CAPÍTULO 5 - LENA

O silêncio dentro do carro deveria ser desconfortável.

Mas não é.

A cidade passa pela janela enquanto mantenho os olhos presos nas luzes espalhadas pelas avenidas. Tento prestar atenção nas ruas, nos prédios, nos semáforos fechando e abrindo à nossa frente, em qualquer coisa que impeça minha cabeça de pensar demais no homem sentado ao meu lado.

O problema é que pensar nele parece inevitável.

Dave dirige com uma das mãos apoiadas no volante, a expressão séria iluminada de tempos em tempos pelas luzes da rua. Continua fechado e duro demais, como alguém acostumado a manter distância de tudo e todos.

Ainda assim, ele me salvou, de certa forma.

Aperto os dedos da mão boa contra o tecido da calça enquanto observo o movimento da cidade pela janela. Estou nervosa desde o instante em que aceitei entrar nesse carro e passei o endereço, porque sei que não deveria confiar em estranhos.

Principalmente em homens.

A voz do meu ex-marido surge na memória tão clara que meu estômago revira imediatamente.

Você acredita em qualquer um porque é fraca.

Fecho os olhos por um segundo.

A lembrança vem acompanhada daquela sensação horrível de culpa e medo que nunca desaparece completamente. Passei anos ouvindo promessas falsas, desculpas vazias e palavras gentis que sempre vinham antes de alguma coisa pior.

Aprendi da pior forma possível que pessoas podem parecer seguras no começo, mas Dave definitivamente não parece seguro, mas cá estou eu, dentro do seu carro. Tremo por inteira, perguntando-me o que me deu para aceitar. Contudo, aceitar sua carona me pareceu mais seguro que pedir um táxi tão tarde.

Porque, apesar da brutalidade escondida em cada palavra, não senti nenhuma ameaça vinda dele. Essa percepção me deixa ainda mais confusa. Não sou uma leitora de aura ou intenções, e o arrependimento amarga de imediato.

Burra. Tola. Inconsequente.

Desvio o olhar da janela quando pressinto Dave me observando.

— Está  planejando fugir com o carro em movimento?

A pergunta vem seca, quase irônica.

Meu rosto aquece.

— Eu não estou pensando nisso.

— Está sim.

A resposta me faz prender a respiração por um instante.

Ele sequer tira os olhos da rua enquanto fala, mas existe um leve tom de provocação escondido sob a voz grave.

Desvio os olhos para a própria mão enfaixada.

— Desculpa.

Dave solta um suspiro discreto.

— Você parece o tipo de pessoa que pede desculpas demais.

As palavras me pegam desprevenida; é como um tapa bem dado.

Levanto os olhos devagar na direção dele, porém ele continua prestando atenção no trânsito como se não tivesse acabado de dizer algo importante.

Meu peito aperta de leve. Nunca tinha pensado nisso antes.

Talvez porque passei anos tentando evitar conflitos, e aprendi que pedir desculpas diminuía discussões, evitava gritos e olhares agressivos. Mesmo quando a culpa não era minha. Essa percepção me entristece.

O silêncio volta logo depois, mas dessa vez ele parece diferente. É denso e sufocante. Odeio que ele tenha me lido tão bem, quando sequer consigo olhar a sua cara sem corar.

Cruzo os braços, tentando afastar o desconforto crescente dentro de mim.

— Você mora sozinha? — Dave pergunta alguns minutos depois.

Meu corpo tensiona. A reação é tão rápida que odeio perceber.

Dave nota. Claro que nota.

Os dedos dele apertam o volante antes da voz firme preencher o carro outra vez.

— Relaxa. Foi só uma pergunta.

Engulo em seco.

— Moro.

Ele apenas concorda com a cabeça, sem insistir. E isso, me tranquiliza mais do que qualquer explicação poderia.

A maioria das pessoas insiste e pergunta demais. Dave não parece ser desse tipo. Ele está respeitando meus limites.

Isso deveria me deixar confortável, no entanto eleva minha inquietação.

O carro vira na rua da minha casa alguns minutos depois, e meu coração acelera sem motivo claro quando reconheço as grades brancas da pequena varanda iluminada pela luz fraca do poste.

— É aqui — murmuro.

Dave estaciona devagar em frente ao portão, desligando o motor logo em seguida. O silêncio toma conta do carro de imediato.

Por alguns segundos, nenhum dos dois fala nada.

Seguro a alça da bolsa com força conforme olho para frente tentando ignorar a sensação estranha crescendo dentro do peito. Parte de mim quer sair rápido dali, entrar em casa e trancar a porta como sempre faço.

A outra parte... não sabe explicar o que quer.

Talvez seja porque faz muito tempo que ninguém demonstra preocupação comigo sem esperar algo em troca. Ou porque Dave, mesmo rude e fechado, não tentou ultrapassar nenhum limite. Provável que seja só eu, desesperada demais por qualquer sensação mínima de segurança.

A ideia me assusta. Porque confiar foi o que destruiu minha vida antes.

— Obrigada pela carona — digo baixo, finalmente criando coragem para olhar para ele.

Os olhos escuros encontram os meus.

— Não foi nada.

A resposta vem simples, sem arrogância ou frieza dessa vez, e isso piora tudo.

Porque homens como esse sempre me assustaram mais, eles sabiam esconder melhor.

Desvio o olhar e destravo a porta antes que minha cabeça comece a entrar em pânico outra vez.

— Boa noite, Dave.

Ele demora um segundo antes de responder.

— Boa noite, Lena.

Meu nome saindo da boca dele causa uma sensação estranha dentro de mim.

Saio do carro, quase desesperada por espaço. O vento frio da noite b**e contra meu rosto assim que fecho a porta. Dou alguns passos até o portão da casa, mas paro antes de entrar.

Porque sinto os olhos dele em mim.

Viro o rosto devagar.

Dave continua dentro do carro, me observando através da janela aberta. A expressão séria permanece igual, impossível de decifrar.

Então ele faz um gesto curto com a cabeça, se despedindo, antes de ligar o carro novamente e ir embora. Fico parada na calçada observando as luzes vermelhas desaparecerem no fim da rua enquanto uma sensação estranha cresce lentamente dentro do peito.

O medo me move, enchendo meu peito com ansiedade. Mas além dele, há uma vontade absurda de continuar olhando mesmo depois que o carro já desapareceu.

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