Quando o coração escolhe uma família

Quando o coração escolhe uma família PT

Romance
Última actualización: 2026-07-13
Mara Santos  Recién actualizado
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Resumen
Índice

Karina sempre achou Richard o homem mais arrogante de Londres. Como chefe do hospital, ele é brilhante, exigente e especialista em testar sua paciência.Mas tudo muda quando um bebê é abandonado na porta de Richard com a notícia de que ele é o pai.De repente, o médico que salva vidas todos os dias não consegue sobreviver a uma única troca de fralda. E, contra a própria vontade, Karina acaba se tornando sua maior ajuda.Entre plantões, noites sem dormir e uma bebê que derrete qualquer coração, os dois descobrirão que a linha entre implicância e amor pode ser muito mais fina do que imaginavam.

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Capítulo 1

Capítulo 1

Richard

A última imagem nítida que eu guardava daquela noite era o rosto dramaticamente sofrido de Leo, gesticulando com seu copo de cerveja enquanto desabafava sobre as "agruras" da vida de casado.

​— Você não entende, Richard. O casamento é uma instituição complexa. Uma engrenagem delicada — filosofou ele, com toda a seriedade que três chops conseguiam proporcionar.

​— Você fala como se estivesse marchando para o corredor da morte — brinquei, encostando as costas na cadeira do bar.

​— Porque você não estava lá ontem. Você não viu a guerra fria que se instalou na minha sala por causa do posicionamento estratégico de duas almofadas fúcsia. Fúcsia, Richard! Eu nem sabia que isso era uma cor!

​Miranda soltou uma gargalhada alta, limpando o canto dos olhos.

​— Eu juro que vocês, casados, inventam problemas só para não caírem no tédio.

​Helena, que até então só observava a cena com um sorriso divertido, ergueu sua taça de espumante no centro da mesa.

​— Um brinde aos solteiros convictos, que dormem em paz e não discutem por paletas de cores ou almofadas.

​— Amém. Obrigado por isso — respondi, brindando com ela.

​Leo revirou os olhos, apontando o dedo indicador na minha direção.

​— Rias agora, meu amigo. Rias agora. O amor morde a retaguarda quando você menos espera.

​Eu apenas ri e mudei de assunto. Afinal, eu estava seguro no meu casulo de solteiro convicto. Não fazia a menor ideia do que o destino estava costurando para mim dali a poucas horas.

​Trimmm.

​Abri um olho, a visão borrada pelo sono pesado. Silêncio. Pensei ter sido resquício de algum sonho estúpido e afundei a cabeça no travesseiro.

​Trimmm. Trimmm.

​Dessa vez, o som agudo da campainha arranhou meus tímpanos. Pisquei, tateando o criado-mudo atrás do celular. A tela acesa quase me cegou: 03:30 da manhã.

​Quem, em sã consciência, tocava a campainha de alguém àquela hora? Se fosse uma emergência com Leo ou os outros, teriam ligado.

​Levantei soltando um palavrão baixinho, os pés descalços colando no piso frio enquanto eu atravessava a penumbra do apartamento. Destranquei a fechadura e abri a porta com o cenho franzido, pronto para soltar os cachorros no infeliz.

​Não havia ninguém.

​O corredor do prédio estava completamente deserto, iluminado apenas pela luz amarelada e fria do sensor de presença.

​— Muito engraçado, palhaço — resmunguei, colocando a cabeça para fora, esperando ver algum vizinho bêbado ou um adolescente correndo pelo lance de escadas. Nada. O silêncio era quase sepulcral.

​Até que um som quebrou o vazio.

​Não era o vento. Era um chiado agudo, um resmungo sôfrego que logo evoluiu para um choro agudo, esganiçado.

​Baixei os olhos. Meu coração deu um solavanco tão violento contra o peito que cheguei a dar um passo para trás.

​Havia um cesto de vime trançado bem ali, encostado no meu batente. Dentro dele, afundada em uma manta rosa que parecia grande demais para o seu tamanho, estava uma bebê. Miúda, com o rosto incrivelmente vermelho e os punhos fechados, chorando a plenos pulmões.

​Meu cérebro simplesmente desligou. Entrou em pane, como um computador antigo tentando rodar um programa pesado demais.

​— Não... não, não. Isso não tá acontecendo.

​Me ajoelhei no chão frio do corredor, as mãos pairando no ar, trêmulas, sem coragem de tocar na criaturinha.

​— Isso é pegadinha. Cadê as câmeras? — Olhei freneticamente para os lados, para o teto, esperando o elenco de algum programa de TV sair de trás do elevador.

​Ninguém apareceu. O corredor continuou vazio. O choro dela, no entanto, parecia aumentar de volume, ecoando pelas paredes de alvenaria.

​A adrenalina disparou. Sem pensar nas consequências, peguei o cesto nos braços e entrei, chutando a porta para fechar atrás de mim. Larguei o cesto no sofá e tirei a menina dali de dentro com o máximo de cuidado que minhas mãos trêmulas permitiam. Ela parecia feita de cristal.

​Foi quando notei um envelope branco preso com um alfinete de fralda na borda da manta. Havia um nome escrito à caneta, com uma caligrafia apressada: Richard.

​Sentei-me no sofá com a bebê aninhada de forma desajeitada contra o meu peito. Ela soluçava, o calor do corpinho dela atravessando a minha camiseta. Com uma das mãos, rasguei o envelope.

​A cada linha que meus olhos escaneavam, meu estômago despencava um andar na escala do pânico.

​A carta era de Catherine. Puxei pela memória o nome, a imagem... e o estalo veio. Uma mulher de cabelos escuros que conheci meses atrás na boate Eclipse. Uma única noite de impulsividade e névoa alcoólica. Nada mais. Nunca mais tínhamos nos falado.

​Até agora.

​Na carta escrita às pressas, ela explicava que descobriu a gravidez poucas semanas depois daquela noite. Contava que entrou em pânico, que passou os últimos meses cuidando da mãe gravemente doente no interior, tentando equilibrar o peso do mundo nas costas e resolver tudo sozinha. Disse que nunca teve coragem de me procurar, que achou que daria conta de ser mãe solo sem atrapalhar a vida de um desconhecido.

​“Mas eu não consegui, Richard. Eu quebrei. Não tenho estrutura, não tenho dinheiro e minha mãe piorou. Ela precisa de você agora. O nome dela é Sofie. Ela é sua filha.”

​A carta terminou ali.

​Fiquei longos segundos estático, encarando a parede oposta como se esperasse que ela me desse as respostas do universo. Depois olhei para o papel. Depois para a bebê.

​— Eu tenho uma filha — sussurrei para o apartamento vazio.

​Sophie, como se entendesse o peso da revelação, soltou um choro ainda mais estridente.

​— Certo. Justo. Eu também entraria em pânico se descobrisse que sou seu pai — falei com a voz embargada, passando a mão livre pelos cabelos, completamente desnorteado. Eu mal conseguia cuidar das minhas plantas, como ia cuidar de uma vida?

​Instinto de sobrevivência. Eu precisava de ajuda. E só havia uma pessoa que, apesar de reclamar de almofadas, parecia ter a vida minimamente sob controle.

​Peguei o celular e disquei. Chamou uma, duas, três vezes.

​— Richard? — a voz de Leo veio arrastada, rouca de sono. — Cara... você tem noção de que horas são? Alguém morreu?

​— Tem um bebê na minha casa.

​Houve um longo silêncio na linha. Dava quase para ouvir as engrenagens da cabeça dele tentando girar.

​— O quê? Você tá bêbado?

​— Leo, eu estou sóbrio como um monge. Tem um bebê. Na minha sala. Neste exato momento.

​Outro silêncio sepulcral. Mas, ao fundo, ouvi o lençol se mover e uma voz feminina, sonolenta e preocupada: “Leo? O que aconteceu? É o Richard?” Era Juliana.

​— O Richard está dizendo que tem um bebê com ele — Leo repetiu para a esposa, o tom de voz mudando de sonolento para genuinamente alarmado.

​— Um bebê?! — a voz de Juliana ecoou, agora mais perto do aparelho.

​— Na minha casa! — reiterei, quase gritando.

​Para selar o meu destino, Sofie soltou um berro agudo bem perto do microfone do celular.

​Ouvi Juliana soltar uma exclamação abafada do outro lado.

​— Meu Deus do céu, Leo, isso é realmente o choro de um bebê!

​— Eu disse! Vocês acham que eu estou inventando uma criança às três da manhã?!

​— Richard, como assim tem um bebê aí? De onde surgiu isso? — Leo perguntou, a voz agora carregada de urgência de quem estava pulando da cama.

​— Eu não sei... Quer dizer, eu sei, a carta... Eu não sei o que fazer!

​— Calma. Respira e não faça nenhuma besteira — instruiu Leo, tentando manter a liderança da situação.

​— Cara, eu estou tão desesperado que nem saberia por onde começar a fazer uma besteira!

​De repente, o telefone mudou de mãos. A voz de Juliana veio firme, com aquele tom acolhedor de quem assume o controle do caos:

​— Richard, escuta a minha voz. Calma. Nós estamos indo para aí agora.

​Senti um nó na garganta.

​— Vocês... vocês vão vir?

​— Claro que vamos, seu bobo.

​— Mas... agora? Na madrugada?

​— Richard — Juliana fez uma pausa, e sua voz vacilou por um segundo com a gravidade da situação, transbordando empatia. — Você acabou de descobrir que é pai. Você realmente achou que a gente ia deixar você sozinho nessa? Aguenta firme. Dez minutos.

​Ela desligou. Olhei para a tela escura do celular e depois para Sofie, que agora me encarava com os olhinhos muito abertos e marejados.

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