste momento tenho dezasseis alunos encantados pela arte do contacto do grafite com o papel — textura, leveza, camadas de intenção, luz e sombra.
— Ah, não consigo fazer isto! — desabafou Isabel, de 62 anos, muito impaciente. — Anabela, preciso de ajuda!
Aproximei-me com serenidade.
— Calma, Isabel. O que precisa? Mostre-me.
— Estou a tentar fazer um olho igual ao outro, mas não acerto! Nunca fica igual!
As marcas de borracha denunciavam as tentativas frustradas.
— Vamos olhar primeiro para a imagem de referência — apontei para a fotografia em escala de cinzas. — Este olho está perfeito. O outro está mais escondido. Por isso, serão diferentes: é a perspectiva.
Ela inclinou a cabeça.
— Ahh… tem razão. Mas não sei como fazer.
— Eu mostro.
Tracei linhas leves numa outra folha e guiei a sua mão. Minutos depois, o pássaro ganhava forma. Isabel sorriu, orgulhosa do primeiro desenho em grafite.
Desde que apresentei o projeto à assistente social Carla, as inscrições não pararam. Consegui parceria para pintura em acrílico às quintas e aos sábados, mas ainda preciso de mais cavaletes. Os de boa qualidade são caros e cada investimento pesa quando se vive do próprio sonho no primeiro ano.
Brevemente, quero reabrir a turma de aquarela, mas preciso de uma temática interessante.
A Primavera aproxima-se. Ouvi dizer que as cerejeiras no Douro vão desabrochar em breve. Sinto que preciso ir lá conhecer. Poderá servir-me de inspiração.
— Anabela, venha ver o cavalo que desenhei — chamou Rui, com um sorriso traquina que desmentia os seus 68 anos.
O cavalo cinza-escuro parecia respirar no papel.
— Rui, evoluiu muito. Lembra-se do alce da semana passada? Vamos comparar?
Rui colocou os dois desenhos lado a lado. A diferença era evidente.
— Consegue perceber a evolução da sua técnica de pelugem? — sorri.
Ele piscou-me o olho.
— Sim. Gosto de guardar as provas do meu avanço.
— E faz muito bem.
Senti um calor no peito. Além do orgulho, era a confirmação de que superei as dúvidas, as contas apertadas e o medo de falhar. Cada progresso dos meus alunos era também meu.
O meu projeto estava a funcionar.
— Muito bem, turma, vamos organizar tudo. Na quarta-feira continuamos — anunciei.
Saíram devagar, entre despedidas e risos suaves.
Apenas Rosa permaneceu. Aos 80 anos, organizava as folhas na sua pasta de couro com a mesma delicadeza com que segurava o lápis. Usava um conjunto azul‑pastel, com sobretudo e boina à francesa a combinar. Um alfinete prateado, em forma de rosa, brilhava discretamente no peito.
— Anabela, querida… posso fazer-lhe uma pergunta pessoal?
Consenti com um leve aceno.
— É uma mulher inspiradora, sabe? Pergunto-me… tem um namorado?
Sorri por instinto, mas senti os ombros enrijecerem.
— Rosa… é uma pergunta bem pessoal — ri baixinho. — Não, não tenho. Por que a curiosidade?
Ela corou ligeiramente, abrindo um sorriso acolhedor.
— Porque é uma jovem, apaixonada pelo que faz, tem os olhos a brilhar quando fala de arte… e é linda. Como não tem namorado?
Corei também.
— Esteve a observar-me bem, pelo que percebo.
Cruzei os braços de forma divertida, sentindo os lápis guardados no bolso da camisa pressionarem o peito.
— A Anabela tem um dom — continuou ela. — Já fiz outros cursos, nos quais todos os alunos aprendiam a desenhar de forma semelhante. Aqui, somos livres. Sinto-me vista.
As palavras tocaram-me fundo.
— Fico muito feliz que sinta isso, Rosa.
Ela levantou-se, segurando a pasta de couro que reparei que combinava com as suas botas. Eu tinha uma admiração pela Rosa, era um exemplo para mim.
— Agora veja se começa a namorar, menina Anabela.
Caminhei ao lado dela até à porta.
— Já me iludi algumas vezes… não é fácil encontrar alguém que queira construir algo verdadeiro.
Rosa parou antes de sair e segurou-me a mão. Senti o calor do seu toque reconfortante.
— Não pense assim. No momento certo, algo especial aparece. Digo por experiência própria.
Apontou discretamente para a rua. Um senhor elegante aguardava, sorrindo com paciência.
— Hoje comemoramos sessenta anos de casados.
Observei enquanto ele pegava a pasta da sua mão e oferecia o braço para caminharem juntos. Havia ali cumplicidade, leveza e história. O meu peito apertou, desta vez pela esperança.
Os meus dias pertenciam ao trabalho, às cores, às telas e aos traços inseguros que ganhavam coragem.
As noites… pertenciam à minha solitude. Mas eu estava pronta para manifestar algo diferente.
Talvez a Primavera trouxesse mais do que flores. Talvez trouxesse o amor que eu finalmente estava pronta para viver.
~ CarlosA luz incidia diretamente sobre mim.Quente, precisa e inescapável.Do outro lado, uma plateia cuidadosamente composta: imprensa, investidores, rostos conhecidos do meio empresarial e social. Todos atentos. Todos à espera.Era exatamente onde eu deveria estar.— Boa tarde a todos.Fiz uma pausa breve, deixando o olhar percorrer a sala.— Quero agradecer a vossa presença hoje… prometo que vamos justificar terem trocado um sábado à tarde por este evento.Alguns sorrisos. Um leve murmúrio de reação. O suficiente.— Como podem sentir, este evento é mais do que um lançamento estratégico da marca Ferraz.Deixei a frase assentar antes de continuar.— Nos últimos tempos, temos vindo a trabalhar com essências florais… mais especificamente, com flores de cerejeira. Como já puderam perceber pelo ambiente que nos envolve.Um gesto discreto, abrangendo o espaço.— Hoje, temos o prazer de apresentar Cherry Bloom, o primeiro perfume pessoal da marca.Notei algumas expressões a mudarem. Inte
O calor da mão do Carlos sobre a minha era firme e presente, como se, naquele gesto simples, ele me ancorasse ao momento.O ambiente à nossa volta continuava vivo, elegante, cheio de vozes e risos contidos, mas eu já não prestava verdadeira atenção. Havia algo diferente no ar. Uma mudança subtil, quase instintiva.E então vi-os.A minha respiração falhou por um segundo.— Anabela? — a voz do Carlos suavizou-se, percebendo de imediato a mudança em mim.Não precisei de responder. O meu olhar dizia tudo.A minha família.Leonard vinha ligeiramente à frente, com aquele ar seguro e observador de sempre, mas havia um brilho diferente no seu rosto… quase cúmplice. E logo atrás dele…A minha mãe.Alice Queirós movia-se como sempre: leve, elegante, com um sorriso aberto que parecia iluminar tudo à sua volta. Quando os nossos olhares se cruzaram, o sorriso dela transformou-se — deixou de ser social e passou a ser só para mim.Genuíno, cheio e maternal.Ao lado dela estava o meu pai.Tomás Queir
~ RebeccaO corredor estava silencioso, exceto pelo eco suave dos meus passos sobre o mármore frio. O meu coração batia mais rápido do que queria admitir, uma mistura de antecipação e repulsa. Eu sabia que ele estaria ali.O meu pai, Luís Ferraz.Respirei fundo. Não podia dar meia-volta agora. A cada passo, ele parecia enraizar-se mais fundo na minha mente. E eu tinha uma missão: descobrir até que ponto estava envolvido nos últimos acontecimentos, sem ceder à manipulação que ele sempre tentava exercer.Finalmente, avistei-o. Encostado à parede do salão, impecável, como sempre. A postura ereta, as mãos cruzadas atrás das costas, a gravata perfeitamente alinhada. A máscara de elegância e controle que ele usava há anos não escondia tudo, Rebecca. Não para mim.— Ciao, papà — disse, deixando escapar um sorriso irónico, quase teatral. — Adivinha quem resolveu aparecer?Ele ergueu uma sobrancelha, como se aquela provocação lhe fosse uma carícia.— Rebecca, minha filha… que agradável surpres
~ RichardO bar estava estrategicamente posicionado.Nem demasiado exposto, nem isolado. Um ponto de observação perfeito. E, naquele momento, era exatamente onde eu queria estar.— Duas taças de champanhe — pedi, apoiando a mão no balcão.Enquanto o barman servia, dei por mim a observá-la de novo. Desta vez sem distrações. O vestido verde menta moldava cada curva de Vera de forma impossível de ignorar. A seda refletia a luz suavemente, tornando o corpo dela quase hipnotizante. Cada movimento, cada dobra do tecido… despertava algo em mim.Estava elegante… mas havia algo ali que ia além disso.Os meus olhos demoraram-se um segundo a mais.— Curioso… — disse, entregando-lhe a taça.Vera arqueou ligeiramente a sobrancelha.— O que foi?Aproximei-me meio passo, o suficiente para baixar o tom.— Essa cor realça o seu tom de pele e… — parei, criando suspense.Ela olhou para o próprio vestido, depois voltou a mim.— Verde menta?Assenti, um leve sorriso a surgir.— Exatamente o mesmo tom que





Último capítulo