"Se quiser salvá-la — de mim, dos inimigos, de tudo — eu terei que destruir o homem que fui." — Fernando Torrenegro
🖤
As manhãs ao lado dela são silenciosas, mas não frias. Há uma paz que me desarma. Um tipo de calma que, por anos, eu achei ser apenas uma invenção — algo que homens como eu jamais tocariam.
Luna acorda antes de mim.
Sempre antes.
Ouço seus passos leves pela cozinha, o tilintar das xícaras, o som discreto do rádio tocando alguma melodia antiga. E cada nota me fere e cura ao mesmo tempo. Ela não fala muito. Mas quando o faz, é como se cada palavra limpasse um pouco do sangue que ainda escorre das minhas memórias.
Hoje, por exemplo, ela apenas disse:
— O sol está forte lá fora. Acho que ele quer te ver.
E eu ri.
Um riso pequeno, quase esquecido.
Porque nunca pensei que um dia alguém me desejaria a luz.
Faz uma semana que estou aqui, nesse pequeno refúgio à beira-mar. Longe de tudo. Longe de todos. Ou quase todos. Porque a sombra do que fui não desaparece. Ela