Primeiro dia

Chego pontualmente às sete da manhã na mansão. A senhora Hargrove me espera na porta de serviço com uma lista longa de tarefas e um uniforme cinza simples. Visto-o no pequeno vestiário e começo o dia na cozinha. Lavo louças do café da manhã que o senhor Whinches já tomou, esfregando cada prato, talher e panela com cuidado, porque ela avisa que qualquer marca deixa marcas. O cheiro de detergente sobe forte e minhas mãos ficam vermelhas da água quente. Depois seco tudo e organizo os armários exatamente como ela mostrou, alinhando os copos por tamanho e as panelas por tipo.

Passo para a sala de estar principal. Aspiro o tapete grande, movendo o aspirador pesado de um lado para o outro, depois tiro o pó de cada móvel com um pano úmido, passando várias vezes nas estantes cheias de livros e objetos decorativos. A senhora Hargrove verifica tudo e aponta um canto onde ainda há uma partícula de poeira. Volto e limpo de novo. As janelas altas exigem que eu suba em uma escada para alcançar o vidro todo; meus braços doem enquanto passo o limpador e seco sem deixar nenhuma listra.

No corredor, varro e lavo o piso de mármore de joelhos, porque o pano grande não chega nos cantos. A água fria molha meus joelhos e o cheiro de desinfetante enche o ar. Subo para os quartos de hóspedes. Troco lençóis em três camas, carregando o cesto pesado de roupa suja até a lavanderia no porão. Coloco para lavar, separando por cor e tipo de tecido conforme as instruções. Enquanto espero o ciclo, limpo os banheiros: esfrego azulejos, vaso sanitário, pia e espelho, passando o pano em cada canto e dobrando as toalhas exatamente da mesma forma.

O relógio avança devagar. Almoço rápido na cozinha de serviço, um sanduíche simples que preparei, mas a senhora Hargrove aparece e me lembra que não posso deixar migalhas. Volto ao trabalho. Polir os corrimãos de madeira da escada leva quase uma hora, esfregando até brilhar. Depois limpo a área da piscina coberta, secando gotas do chão e organizando as cadeiras. Minhas costas doem, os pés incham dentro dos sapatos novos e o uniforme começa a grudar na pele com o suor.

Por volta das quatro da tarde, o cansaço pesa. Estou terminando de limpar o hall principal quando o senhor Albert Whinches aparece no topo da escada. Ele desce devagar, olhando ao redor. Paro o que estou fazendo, com o pano na mão, o cabelo preso escapando em fios úmidos e o rosto claramente cansado.

Ele para perto de mim e observa o piso.

— Você parece exausta. Mas o chão ainda está sujo ali no canto, perto da base da escada. Veja as marcas.

Sinto o rosto queimar de vergonha. Olho para o ponto que ele indica e não digo nada. Apenas abaixo a cabeça, volto para o balde, molho o pano novamente e me ajoelho para limpar o local mais uma vez, passando o pano com movimentos lentos e repetitivos. Ele fica ali por alguns segundos, observando, depois segue para o escritório sem mais palavras.

O expediente se arrasta até as seis. Termino as últimas tarefas, guardo os materiais de limpeza exatamente no lugar e vou até a sala dele para informar que estou saindo, como a senhora Hargrove orientou.

Ele está sentado à mesa, revisando alguns papéis. Levanta o olhar quando entro.

— Terminou tudo?

— Sim, senhor.

— Amanhã quero que preste mais atenção aos detalhes do piso. E organize melhor os livros da sala de estar, alguns estavam fora de ordem. Não gosto de desleixo.

Fico parada, sentindo o cansaço acumulado do dia inteiro e a irritação crescendo, mas mantenho a voz neutra.

— Entendido. Vou melhorar.

Ele continua:

— E não deixe o uniforme amassado. A aparência conta. Pode ir.

Saio da mansão sem responder mais nada, entro no meu carro velho e dirijo até a oficina da Lívia. Chego com os ombros caídos e o corpo todo dolorido. Ela está fechando algumas ferramentas quando me vê e vem correndo.

— Ana, o que aconteceu? Você está péssima.

Sento no banco velho do lado de fora da oficina e começo a contar tudo, a voz baixa.

— Foi horrível, Lívia. O dia inteiro esfregando, lavando, subindo escada, carregando peso. A governanta fica fiscalizando cada canto. E o senhor Whinches… no final do dia ele veio e disse que o chão ainda estava sujo, bem na minha frente. Fiquei sem graça, não falei nada e tive que limpar de novo. Depois, quando fui avisar que estava saindo, ele ainda reclamou do uniforme amassado e dos livros fora de ordem. É exaustivo e humilhante. Esse homem é um demônio, um demônio bonito.

Lívia senta ao meu lado e coloca a mão no meu ombro.

— Que chato… Eu sabia que ele era rigoroso, mas não imaginava tanto. Você aguentou o dia todo?

— Aguentei... Não sei o que faria se estivesse sozinha nessa.

Não tenho mais ninguém. Meus pais já se foram, não tem família, só Lívia mesmo. Se não fosse esse emprego, eu nem sei como ia pagar a faculdade. Mas hoje foi tão cansativo… os joelhos doem, as mãos ardendo, e ainda tenho que estudar à noite.

Ela me abraça forte.

— Eu sei, amiga. Estou aqui pra tudo. Amanhã vai ser um pouco melhor, você vai se acostumar. E se ficar muito ruim, a gente pensa em outra coisa. Mas você é forte, Ana. Vamos dar um jeito.

Ficamos ali mais um tempo, conversando baixo enquanto o sol baixa. Conto mais detalhes do dia, as regras bobas, o silêncio da mansão, e ela escuta tudo, me dando força como sempre. Depois dirijo para casa, exausta, mas com a certeza de que pelo menos tenho ela.

...

Chego novamente às sete da manhã, o corpo ainda dolorido do dia anterior. Visto o uniforme, guardo minhas coisas e começo as tarefas. A senhora Hargrove me passa uma lista ainda mais longa hoje: limpar todos os vidros das janelas do térreo, reorganizar a biblioteca da sala de estar, lavar o piso do hall novamente e preparar os quartos para possíveis hóspedes.

Estou no meio da reorganização dos livros na sala de estar, limpando cada prateleira com cuidado, quando o senhor Albert Whinches entra. Ele para atrás de mim e observa o trabalho em silêncio por alguns segundos. Meu coração acelera.

— O que você fez aqui? — pergunta ele, com voz baixa e fria.

— Organizei os livros por autor, como a senhora Hargrove orientou ontem, senhor.

Ele pega dois livros da prateleira e os j**a sobre a mesa.

— Estão fora de ordem alfabética. E você deixou marcas de dedos no vidro da estante. Isso é inaceitável. Eu esperava mais competência de alguém que disse estar precisando do emprego.

Sinto o rosto queimar de vergonha. As mãos tremem levemente enquanto seguro o pano.

— Desculpe, senhor. Vou corrigir agora mesmo.

— Desculpe não resolve. Você está aqui há dois dias e já está repetindo os mesmos erros. Se não consegue fazer algo tão simples quanto limpar e organizar, talvez não seja o lugar certo para você. Eu tenho padrões altos nesta casa e não vou abaixá-los porque você precisa pagar a faculdade.

As palavras dele acertam em cheio. Baixo a cabeça, sentindo os olhos arderem.

— Eu entendo. Vou fazer melhor. Desculpe mais uma vez.

Ele cruza os braços e continua, o tom ainda mais cortante:

— Pare de pedir desculpas e faça o trabalho direito. Volte para o começo dessa estante e faça tudo de novo. E da próxima vez, use luvas se suas mãos sujam os móveis. Isso é patético.

Fico parada por um segundo, o peito apertado. As lágrimas sobem, mas seguro o máximo que consigo. Ele vira as costas e sai da sala. Assim que ele desaparece no corredor, corro pelo hall, subo as escadas e entro no banheiro de serviço do segundo andar. Fecho a porta, sento no chão frio e choro baixo, cobrindo o rosto com as mãos. As lágrimas escorrem quentes, o cansaço do corpo e a humilhação misturados. Fico ali alguns minutos, tentando respirar.

A porta se abre de repente. A senhora Hargrove me encara com expressão dura.

— O que é isso? Pare com essa frescuras agora mesmo. Você não está aqui para chorar. Levante-se e volte ao trabalho. O senhor Whinches não tolera esse tipo de comportamento.

Enxugo o rosto rapidamente com as costas da mão.

— Sim, senhora.

Saio do banheiro com os olhos vermelhos e volto para a sala de estar. Recomeço a organizar os livros do zero, limpando cada um com cuidado extra, o corpo pesado e a mente exausta. O resto do dia segue assim: tarefas repetitivas, verificações constantes e silêncio opressivo.

Quando o expediente termina, dirijo direto para casa, tomo um banho rápido e troco de roupa. Pego o carro novamente e vou até a faculdade. O campus está mais vazio por causa do fim do semestre. Entrego meu TCC na secretaria, assinando os papéis necessários. A atendente sorri ao carimbar o documento.

— Parabéns. Agora você está de férias.

Saio do prédio com o alívio de finalmente ter terminado esse ciclo. Entro no carro, apoio a cabeça no volante por um momento e respiro fundo. As férias chegaram, mas o peso do dia ainda está fresco. Penso em ligar para Lívia mais tarde e contar tudo, sabendo que ela é a única pessoa que realmente me escuta. Por enquanto, só quero chegar em casa, descansar o corpo dolorido e tentar esquecer as palavras do senhor Whinches.

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