O CEO QUE NÃO ME AMOU
O CEO QUE NÃO ME AMOU
Por: DC RIBEIRO
CAPÍTULO 1 - LENA

O ônibus para devagar na plataforma, e o solavanco leve faz meus olhos se abrirem depois de horas olhando a estrada sem realmente enxergar nada. Por alguns segundos, continuo sentada, tentando reunir coragem para levantar. A viagem inteira parece presa no meu corpo; costas doloridas, pernas pesadas, cabeça cansada demais para pensar direito.

Lá fora, a cidade pulsa através das janelas embaçadas.

As luzes dos comércios refletem no asfalto molhado pela chuva recente, carros passam apressados pela avenida em frente à rodoviária e pessoas caminham de um lado para outro como se soubessem exatamente para onde estão indo. É estranho observar aquilo sabendo que, pela primeira vez em muito tempo, ninguém faz ideia de quem sou.

Ninguém aqui conhece meu passado ou sequer meu nome.

Talvez seja melhor assim.

Seguro a barra do casaco entre os dedos enquanto o motorista anuncia o fim da viagem. O coração acelera na mesma hora, nervoso como sempre fica diante de mudanças. Tento controlar a respiração antes que o aperto no peito aumente, mas ansiedade nunca foi algo simples de esconder; ela cresce silenciosa, ocupando espaço dentro de mim até transformar coisas pequenas em enormes.

Levanto devagar e puxo a mala do compartimento acima do banco. Está mais pesada do que deveria, embora quase não haja nada ali dentro. Algumas roupas, documentos, remédios e poucas lembranças que não consegui abandonar para trás.

O resto da minha vida ficou na outra cidade.

Fecho os olhos por um instante ao pensar nisso.

A antiga casa; cada marca escondida sob mangas compridas e as noites dormindo com medo. E o piro... O quarto vazio que nunca consegui olhar depois da perda do bebê.

Minha garganta aperta imediatamente. Engulo em seco antes que as lembranças consigam me puxar para aquele lugar outra vez. Não posso fazer isso agora. Não depois de ter chegado tão longe.

Desço do ônibus junto com as outras pessoas, abraçando-me quando o vento frio da noite atinge meu rosto. A temperatura é mais baixa do que imaginei, mas talvez seja apenas o nervosismo transformando tudo em desconforto.

Paro perto da entrada da rodoviária e observo o movimento ao redor sem saber exatamente o que fazer. A cidade parece grande demais para alguém completamente sozinho. Há prédios modernos ao longe, cafeterias iluminadas, hotéis altos e ruas movimentadas mesmo naquele horário. Não é uma capital agitada, mas também não tem o ar acolhedor de cidade pequena.

Tudo parece desconhecido e inseguro.

Meu celular vibra entre os dedos quando desbloqueio a tela para conferir o endereço mais uma vez. Leio repetidamente como se as palavras pudessem diminuir o medo que cresce dentro do meu peito.

A verdade é que não sei o que estou fazendo aqui, só que precisava ir embora e respirar sem sentir temor o tempo todo.

Um táxi estaciona próximo da calçada, e o motorista abaixa o vidro perguntando se preciso de corrida. Concordo com a cabeça antes mesmo de pensar muito, porque ficar parada nesse lugar começa a me deixar ainda mais ansiosa.

Durante o trajeto, mantenho o rosto voltado para a janela.

A cidade vai mudando aos poucos conforme o carro avança. As avenidas mais movimentadas ficam para trás, dando espaço para ruas residenciais silenciosas e bairros tranquilos. Algumas casas possuem jardins bem cuidados; outras parecem vazias, iluminadas apenas pela luz fraca dos postes.

Meu estômago se revira conforme nos afastamos do centro. Talvez pelo medo do desconhecido, ou porque ainda não consigo acreditar que realmente fui embora.

Passo a mão discretamente sobre o pulso, quase sentindo os dedos apertados contra minha pele outra vez. A memória surge sem aviso; a voz agressiva, os objetos quebrando, o gosto metálico do sangue na boca depois de mais uma discussão.

Desvio o olhar da janela imediatamente.

Não quero lembrar.

Não hoje.

O carro desacelera alguns minutos depois, parando diante de uma casa pequena cercada por grades brancas. Meus olhos observam o lugar em silêncio enquanto tento ignorar o nervosismo crescente.

É simples. Pequena e discreta. Exatamente como o anúncio mostrava.

Pago a corrida com mãos trêmulas e espero o táxi desaparecer no fim da rua antes de pegar a mala novamente. O silêncio ao redor parece estranho depois de tantas horas ouvindo vozes, motores e barulho de estrada.

Dou alguns passos lentos até o portão.

A pintura branca está um pouco desgastada, e há flores secas espalhadas perto da varanda, como se ninguém cuidasse do jardim há algum tempo. Ainda assim, existe alguma coisa tranquila naquele lugar. Talvez porque ninguém esteja gritando. Talvez porque, pela primeira vez em anos, eu saiba que não há alguém me esperando do outro lado da porta com raiva nos olhos.

A ideia faz meu peito apertar de um jeito diferente.

Procuro a chave dentro da mochila enquanto tento controlar as emoções. O nervosismo atrapalha os movimentos, e demoro mais do que deveria para conseguir abrir a fechadura.

Quando a porta finalmente se abre, fico parada por alguns segundos sem entrar.

O cheiro de casa fechada invade o ar imediatamente; madeira antiga, poeira e silêncio.

Entro devagar, observando o espaço escuro à minha frente. Há poucos móveis; um sofá antigo encostado na parede, uma mesa pequena próxima da cozinha e cortinas claras cobrindo as janelas.

Nada sofisticado ou acolhedor, mas seguro.

Fecho a porta atrás de mim e apoio as costas nela por alguns instantes, apenas ouvindo a quietude da casa vazia. Meu coração continua acelerado, embora pela primeira vez isso não aconteça por medo de alguém.

Estou sozinha. A constatação deveria assustar mais do que realmente assusta.

Caminho lentamente pela sala, deixando a mala perto do sofá antes de olhar ao redor outra vez. Parece estranho pensar que aquele lugar agora pertence a mim, mesmo temporariamente. Estranho imaginar que posso dormir sem esperar gritos no meio da madrugada ou passos pesados atravessando o corredor.

Os olhos ardem antes mesmo que eu perceba. Passo a mão pelo rosto rapidamente, respirando fundo. Não quero chorar. Já chorei demais nos últimos anos.

Ainda assim, alguma coisa dentro de mim desmorona quando olho para aquela casa silenciosa e percebo que sobrevivi tempo suficiente para recomeçar.

Mesmo sem saber como.

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