Mundo de ficçãoIniciar sessão
Chego à entrada da mansão do senhor Albert Whinches, estaciono meu carro ao lado do portão de ferro alto e respiro fundo antes de tocar a campainha. O ar está fresco, com um leve cheiro de grama recém-cortada. A governanta, uma mulher de uns cinquenta anos, cabelo preso em coque firme e uniforme cinza impecável, abre o portão e me recebe com um aceno curto.
— Você deve ser a nova candidata. Sou a senhora Hargrove. Venha comigo. Caminho atrás dela pelo caminho de cascalho que leva à porta principal. A mansão se ergue imponente, com paredes de pedra clara, janelas altas e um telhado que se estende por vários níveis. Entramos no hall principal e observo o espaço amplo: o piso de mármore brilha sob a luz que entra pelos vitrais do teto, um lustre de cristal pende no centro, e ao fundo uma escadaria curva sobe para os andares superiores. Quadros grandes cobrem as paredes, e vasos com flores frescas descansam sobre mesas laterais. O lugar parece vasto e silencioso. A senhora Hargrove me guia por um corredor longo até uma porta dupla de madeira escura. Ela b**e duas vezes e abre. — Senhor Whinches, a candidata chegou. Entro na sala e vejo o homem sentado atrás de uma mesa grande de carvalho. Albert Whinches tem cerca de quarenta anos, cabelo castanho escuro bem penteado, olhos verdes atentos e traços definidos. Ele veste uma camisa branca simples, com as mangas dobradas até os antebraços, e mantém a postura ereta. A luz da janela atrás dele ilumina o espaço organizado, com estantes cheias de livros e alguns documentos empilhados com cuidado. — Sente-se — diz ele, com voz calma e direta, apontando para a cadeira à frente da mesa. Sento-me e entrelaço as mãos no colo. — Bom dia, senhor Whinches. Meu nome é Ana. Obrigada pela oportunidade. — Ajusto meus cabelos ruivos. Ele me observa por um momento, depois pega uma folha de papel com minhas informações. — Lívia recomendou você. Preciso de uma nova empregada doméstica para o verão. O trabalho inclui limpeza das áreas comuns, organização dos quartos de hóspedes, manutenção da cozinha e qualquer tarefa que a senhora Hargrove indicar. Você trabalhará seis dias por semana, com folga na segunda. O horário começa às sete da manhã e termina às seis da tarde, com uma hora de almoço. Concordo com a cabeça. — Entendido. Estou disposta a aprender as rotinas. Ele continua, enumerando as regras da casa com tom neutro: — Nada de música alta em nenhuma área. Nada de telefone durante o expediente, exceto em emergências. Os quartos do segundo andar só podem ser acessados com permissão prévia. Não se aproxima da ala oeste sem aviso. Nada de visitantes sem autorização. E nada de perguntas sobre assuntos pessoais. Cumprir isso é obrigatório. Enquanto ele fala, penso que essas regras parecem excessivas e desnecessárias para um emprego de verão. Esse homem parece bastante problemático e controlado. Por um instante, considero dizer que não vai dar certo e sair dali. Mas lembro do valor da mensalidade da faculdade de medicina que ainda falta pagar, do emprego de garçonete que perdi há duas semanas e da ajuda que Lívia me deu para conseguir essa vaga. Preciso do dinheiro. Aceito. — Sim, senhor. Vou respeitar todas as regras. Ele assente, satisfeito. — Bom. Vou mostrar a mansão para você se familiarizar. Levantamos e ele me guia pelos cômodos. Primeiro, passamos pela sala de estar principal, com sofás de tecido claro, uma lareira de pedra e janelas que dão para o jardim dos fundos. A cozinha é ampla, com bancadas de granito, armários claros e equipamentos modernos alinhados. Subimos a escadaria e ele mostra o corredor do primeiro andar, com vários quartos de hóspedes decorados de forma simples e elegante, cada um com banheiro privativo. No segundo andar, indica a ala oeste, que permanece fechada, e aponta para o escritório maior onde ele passa a maior parte do tempo. Descemos novamente e percorremos a área de serviço, a lavanderia e o jardim lateral, onde há uma piscina coberta e um pequeno bosque ao fundo. Tudo está limpo, organizado e silencioso. — Você começa amanhã, às sete em ponto — diz ele ao final do tour. — A senhora Hargrove vai explicar os detalhes práticos. Agradeço e saio da mansão, sentindo o peso do dia. Mais tarde, dirijo meu carro velho até a oficina onde Lívia trabalha com o pai. O motor ronca baixo, mas agora funciona melhor depois dos consertos. Estaciono e entro no espaço com cheiro de óleo e metal. Lívia está limpando as mãos em um pano, o cabelo preso em rabo de cavalo e o macacão sujo de graxa. — Ana! Como foi? Conseguiu? — pergunta ela, com um sorriso largo. — Consegui sim. Começo amanhã. Ela solta um gritinho animado e me abraça rapidamente. — Que ótimo! Eu sabia que ia dar certo. O senhor Whinches é meio estranho com as regras, mas o pagamento é bom, né? Você vai conseguir terminar de pagar a faculdade rapidinho. — É, as regras são chatas. Nada de telefone, nada de música, quartos proibidos… Parece que estou entrando em um quartel. Mas preciso mesmo do dinheiro. E você, como estão as aulas? Lívia ri e encosta no banco de trabalho. — As mesmas coisas de sempre. O professor de anatomia ainda cobra aqueles mapas absurdos. E você, conseguiu recuperar aquela matéria de bioquímica que estava pendurada? — Ainda estou correndo atrás. Perdi muita coisa por causa do emprego antigo. Mas agora com esse horário fixo, vou conseguir estudar à noite. Lembra quando a gente ficava até tarde na biblioteca da faculdade reclamando das provas? — Como esquecer? A gente tomava aqueles cafés horríveis da máquina e jurava que ia desistir toda semana. Agora olha só nós duas, você na mansão do homem mais rico do país e eu aqui sujando as mãos de graxa. Pelo menos vamos pagar as contas. Conversamos mais um pouco sobre as turmas do próximo semestre, os professores chatos e os planos para o fim do verão, rindo das situações que vivemos juntas na faculdade. O papo leve me faz sentir mais leve depois do dia tenso. Despeço-me dela prometendo contar mais detalhes amanhã e volto para o carro, pronta para o que vem pela frente.






