Capítulo 3

Quando cheguei à casa, o céu já começava a escurecer, tingido por tons de cinza e laranja. Meu corpo estava cansado, coberto de poeira, mas minha mente ainda girava em torno de tudo o que precisava ser feito.

Empurrei a porta… e congelei.

Ele estava lá.

Meu ex.

Parado no meio da sala, como se ainda tivesse algum direito sobre aquele lugar. O mesmo lugar onde tantas vezes ele havia sido recebido pelo meu pai. Meu estômago se revirou.

— O que você está fazendo aqui? — perguntei, a voz dura.

Ele se virou devagar, com aquele sorriso que eu conhecia bem. O sorriso de quem achava que sempre teria vantagem.

— Vim te fazer uma proposta — disse. — Uma proposta boa. Você vende a fazenda pra mim. Simples assim.

Senti o sangue ferver.

— Eu já disse que não vou vender — respondi, sem hesitar. — Quantas vezes você precisa ouvir isso?

Ele deu alguns passos na minha direção.

— Você não sabe o que está recusando, Molly — falou, impaciente. — Essa terra é grande demais pra você. Você não vai aguentar sozinha.

— Eu não preciso de você — retruquei. — Nem agora. Nem nunca.

Foi então que tudo aconteceu rápido demais.

O sorriso desapareceu do rosto dele. Num segundo, a raiva tomou lugar da falsa calma. Senti a mão dele se fechar ao redor do meu pescoço, me empurrando para trás com força.

O ar sumiu.

Meu corpo reagiu em pânico. Tentei empurrá-lo, minhas mãos batendo contra o peito dele, mas a força não era suficiente. Minha visão começou a embaçar, um zumbido alto tomou conta dos meus ouvidos.

— Você vai me ouvir — ele rosnou.

O medo me atravessou inteira. Pensei no meu pai. Pensei que não podia terminar assim.

Então ouvi um impacto seco.

De repente, a pressão sumiu. Caí de joelhos, puxando o ar com dificuldade, a garganta ardendo como fogo. Olhei para cima, ainda tonta, e vi Thomas.

Ele havia arrancado meu ex de cima de mim e o empurrado para longe com violência. Sem dizer uma palavra, fechou a mão e acertou um soco direto no rosto dele.

— Sai da minha frente — Thomas disse, a voz baixa, perigosa.

Meu ex cambaleou para trás, chocado.

— Some daqui — continuou Thomas, avançando um passo. — E não volte nunca mais.

Havia algo no olhar dele que não deixava espaço para discussão. Meu ex hesitou por um segundo… e então recuou, tropeçando até a porta antes de desaparecer para fora da casa.

O silêncio que ficou era pesado.

Thomas se virou para mim imediatamente.

— Molly… — disse, ajoelhando ao meu lado. — Você está bem?

Minha garganta ainda queimava, meu corpo tremia inteiro. Balancei a cabeça devagar, tentando recuperar o controle da respiração.

Eu estava viva.

E, pela primeira vez naquele dia, não estava sozinha.

— Eu… eu tô bem — murmurei, soltando um suspiro longo, pesado. Mais para convencer a mim mesma do que a ele.

Thomas ainda me observava com atenção, como se esperasse qualquer sinal de que eu pudesse cair de novo. Afastei-me devagar, as pernas um pouco fracas, e caminhei até a caixa de correio encostada perto da porta. Apoiei a mão nela para me equilibrar.

Foi quando tudo aconteceu de uma vez.

A caixa cedeu com um rangido baixo, e um monte de envelopes caiu no chão, espalhando-se aos meus pés como folhas secas. Papel branco, timbres elegantes, letras formais demais para aquele lugar simples.

Thomas se abaixou primeiro, juntando algumas cartas.

— São propostas — disse, franzindo a testa enquanto lia rapidamente os cabeçalhos. — Propostas de compra da fazenda.

Meu peito apertou.

Ele me olhou então, curioso, mas não acusador.

— Por que você não dá uma olhada? — perguntou. — E se alguma for boa?

Aquelas palavras tocaram num ponto sensível. Algo antigo. Algo que todos pareciam achar que tinham o direito de sugerir.

Caminhei até ele, senti o papel frio nas mãos quando tomei as cartas de volta. Por um segundo, encarei os envelopes. Meu nome ali, impresso, como se fosse apenas mais um item negociável.

Então fui até o lixo.

Sem hesitar, joguei todas dentro.

— Eu não vou vender — disse, a voz firme, definitiva. — Essa fazenda é do meu pai.

Thomas ficou em silêncio atrás de mim.

— Foi aqui que ele construiu a vida dele — continuei, sentindo a garganta apertar, mas sem permitir que a voz falhasse. — Foi aqui que ele me criou. Cada pedaço dessa terra tem a história dele… a nossa história.

Virei-me para encará-lo.

— Eu não vou vender. Nunca.

As palavras não eram apenas uma resposta. Eram um juramento.

O vento entrou pela porta aberta, fazendo o lixo se mexer levemente, como se o próprio lugar confirmasse minha decisão. Thomas me observava com um olhar diferente agora. Menos desafio. Mais respeito.

E ali, em meio a cartas descartadas e promessas silenciosas, eu soube:

ninguém arrancaria aquela terra de mim.

Não enquanto eu estivesse de pé.

Thomas ficou parado por alguns segundos, como se ainda estivesse processando o que tinha acontecido. Então falou, a voz mais baixa do que antes:

— Quem era aquele homem?

Soltei o ar devagar, sentindo o peso da pergunta.

— Era meu namorado — respondi. — Ou… ex. — Corrigi, com um gosto amargo na boca. — O mesmo que eu peguei hoje de manhã com a minha irmã, na casa de máquinas.

As palavras saíram duras, mas cansadas. Como se eu já não tivesse mais energia para sentir vergonha ou surpresa.

Passei a mão pelo rosto e suspirei.

Thomas não disse nada.

O silêncio dele não era incômodo. Não era julgamento. Era um silêncio denso, respeitoso, quase protetor. Ele apenas assentiu de leve, como se entendesse mais do que eu tinha dito em voz alta.

— Você pode ficar com o quarto ao lado do meu — falei então, quebrando o silêncio. — Não é muito grande… mas acho que é confortável o suficiente.

Eu não olhei para ele quando disse isso. Aquilo não era um convite íntimo. Era apenas… prático. Necessário.

— Qualquer coisa já está bom pra mim — ele respondeu.

Levantei o olhar para o céu. As nuvens escuras se acumulavam no horizonte, pesadas, carregadas. O ar tinha mudado. O vento soprava diferente.

— Melhor você ir tomar um banho agora — avisei. — Parece que uma tempestade está chegando. Quando chove forte por aqui, a água quente acaba rápido.

Voltei os olhos para ele e reparei de novo no corte na testa, ainda avermelhado.

— Depois eu cuido disso — acrescentei. — Do machucado.

Thomas tocou de leve a própria testa, como se só então lembrasse.

— Obrigado — disse simplesmente.

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