CAPÍTULO 3 - LENA

A cozinha inteira cheira a alho queimado quando percebo que estraguei o jantar pela terceira vez.

Solto um suspiro cansado e desligo o fogo antes que a fumaça aumente mais. Faz quase uma semana desde que cheguei à cidade, e ainda me sinto uma visitante, uma espectadora da própria vida. Tudo parece estranho; os horários, o silêncio da casa, o mercado da esquina, as ruas que continuo confundindo mesmo depois de passar por elas várias vezes.

Até cozinhar virou algo difícil, talvez porque minha cabeça nunca esteja realmente presente.

Apoio as mãos na bancada pequena da cozinha e fecho os olhos por alguns segundos, tentando afastar a ansiedade que cresce sem motivo claro. Os últimos dias têm sido melhores do que os anteriores, mas ainda existem momentos em que meu corpo entra em alerta sem explicação alguma.

Como agora.

O simples som de chuva batendo contra as janelas já é suficiente para deixar meu peito apertado.

Abro a geladeira novamente procurando alguma coisa que consiga preparar sem destruir. Acabo escolhendo legumes, porque parecem simples o bastante até para alguém distraída como eu.

Pego a faca e começo a cortar cenouras devagar, concentrando atenção demais nos movimentos para evitar acidentes. O barulho da lâmina contra a madeira ecoa pela cozinha silenciosa enquanto tento ocupar a mente com algo banal.

Funciona por alguns minutos, até minha cabeça começar a lembrar coisas que eu preferia esquecer.

A última vez que cozinhei naquela outra casa. O prato quebrando contra a parede, a voz alterada, o medo absurdo de errar coisas pequenas.

Minha respiração falha de leve.

A faca escapa dos meus dedos no instante seguinte.

— Droga.

A dor vem atrasada, porém forte o suficiente para arrancar um som baixo da minha garganta. Levo alguns segundos olhando o corte profundo atravessando a lateral da mão antes de perceber o sangue começando a escorrer rápido demais pela pele.

Meu estômago embrulha imediatamente.

— Não, não, não...

Corro até a pia tentando conter o sangue com um pano qualquer, mas a visão do vermelho espalhado entre meus dedos faz minha ansiedade disparar na mesma hora. O ar parece insuficiente dentro da cozinha.

Calma. Respira. É só um corte.

Entretanto, meu corpo não escuta.

O coração acelera enquanto tento pressionar o pano contra a mão trêmula. A dor pulsa junto com o desespero crescente dentro do peito, e por alguns segundos fico parada no meio da cozinha sem conseguir pensar direito.

Preciso ir ao hospital.

A ideia surge acompanhada por outra pior ainda.

Sozinha.

O pensamento me faz querer desistir. Ainda odeio hospitais. Odeio cheiro de álcool, corredores claros e qualquer coisa que lembre perda. Mesmo depois de todo esse tempo, certos lugares continuam trazendo lembranças dolorosas demais. Mas o sangue continua escorrendo entre meus dedos, então não tenho escolha.

Quase vinte minutos depois, entro no hospital segurando a mão enrolada em gaze improvisada e tentando ignorar a tontura leve causada pela ansiedade. O lugar está movimentado, cheio de vozes misturadas, telefones tocando e passos ecoando pelos corredores claros.

Meu peito aperta no mesmo instante. Respiro fundo várias vezes enquanto caminho até a recepção, repetindo mentalmente que vai passar. Que estou bem. Que ninguém aqui vai me machucar.

É só um hospital.

Só alguns pontos provavelmente. Nada além disso.

Depois de fazer a ficha, sigo pelo corredor indicado pela enfermeira ainda pressionando a gaze contra a mão. Estou distraída demais tentando controlar a própria respiração quando viro a esquina rápido e acabo trombando contra alguém.

O impacto faz meu corpo perder equilíbrio por um segundo.

— Presta atenç...

A voz masculina para no meio da frase. Levanto o olhar e reconheço as íris escuras antes mesmo do restante. É o homem daquele dia, o que por pouco não foi responsável pelo meu ataque cardíaco ao quase me atropelar.

Por um instante, fico imóvel, e ele também.

A expressão séria surge no seu rosto assim que percebe quem está na frente dele. Está usando calça social escura e camisa preta com as mangas dobradas até os antebraços, como se tivesse saído direto do trabalho. Mesmo nesse corredor branco de hospital, continua intimidante demais.

O olhar dele desce para minha mão coberta de sangue e as sobrancelhas franzem.

— O que aconteceu?

A pergunta vem direta, sem suavidade alguma.

Seguro a gaze com força.

— Nada demais.

A resposta sai automática, embora seja mentira.

Os olhos escuros voltam para meu rosto como se estivesse avaliando a situação inteira em silêncio. Existe algo intenso na forma como me observa, como se enxergasse mais do que deveria.

— Isso está sangrando pra caralho.

Meu rosto esquenta.

— Foi só um corte.

— E você resolveu quase arrancar a mão fora?

O tom seco deveria me irritar, no entanto existe uma preocupação escondida no seu tom, discreta para combinar com a expressão fechada dele.

Desvio o olhar.

— Vou ficar bem.

Por alguns segundos, ele não responde. Apenas continua me encarando do jeito sério e difícil de interpretar. O corredor movimentado ao redor parece distante demais sob a intensidade daquele silêncio.

Então ele suspira impaciente.

— Tem alguém com você?

A pergunta me pega desprevenida. Balanço a cabeça negativamente antes de pensar.

A mandíbula dele trava por um instante.

— Certo.

Só isso. Como se não soubesse exatamente o que fazer com a informação.

Uma enfermeira aparece no corredor chamando meu nome e, antes que o silêncio fique mais estranho ainda, dou um pequeno passo para trás.

— Preciso ir.

Ele apenas concorda com a cabeça.

Mas, antes que eu consiga me afastar, a voz dele me alcança outra vez.

— Tenta prestar mais atenção na próxima vez.

O comentário vem rude, quase uma bronca.

Ainda assim, noto o modo discreto como os olhos dele verificam minha mão outra vez antes de sair. E, por algum motivo inexplicável, isso faz meu coração bater estranho dentro do peito.

Observo-o desaparecer pelo corredor do hospital sem olhar para trás.

Só quando some é que percebo uma coisa.

Pela primeira vez em muito tempo, um homem falou comigo de forma dura... e eu não senti medo.

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