CAPÍTULO 2 - LENA

O sol atravessa as cortinas antes mesmo que consiga dormir de verdade.

Passo a maior parte da noite acordando assustada com qualquer barulho vindo da rua; um carro distante, passos na calçada, o vento batendo contra as grades do portão. Meu corpo ainda não entende que acabou. Ainda espera gritos atrás da porta, discussões atravessando corredores e aquela sensação constante de precisar se defender de alguma coisa.

Mas nada acontece.

Só existe silêncio. Um silêncio estranho, quase desconfortável, porque não estou acostumada com paz.

Permaneço deitada por alguns minutos encarando o teto simples do quarto vazio enquanto o peso da realidade cai lentamente sobre mim outra vez. A casa ainda é desconhecida. Cada parede, cada ruído e cada espaço carregam aquela sensação de não pertencimento.

Talvez isso leve tempo, ou talvez eu nunca me sinta pertencendo a lugar nenhum.

Fecho os olhos por um instante e respiro fundo antes de criar coragem para levantar. O chão frio arrepia meus pés assim que caminho até a pequena janela do quarto. Lá fora, a cidade parece completamente diferente da noite anterior.

Mais clara e viva.

As ruas estão movimentadas, pessoas caminham pelas calçadas com copos de café nas mãos, lojas começam a abrir e carros passam continuamente pela avenida principal logo depois da esquina.

Observo tudo em silêncio.

Existe alguma coisa bonita nesse lugar.

Uma normalidade simples que parece distante da vida que deixei para trás.

Depois de um banho rápido, visto uma calça jeans confortável e um casaco leve antes de prender o cabelo ainda úmido. A ideia de sair me deixa nervosa imediatamente, porém ficar trancada dentro dessa casa parece pior.

Preciso conhecer a cidade e aprender a viver nela. Mesmo que ainda sinta vontade de voltar correndo para dentro toda vez que penso em enfrentar pessoas desconhecidas.

Pego o celular, as chaves e algum dinheiro antes de sair. O vento da manhã é fresco, carregando cheiro de chuva recente e café vindo de alguma padaria próxima. Tranco o portão devagar enquanto observo a rua ao redor.

Tudo continua estranho, no entanto, não é assustador.

Caminho sem destino certo no início, apenas tentando memorizar os arredores. O bairro parece tranquilo; casas médias, pequenos jardins, árvores espalhadas pelas calçadas e algumas cafeterias ocupando esquinas movimentadas.

As pessoas não me encaram, e isso ajuda.

Ninguém percebe a ansiedade escondida nos meus movimentos cautelosos. Ninguém imagina quantas vezes precisei reaprender coisas simples, como sair sozinha ou andar sem medo de ouvir alguém gritando meu nome atrás de mim.

Conforme avanço pelas ruas, começo a notar o contraste entre as cidades. De um lado, prédios empresariais enormes refletem o sol nas fachadas espelhadas; do outro, lojas pequenas e mercados familiares deixam tudo mais acolhedor. Há movimento suficiente para parecer um lugar importante, mas ainda existe certa tranquilidade no ritmo dos habitantes.

Talvez eu consiga gostar daqui.

A ideia surge tímida, quase impossível.

Paro diante de uma cafeteria pequena na esquina depois de caminhar por quase vinte minutos. O cheiro de pão fresco atravessa a porta aberta, fazendo meu estômago lembrar que não como desde a noite anterior.

Entro devagar.

O ambiente é aconchegante; mesas de madeira clara, plantas próximas às janelas e música baixa preenchendo o silêncio confortável do lugar. Escolho uma mesa no canto, mais afastada, observando discretamente as pessoas ao redor enquanto espero o café.

Ninguém parece reparar em mim.

Pela primeira vez em anos, isso não dói.

Quando a bebida chega, seguro a xícara quente entre os dedos e permito que o calor alivie um pouco a tensão constante no meu corpo. Tento me concentrar no momento presente; no sabor forte do café, no som das conversas ao fundo, na luz atravessando as janelas.

Coisas normais e simples. Coisas que pareciam impossíveis há alguns meses.

Meu celular vibra sobre a mesa, fazendo meu coração disparar tão rápido que quase derrubo a xícara. O ar prende nos pulmões imediatamente.

Mas é apenas uma mensagem automática da operadora.

Ainda assim, minhas mãos tremem.

Fecho os olhos por alguns segundos, irritada comigo mesma. Odeio perceber como qualquer detalhe ainda me afeta. Odeio continuar vivendo em estado de alerta o tempo inteiro.

Talvez isso nunca vá embora.

Depois de terminar a bebida, volto para a rua tentando ignorar o cansaço mental que a ansiedade sempre deixa. O centro da cidade fica mais movimentado conforme o horário avança; pessoas atravessam avenidas apressadas, motos passam entre os carros e vitrines chamativas ocupam praticamente cada esquina.

Estou distraída observando um prédio enorme de vidro quando escuto uma buzina alta. Muito alta. E tudo acontece rápido demais.

Viro o rosto sem entender, e então vejo o carro surgindo perto demais. Preto, luxuoso e veloz. Meu corpo trava por um segundo antes de conseguir recuar bruscamente para trás. O pneu freia tão perto que o barulho atravessa meu peito como uma pancada.

O mundo inteiro parece parar. Meu coração dispara violentamente enquanto tento recuperar o ar.

A porta do carro se abre quase imediatamente.

— Você ficou maluca?

A voz masculina vem dura, irritada e firme o suficiente para me fazer congelar por instinto.

Levanto os olhos devagar.

O homem que sai do carro é alto, sério e intimidador de um jeito impossível de ignorar. A camisa social escura marcada nos braços fortes, o relógio caro no pulso e a expressão fechada fazem parecer que ele está constantemente irritado com o mundo.

Os olhos escuros me encaram com intensidade. São frios, controlados e atentos.

— Tem ideia da merda que quase aconteceu? — ele pergunta outra vez, passando a mão pelos cabelos escuros claramente irritado.

Abro a boca, mas nenhuma palavra sai. Meu corpo ainda está preso entre o susto e medo.

O tom agressivo da voz dele desperta memórias rápidas demais dentro da minha cabeça; gritos, discussões e aquela sensação horrível de precisar me encolher para evitar algo pior.

Dou um passo para trás sem perceber. O homem nota de imediato. A irritação na expressão dele diminui por um segundo, embora continue sério.

— Você está machucada?

A pergunta me surpreende.

Balanço a cabeça rapidamente.

— N-não.

Minha voz falha de leve, constrangida.

Os olhos escuros descem discretamente pelo meu corpo como se estivessem verificando se realmente estou inteira. Existe um traço controlador nesse homem; até irritado, ele parece calculado demais.

Isso deveria me tranquilizar, contudo só me deixa mais nervosa.

— Então presta atenção antes de atravessar a rua — ele diz, voltando ao tom frio de antes.

O comentário deveria soar apenas rude.

Mas existe alguma coisa na postura dele que intimida sem esforço. Talvez a forma firme como fala, ou o olhar intenso demais. Talvez a sensação estranha de que está acostumado a ser obedecido.

Seguro a bolsa com mais força contra o corpo.

— Desculpa...

As sobrancelhas dele franzem diante da minha voz baixa. Por alguns segundos, o silêncio pesa entre nós enquanto carros começam a buzinar atrás do veículo parado no meio da avenida.

Ele suspira, claramente irritado com a situação inteira, antes de fechar a porta novamente.

— Sai da rua.

A frase vem seca, sem delicadeza alguma.

Ainda assim, obedeço.

Me afasto para a calçada enquanto observo o homem voltar para o carro preto. Antes de entrar, porém, ele lança mais um olhar na minha direção. Como se estivesse tentando entender alguma coisa.

Logo depois, entra no veículo e vai embora sem dizer mais nada.

Permaneço parada na calçada por vários segundos, sentindo o coração bater forte demais dentro do peito.

Quase fui atropelada por um desconhecido arrogante.

Um desconhecido bonito e rude.

E, por algum motivo que não consigo explicar, a intensidade daquele olhar continua presa na minha cabeça muito depois que o carro desaparece no trânsito.

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