Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu precisava sair dali.
O ar da fazenda parecia pesado demais, carregado de tudo o que tinha acontecido. Montei no meu cavalo quase sem pensar, puxando as rédeas com mais força do que o necessário. O corpo dele respondeu de imediato, seguindo pela estrada de terra na direção da casa de campo. O vento batia no meu rosto, misturando-se às lágrimas que eu ainda não tinha deixado cair. Meu coração estava acelerado, não só pelo que tinha acontecido, mas pela sensação de ruptura. Como se, a cada passo do cavalo, eu estivesse deixando uma versão antiga de mim para trás. Foi então que tudo aconteceu rápido demais. Um carro surgiu de repente na estrada, vindo em alta velocidade. O motorista parecia distraído, olhando para baixo por um segundo longo demais. Vi os faróis se aproximarem, senti o pânico atravessar meu corpo como um choque. — Ei! — gritei, puxando as rédeas bruscamente. O carro desviou no último instante, passando perigosamente perto de mim. Meu cavalo relinchou assustado, empinando levemente. O som de metal batendo contra madeira ecoou logo em seguida. A cerca. Meu coração afundou no peito quando vi o carro atingir a lateral da fazenda. As tábuas cederam com um estalo seco, e num piscar de olhos, as vacas começaram a correr, espalhando-se pelo campo aberto. — Não… não, não! — desci do cavalo num salto, sentindo a raiva subir como fogo pelas veias. Aquilo já era demais. Amarrei o cavalo às pressas e fui até o carro, cada passo carregado de indignação. Abri a porta do motorista sem qualquer delicadeza. — Você ficou maluco?! — minha voz saiu mais alta do que eu pretendia. Foi então que eu o vi. Ele estava inclinado para frente, uma das mãos apoiada no volante, a outra pressionando a testa. Um filete de sangue escorria pela pele, contrastando com o tom claro. Quando levantou o rosto para me encarar, o tempo pareceu desacelerar. Ele era… lindo. Não de um jeito óbvio ou ensaiado. Era uma beleza forte, crua. O maxilar bem marcado, coberto por uma barba rala que parecia ter crescido sem esforço. Os lábios firmes, agora levemente entreabertos pela respiração pesada. O nariz reto, com um pequeno sinal de que já tinha sido quebrado alguma vez — o tipo de detalhe que só tornava tudo mais interessante. Mas foram os olhos que me prenderam. Escuros. Intensos. Atentos demais para alguém que acabara de causar um caos. Havia neles algo calculado, profundo… como se ele estivesse acostumado a observar o mundo de cima, mesmo quando tudo saía do controle. O sangue na testa descia devagar, e ainda assim ele mantinha uma postura estranhamente composta. Usava uma camisa social de tecido caro, agora levemente amassada, as mangas dobradas de forma displicente, como alguém que não pertencia àquele cenário rural — e, ainda assim, ocupava espaço demais ali. Por um segundo, minha raiva vacilou. Não desapareceu. Mas se misturou a algo inesperado. Ele me encarou em silêncio, e naquele olhar havia choque… e curiosidade. — Quem é você? — perguntei, a voz carregada de irritação. — E por acaso não sabe ler? Aqui não é lugar pra sair dirigindo desse jeito. Ele ficou em silêncio por um instante, como se estivesse avaliando a situação. Então abriu a porta do carro e saiu com calma demais para alguém que acabara de destruir uma cerca. Era ainda mais alto fora do veículo. O sangue na testa já tinha secado um pouco, mas o corte continuava visível. Ele olhou em volta devagar, analisando o campo aberto, a cerca quebrada, as marcas dos pneus na terra… e só então voltou os olhos para mim. — Eu não vi placa nenhuma — respondeu, a voz grave, controlada. Cruzei os braços, sentindo a raiva ferver. — Não precisa de placa pra ter bom senso — rebati. — Você acabou de soltar todas as minhas vacas. Apontei para o campo, onde elas ainda se espalhavam ao longe. — Então agora você vai me ajudar a refazer essa cerca — continuei, sem dar espaço para resposta. — E se não quiser ajudar a procurar as vacas, vai ter que comprar outras pra mim. Ele ergueu uma sobrancelha, claramente incomodado. — Não foi pra isso que eu vim aqui — disse, seco. Soltei uma risada incrédula. — Então veio pra quê? — questionei, dando um passo à frente. — Porque até agora só causou prejuízo. Ele passou a mão pelo rosto, respirando fundo, como alguém que não estava acostumado a ser confrontado. O suspiro que escapou carregava impaciência… e algo mais, talvez surpresa. — Meu nome é Thomas Whitmore — disse enfim. — E eu sou um homem importante na cidade grande. O jeito como falou aquilo não era arrogante, mas carregava certeza. Como se o mundo normalmente abrisse espaço quando ele se apresentava. Eu mantive o olhar firme. — Isso não responde minha pergunta. Ele me encarou por alguns segundos antes de continuar. — Estou aqui porque preciso resolver a documentação das suas terras — explicou. — As terras que pertenciam ao seu pai. Meu estômago se contraiu imediatamente ao ouvir aquilo. — Resolver como? — perguntei, desconfiada. — Negócios — respondeu simplesmente. — Papéis. Assuntos pendentes. E, gostando ou não, você agora faz parte disso. O vento passou entre nós, levantando poeira e fazendo meu cavalo relinchar ao fundo. Apertei os dedos ao redor das rédeas que ainda segurava. — Essas terras não estão à venda — falei, sem hesitar. — E ninguém mexe nelas sem falar comigo. Thomas inclinou levemente a cabeça, como se aquela resposta o interessasse mais do que esperava. — Veremos — disse. Naquele instante, eu tive certeza de uma coisa: ele não estava ali por acaso. E aquela conversa… estava longe de acabar. Mordi o lábio inferior, sentindo a mistura de raiva, cansaço e urgência pulsar dentro de mim. Olhei de novo para o campo aberto, para as vacas espalhadas, para a cerca destruída. Aquilo era real demais para perder tempo com discussões. — A gente pode conversar sobre isso depois — falei, controlando a voz. — Agora eu tenho coisas mais sérias pra resolver. Ele acompanhou meu olhar até o estrago que o carro tinha causado. Por um segundo, pareceu entender. Mas, como se nada pudesse ser simples com aquele homem, ele falou: — Eu vou passar alguns dias aqui na fazenda. Voltei os olhos para ele imediatamente. — Como é? — Preciso ficar por perto pra resolver toda a documentação — continuou, como se estivesse falando do clima. — Então você vai ter que providenciar um lugar pra eu dormir. A audácia daquilo me pegou desprevenida. E então eu ri. Não foi uma risada suave ou gentil. Foi curta, irônica, quase incrédula. — Você é mesmo um homem da cidade grande — falei, balançando a cabeça. — Deve estar achando que eu sou sua empregada. Ele me encarou, surpreso. — Aqui não funciona assim — continuei. — Eu até deixo um quarto pra você dormir, porque essa é a minha casa e eu não sou desumana. Mas não espere conforto de hotel cinco estrelas. Nada de frescura. Nada de ser mimadinho. Cruzei os braços, desafiadora. — Isso aqui é fazenda. Thomas estreitou levemente os olhos, e um canto da boca se ergueu num quase sorriso. — Você está me subestimando — disse. — Estou? — provoquei. — Cresci em uma fazenda — respondeu, com calma. — Sei exatamente como as coisas funcionam aqui. Aquilo me pegou de surpresa. Não demonstrei, mas senti o impacto. — E em troca — ele continuou — eu ajudo a refazer a cerca. E a procurar as vacas. O vento passou entre nós outra vez, carregando poeira e silêncio. Observei seu rosto por alguns segundos, tentando decidir se aquilo era mais um jogo… ou a primeira atitude sensata desde que ele tinha aparecido. — Veremos se você aguenta — murmurei por fim. Virei-me em direção ao campo, já começando a andar. — Se quiser provar que não é só conversa, pode começar agora. Porque, gostando ou não, Thomas Whitmore tinha acabado de se enfiar no meu mundo. E aquela fazenda… não perdoava quem fingia ser algo que não era.






