Mundo de ficçãoIniciar sessão
O sol ainda nem havia rompido completamente o horizonte quando eu me levantei. O frio da manhã entrou pelas frestas da janela como um aviso silencioso de que o dia começava, queira eu ou não. Meus pés tocaram o chão de madeira, e por um instante fiquei parada, respirando fundo, tentando reunir forças para mais um dia na fazenda… sem ele.
Dois meses. Apenas dois meses desde que meu pai se foi, e ainda assim parecia que o tempo havia parado naquela manhã em que tudo desmoronou. Vesti minhas botas gastas — as mesmas que ele havia consertado tantas vezes — e caminhei para fora. O cheiro da terra úmida me envolveu imediatamente. Era um cheiro familiar, quase reconfortante, mas também cruel. Tudo ali carregava a presença dele. Os galinheiros foram meu primeiro destino. Abri a porta de madeira com cuidado, e as galinhas começaram a se agitar, cacarejando como sempre. Peguei o balde de ração e espalhei no chão, observando os movimentos apressados delas. Meu pai costumava dizer que galinhas reconheciam quem cuidava delas de verdade. — Elas sabem quando é você — ele dizia, sorrindo. Engoli em seco. Minha garganta ardia, mas continuei. Segui para o estábulo. As vacas me olharam com aqueles olhos calmos e profundos, como se entendessem mais do que deveriam. Passei a mão pelo lombo de uma delas, sentindo o calor do corpo, o movimento lento da respiração. Meu pai sempre conversava com os animais, como se fossem parte da família. Eu achava graça… agora, fazia o mesmo, sussurrando palavras que nem eu mesma sabia explicar. — Tá tudo bem… eu tô aqui — murmurei, mais para mim do que para elas. O som distante do vento passando entre as árvores trouxe outra lembrança. Ele me ensinando a consertar a cerca, segurando minha mão para mostrar como usar o alicate do jeito certo. “Firme, Molly. Mas com cuidado.” Olhei para a cerca agora, levemente torta em um dos lados, e prometi mentalmente que iria ajeitá-la mais tarde. Do jeito que ele faria. No celeiro, empilhei fardos de feno, o corpo trabalhando quase no automático. Cada músculo parecia lembrar da rotina melhor do que meu coração. Suor escorreu pela minha testa, misturando-se ao cansaço que não era só físico. Era um peso constante no peito, uma saudade que não dava trégua. A casa ao fundo da fazenda permanecia silenciosa demais. Nenhuma risada grave ecoando, nenhum assobio distraído enquanto ele passava de um cômodo a outro. Só o som dos meus próprios passos… e da ausência. Fiz tudo o que precisava ser feito naquela manhã. Cada tarefa concluída era uma pequena vitória, mas também um lembrete doloroso: agora era só eu. Quando finalmente parei, apoiando as mãos nos joelhos e encarando o campo à minha frente, senti os olhos marejarem. O vento passou por mim, suave, quase como um toque. Por um segundo, fechei os olhos e imaginei que ele ainda estava ali, observando de longe, orgulhoso. — Eu tô tentando, pai — sussurrei. — Do jeito que você me ensinou. E mesmo com o coração em pedaços, continuei. Porque a fazenda não esperava, os animais não entendiam a dor… e porque era assim que ele teria feito. --- O passeio com meu cavalo sempre foi o único momento em que o mundo parecia silenciar um pouco. O som ritmado dos cascos contra a terra, o vento batendo no meu rosto, o cheiro do campo… por alguns minutos, eu conseguia respirar sem sentir o peso esmagador no peito. Meu pai costumava dizer que os cavalos sentem quando estamos quebrados por dentro. Talvez por isso ele estivesse tão calmo naquele dia, caminhando devagar, como se soubesse que eu não tinha forças para correr. Quando voltei, o sol já começava a descer, tingindo o céu de tons alaranjados. Levei meu cavalo até o estábulo, tirei a sela com cuidado e passei a mão por seu pescoço, num gesto quase automático. — Obrigada — murmurei, apoiando a testa nele por um instante. Foi então que ouvi vozes. Vinham da casa de máquinas. No começo, achei que fosse coisa da minha cabeça. A fazenda sempre fazia barulhos estranhos, rangidos, ecos. Mas conforme me aproximei, meu corpo inteiro entrou em alerta. Meu coração acelerou, não de medo… mas de um pressentimento ruim, pesado, quase sufocante. Empurrei a porta devagar. O mundo parou. Meu namorado estava lá. E com ele… minha irmã. Os dois se afastaram num movimento brusco quando me viram, como se só então lembrassem da realidade. Minha visão ficou turva, não sei se pelas lágrimas que surgiram de repente ou pelo choque violento que me atingiu. O ar faltou. Minhas pernas quase cederam. Eu não consegui dizer nada. Nenhuma palavra saiu da minha boca. O silêncio pesou mais do que qualquer grito. Foi ele quem falou primeiro. — Molly… — disse, passando a mão pelos cabelos, visivelmente irritado. Não envergonhado. Irritado. Como se eu estivesse no lugar errado. — Não começa — ele continuou, a voz dura. — Isso é culpa sua. Aquelas palavras me atingiram como um tapa. — Minha? — consegui dizer, num fio de voz. — Desde que seu pai morreu você não é mais a mesma — ele disparou, sem hesitar. — Você se fechou, vive nesse luto eterno, nessa fazenda… Eu não consigo mais viver assim com você. Cada frase era um golpe. Olhei para minha irmã, esperando qualquer sinal de arrependimento, culpa, dor. Mas ela evitava meu olhar, em silêncio, como se aquilo tudo fosse apenas um detalhe inconveniente. — Você devia encarar a realidade — ele continuou, dando alguns passos na minha direção. — Essa fazenda é grande demais pra você. Essas terras que seu pai deixou… você não vai dar conta sozinha. Meu coração doeu de um jeito diferente. Não era só traição. Era algo mais fundo. Mais cruel. — O melhor seria vender — ele disse, agora com um tom quase prático. — Pra mim e pra sua irmã. A gente sabe administrar isso. Você… não. As palavras ecoaram dentro de mim. Vender as terras do meu pai. O último pedaço dele que ainda existia. Senti algo se romper dentro do meu peito. Não foi só dor. Foi a quebra definitiva de algo que eu ainda tentava salvar. Ali, naquela casa de máquinas, cercada pelo cheiro de óleo e ferrugem, eu entendi que não tinha perdido apenas meu pai. Eu tinha perdido tudo. E, talvez pela primeira vez desde a morte dele, as lágrimas que caíram não foram apenas de tristeza… mas de uma raiva silenciosa, profunda, que queimava por dentro. Algo dentro de mim simplesmente parou de doer. Foi estranho perceber isso. Como se, depois de tantas perdas, meu coração tivesse finalmente atingido o limite — e, ao invés de se partir mais uma vez, tivesse endurecido. Meus olhos vagaram pela casa de máquinas quase por instinto. O cheiro metálico, o chão manchado de graxa, as ferramentas penduradas na parede… tudo aquilo fazia parte da fazenda. Da minha história. Da história do meu pai. E então eu vi a arma. Meu corpo se moveu antes que minha mente tivesse tempo de pensar. Minhas mãos a seguraram com firmeza, apesar do leve tremor nos dedos. O peso frio do metal parecia me ancorar na realidade. Quando levantei o braço e apontei para ele, o silêncio caiu pesado entre nós. — Molly, você enlouqueceu? — ele disse, dando um passo para trás. Eu não pisquei. — Não — respondi, a voz surpreendentemente firme. — Eu acordei. As palavras saíram de um lugar profundo, um lugar que a dor ainda não tinha conseguido destruir. — Eu prometi ao meu pai — continuei, sentindo o nó na garganta, mas sem recuar. — Prometi que construiria minha família aqui. No mesmo chão onde ele construiu a dele. Nesta terra. Minha mão apertou um pouco mais a arma. — Vocês não têm direito nenhum sobre isso — falei, olhando diretamente para ele… e depois para minha irmã. — Nada aqui pertence a vocês. O medo apareceu nos olhos dele então. Não era arrependimento. Era medo puro. Ele ergueu as mãos devagar, tentando parecer calmo. — Abaixa isso, Molly… vamos conversar. Soltei uma risada curta, amarga. — Conversar? — balancei a cabeça. — Vocês já falaram demais. Minha irmã estava pálida, os olhos arregalados, respirando rápido. Ela finalmente me olhou, e naquele olhar não havia amor. Havia pânico. — Vão embora — ordenei. — Agora. Ninguém discutiu. Ninguém tentou argumentar. Eles recuaram lentamente, cada passo cuidadoso, como se qualquer movimento brusco pudesse ser o último. Quando finalmente passaram pela porta, senti o ar voltar aos meus pulmões, como se eu tivesse estado submersa por tempo demais. Só abaixei a arma quando o silêncio voltou a tomar conta do lugar. Minhas pernas fraquejaram. Encostei-me na parede, fechando os olhos com força. O choro veio então — não alto, não descontrolado — mas pesado, profundo, carregado de tudo o que eu tinha engolido nos últimos dois meses. Meu pai se foi. Meu amor também. Mas aquela terra… aquela promessa… ainda eram meus. E ninguém mais pisaria nelas para me tomar isso.






