Mundo de ficçãoIniciar sessãoO cheiro forte de cigarro se mistura com o ar frio da noite enquanto apoio as costas contra o carro estacionado em frente ao hospital.
A fumaça sobe diante dos meus olhos, desaparecendo no escuro da avenida movimentada. Observo as pessoas entrando e saindo pelas portas automáticas sem realmente prestar atenção em nenhuma delas.
Porque minha cabeça continua presa nela.
Na garota distraída que quase entrou na frente do meu carro dias atrás.
Na mesma garota que apareceu hoje naquele hospital com a mão sangrando e olhos cansados demais para alguém tão jovem.
Solto a fumaça devagar, irritado comigo mesmo.
Que porra eu tô fazendo aqui?
A pergunta se repete pela terceira vez na minha cabeça desde que saí do corredor e vim parar do lado de fora do hospital como um idiota esperando uma desconhecida.
Uma desconhecida. Porra. Nem o nome dela eu sei.
Ainda assim, continuo esperando.
Passo a mão pelo maxilar, impaciente, enquanto observo o relógio no pulso. Já faz quase quarenta minutos. Tempo suficiente para entrar no carro e ir embora. Tempo suficiente para perceber que isso não faz sentido nenhum.
Não é da minha conta. Nunca foi.
Porém existe alguma coisa naquela mulher que incomoda meus pensamentos de um jeito absurdo. Talvez porque ela pareça assustada pra caralho, isso nas duas ocasiões que trombamos. Ou porque aqueles olhos carreguem um tipo de cansaço que conheço bem demais. Mas quem sabe, seja porque a primeira reação dela tenha sido recuar como se esperasse violência.
A lembrança faz meu maxilar travar.
Jogo o cigarro no chão e piso nele logo em seguida. Não gosto da sensação que isso provoca. Não gosto de perceber coisas, muito menos de me importar com elas.
A vida inteira aprendi que sentimentos atrapalham. Complicam. Fazem pessoas perderem controle. E controle é a única coisa que nunca me permiti perder.
Ainda assim, continuo esperando.
Cacete.
Passo os dedos pelos cabelos curtos, soltando um suspiro irritado comigo mesmo antes de erguer os olhos para a entrada do hospital outra vez.
E então vejo ela saindo.
A garota caminha devagar pelos degraus da entrada, segurando uma pequena sacola de medicamentos na mão boa enquanto a outra permanece enfaixada. Parece distraída, provavelmente cansada, e continua com aquele jeito cauteloso de quem nunca consegue relaxar.
Meu olhar acompanha cada movimento seu antes mesmo que eu perceba. Ela para perto da calçada olhando em volta como se estivesse tentando decidir o que fazer agora. Provavelmente esperando um táxi.
Antes que consiga pensar melhor, minhas pernas já estão se movendo na direção dela.
Idiota.
Ela percebe minha aproximação quase de imediato. O corpo fica tenso no mesmo instante em que os olhos encontram os meus. A mulher hesita, porém não parece com medo.
Paro na frente dela mantendo certa distância.
— A mão caiu fora ou ainda conseguiram salvar?
A pergunta sai no meu tom habitual; seco, direto e sem muito esforço para soar simpático. Os olhos dela arregalam antes de surgir um quase sorriso contido no canto da boca.
Quase.
— Acho que salvaram.
A voz continua baixa, calma demais.
Observo a faixa envolvendo a mão pequena.
— Quantos pontos?
— Seis.
Faço um movimento curto com a cabeça em concordância antes que o silêncio se instale entre nós. Ela desvia o olhar para a rua por um instante, claramente sem saber o que fazer naquela conversa.
Pra ser sincero, eu também não.
Então por que caralho ainda tô aqui?
A pergunta volta forte na minha cabeça.
Porque isso não é normal.
Não espero por pessoas, nem acompanho desconhecidas até hospital. Não sou de oferecer ajuda, principalmente quando não preciso fazer nada disso. Ainda assim, continuo estagnado na frente dela.
Os olhos dela voltam para mim por alguns segundos, e noto outra vez aquela aparência cansada escondida atrás da expressão tranquila. Como se carregasse peso demais sozinha.
Meu peito se irrita com a própria sensação de incômodo.
Merda.
— Você mora longe daqui?
Ela hesita antes de responder.
— Algumas ruas.
Concordo devagar com a cabeça e tiro a chave do carro do bolso.
— Eu levo você.
A reação vem imediata.
Os ombros dela ficam travados, e o receio atravessa o rosto delicado antes que responda qualquer coisa, e os dedos apertam a sacola de remédios.
Claro.
Uma mulher sozinha não entraria no carro de um estranho facilmente. Ainda mais de um estranho com cara de poucos amigos.
Cruzo os braços conforme analiso o conflito silencioso passando pelos olhos dela.
— Não precisa parecer tão desesperada assim pra fugir de mim — comento, seco.
Ela pisca.
— Não é isso...
— Então entra no carro.
O tom firme sai automático.
Percebo isso no mesmo instante em que ela abaixa os olhos por um segundo, claramente afetada pela forma como falei. Não de um jeito ruim, mas cauteloso. Como se vozes firmes despertassem algum reflexo automático nela.
Minha expressão endurece involuntariamente. Suavizar nunca foi meu forte, então apenas abro a porta do passageiro.
— Está tarde, e você acabou de costurar a mão. Não vou sequestrar você.
O comentário arranca dela um pequeno sorriso nervoso.
É fraco, porém real, e isso me pega desprevenido por um segundo. Depois de alguns segundos, ela enfim concorda com a cabeça e entra no carro devagar.
Fecho a porta logo em seguida, contornando o veículo até o banco do motorista.
O silêncio dentro do carro começa quase imediatamente assim que dou partida no motor. Mas, diferente da maioria dos silêncios, esse não parece confortável nem desagradável. Só cuidadoso.
Ela mantém a bolsa apoiada no colo à medida que observa as ruas pela janela. Consigo perceber a tensão leve nos ombros mesmo sem olhar diretamente.
Aperto o volante entre os dedos antes de falar outra vez.
— Já que vou levar você viva pra casa, acho justo saber seu nome.
Os olhos dela se voltam para mim.
— Lena.
Lena.
O nome encaixa perfeitamente nela por algum motivo.
Concordo devagar com a cabeça.
— Dave.
Ela repete meu nome em voz baixa logo depois.
E, por alguma razão estranha, ouvi-lo sair da sua boca faz alguma coisa dentro do meu peito ficar perigosamente consciente.







