Capítulo 5

Acordei com o som distante de galos cantando e o cheiro de terra molhada entrando pela janela entreaberta.

A tempestade tinha passado.

Fiquei alguns segundos deitada, encarando o teto, tentando organizar os pensamentos. Por um instante, quase consegui fingir que o dia anterior tinha sido apenas um sonho ruim.

Mas não era.

Levantei, vesti uma camisa larga e prendi o cabelo de qualquer jeito. A rotina sempre me ajudava a colocar a mente no lugar. Café forte, pão na chapa, silêncio da manhã.

Abri a porta do quarto e caminhei pelo corredor ainda um pouco escuro. Quando me aproximei da cozinha… congelei.

O cheiro de café já estava no ar.

E não era fraco.

Era fresco. Forte. Recém-passado.

Entrei na cozinha devagar e o encontrei ali.

Thomas estava de pé diante do fogão, usando a mesma calça de moletom, mas agora com uma camiseta simples branca. O cabelo ainda estava levemente bagunçado do sono. A luz da manhã entrava pela janela e iluminava metade do rosto dele.

Ele segurava uma frigideira com naturalidade.

— Bom dia — disse, como se aquilo fosse absolutamente normal.

Pis­quei algumas vezes.

— Você… já acordou?

Ele olhou para mim com um leve sorriso de canto.

— Faz tempo.

Me aproximei da mesa e vi duas xícaras já prontas. Pão cortado. Ovos mexidos. Até a manteiga estava separada.

Cruzei os braços, tentando não parecer tão surpresa quanto estava.

— Não sabia que homem da cidade grande sabia usar fogão à lenha.

Ele soltou um pequeno riso nasal.

— Eu disse que você me subestimava.

Olhei em volta da cozinha. Nada queimado. Nada fora do lugar. Ele tinha até limpado o que usou.

— Acordei cedo — continuou. — Pensei que você teria trabalho suficiente hoje com a cerca e as vacas.

Aquilo me pegou desprevenida.

Não era obrigação dele.

Não era papel dele.

Mas ali estava.

— E o café? — perguntei, pegando a xícara.

— Forte. Do jeito que você parece precisar.

Ergui a sobrancelha.

— Você mal me conhece.

Ele me encarou por um segundo a mais do que o necessário.

— Eu observo.

Meu coração fez aquele movimento estranho outra vez.

Sentei-me à mesa e levei a xícara aos lábios. Estava perfeito. Forte, quente, real.

Lá fora, o campo ainda estava úmido da chuva. O dia prometia ser longo. Difícil.

Mas enquanto eu observava Thomas se movimentando pela minha cozinha como se aquele espaço não fosse estranho para ele… algo dentro de mim relaxou.

Talvez ele não fosse apenas o homem que queria mexer na documentação das minhas terras.

Talvez ele estivesse disposto a sujar as mãos também.

E isso… mudava um pouco as coisas.

Sentamos à mesa em um silêncio confortável, quebrado apenas pelo som dos talheres e pelo canto distante dos pássaros voltando à rotina depois da tempestade.

Observei Thomas por cima da xícara de café. Ele parecia diferente à luz do dia. Menos misterioso… mas não menos intenso.

— Então — comecei, apoiando os cotovelos na mesa — o que exatamente você faz na cidade?

Ele limpou as mãos em um guardanapo antes de responder, como se organizasse os pensamentos.

— Sou CEO de uma empresa que trabalha com imóveis.

Ergui as sobrancelhas levemente.

— Imóveis?

— Desenvolvimento, aquisição, expansão. Compramos terrenos, reestruturamos áreas, construímos, revendemos. — Ele disse tudo isso com naturalidade, como se fosse tão simples quanto alimentar galinhas.

Assenti devagar.

— Deve ser uma correria.

Ele inclinou a cabeça, quase sorrindo.

— É. Reuniões o dia inteiro, decisões rápidas, gente dependendo de você para tudo.

Bebi mais um gole do café.

— Parece cansativo.

— Como eu já disse — ele continuou — eu morei em fazenda. Sei que aqui também é correria.

Olhei para ele com certo ceticismo.

— Você não faz ideia.

Ele apoiou os antebraços na mesa.

— Acordar antes do sol, lidar com clima, com pragas, com cerca quebrada… — seus olhos encontraram os meus de propósito — com vacas fugindo.

Não consegui evitar um pequeno sorriso.

— Mesmo assim — ele concluiu — eu gosto da vida agitada.

— Da pressão? — provoquei.

— Do movimento. Do desafio. De construir algo grande.

As palavras ficaram no ar por um segundo a mais.

Construir algo grande.

Meu pai costumava dizer algo parecido.

Observei Thomas com mais atenção agora. Ele não falava como alguém que apenas queria comprar terra. Falava como alguém que queria transformar.

E isso podia ser perigoso.

— E você? — ele perguntou. — Sempre quis ficar aqui?

A pergunta me atingiu de leve, mas não doeu.

— Nunca quis sair — respondi. — Aqui é… casa.

Ele assentiu, respeitando a resposta.

Lá fora, o sol começava a secar o chão molhado. O dia chamava.

Enquanto ele falava sobre construir, expandir, transformar… algo acendeu dentro de mim.

Um alerta.

CEO.

Empresa imobiliária.

Aquisição de terrenos.

Meu estômago se contraiu devagar.

Coloquei a xícara sobre a mesa com cuidado demais.

— Você não está aqui como os outros, está?

Ele franziu levemente a testa.

— Como assim?

— Para comprar minha fazenda.

A pergunta ficou suspensa entre nós.

Por um segundo — apenas um segundo — Thomas hesitou.

Foi quase imperceptível. Um leve enrijecer do maxilar. Um silêncio que se alongou demais. Ele desviou o olhar para a janela antes de responder.

— Você pode ficar tranquila quanto a isso.

Mas ele não olhou nos meus olhos quando disse.

E aquilo falou mais alto do que qualquer explicação.

Meu coração acelerou, não de medo… mas de instinto. Eu tinha passado os últimos dois meses aprendendo a ler sinais. A sobreviver.

— Tranquila? — repeti, tentando decifrar o tom dele.

Ele finalmente voltou o olhar para mim. Firme. Controlado.

— Eu não estou aqui para tomar nada de você.

Não era exatamente uma resposta. Era uma promessa… ou algo que soava como uma.

A apreensão ainda apertava meu peito. Eu queria acreditar. Parte de mim queria muito acreditar.

Mas confiança não nasce em um dia.

Empurrei a cadeira para trás e me levantei.

— Está na hora do trabalho — anunciei, firme.

Se ele queria provar qualquer coisa, não seria com palavras.

Peguei meu chapéu sobre a bancada e caminhei em direção à porta.

— A cerca não vai se reconstruir sozinha.

Abri a porta e o ar fresco da manhã invadiu a cozinha.

Atrás de mim, ouvi o som da cadeira dele se movendo.

Se Thomas Whitmore estava ali para o bem ou para o mal…

eu descobriria.

Mas faria isso do meu jeito.

No meu território.

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