Mundo de ficçãoIniciar sessãoO mercado está mais cheio do que imaginei para uma terça-feira de manhã.
Pessoas passam apressadas pelos corredores com carrinhos lotados. Crianças correm perto das prateleiras e eu as observo por longos minutos, até perceber que essa atitude não é muito normal e seguir meu caminho.
O ambiente inteiro parece vivo demais, barulhento além dos meus limites, porém continuo caminhando devagar entre os corredores porque preciso me acostumar. Necessito aprender a existir no meio das pessoas outra vez sem sentir que estou prestes a desmoronar.
Seguro a cesta contra o corpo conforme observo os valores do café na prateleira. O dinheiro que trouxe comigo está acabando mais rápido do que gostaria, e a realidade começa a pesar de verdade pela primeira vez desde que cheguei à cidade. Não posso continuar vivendo dos poucos meses de reserva que consegui guardar escondido. Preciso trabalhar e ocupar a cabeça antes que ela me afunde de novo nas lembranças que tento evitar todos os dias.
Minha mão ainda dói levemente por causa dos pontos, então apoio a cesta no chão por alguns segundos enquanto respiro fundo. Desde o hospital, parte dos meus pensamentos insiste em voltar para Dave sem motivo algum. Todavia, não consigo esquecer a forma como ele esperou do lado de fora sem precisar.
A maneira rude como fala deveria ser um indicativo para que eu corra para o mais longe possível dele, mas não sei, há algo por trás daquelas íris frias que me chamou atenção. Fecho os olhos com força, irritada comigo mesma. Não deveria pensar nele ou sequer considerar a possibilidade de confiar em alguém outra vez.
Homens gentis assustam.
Homens intensos assustam mais ainda.
Pego a cesta novamente e sigo para os caixas tentando ignorar a confusão dentro da minha cabeça. Tenho que focar em coisas importantes agora; como o aluguel, contas e um emprego. Vida real. O resto não importa.
Escolho a fila mais vazia e começo a colocar os produtos sobre a esteira. A mulher do caixa parece cansada, mas simpática. Ela me cumprimenta com um sorriso automático enquanto passa os códigos dos produtos.
— Encontrou tudo o que precisava?
Concordo com a cabeça.
— Sim, obrigada.
Minha voz sai baixa como quase sempre acontece quando preciso falar com desconhecidos. Aperto os dedos contra a alça da bolsa à medida que observo os produtos sendo registrados. Preciso perguntar agora. Se esperar, é provável que vou perder coragem de novo.
Respiro fundo.
— Vocês estão contratando?
A mulher levanta os olhos na minha direção, e alguma coisa na expressão dela já me faz imaginar a resposta antes mesmo que venha.
— Aqui no mercado, não. Esses dias cortaram alguns funcionários.
Meu estômago afunda um pouco, embora eu tente não demonstrar.
— Ah... certo.
Ela parece perceber a decepção no meu rosto porque apoia os braços no caixa logo em seguida.
— Mas olha, entra no site da cidade. Sempre colocam uma lista de empresas que estão contratando. Essa região cresceu muito nos últimos anos, então vive aparecendo vaga.
Meu coração dispara pela emoção.
— Sério?
— Uhum. Escritório, cafeteria, hotel, loja... sempre tem alguma coisa.
Uma esperança pequena surge dentro do peito, tímida, cuidadosa demais para existir. Faz tempo que não sinto isso.
— Obrigada. Ajudou muito.
Ela sorri enquanto termina de guardar minhas compras na sacola.
— Você é nova aqui, né?
A pergunta me pega desprevenida.
— Dá pra perceber?
— Um pouco. Quem mora aqui já chega reclamando do preço das coisas antes mesmo de entrar no mercado.
Acabo soltando uma risada fraca junto com ela, e a sensação é tão estranha que quase me emociona. Conversas simples nunca significaram muito para mim antes. Agora parecem pedaços pequenos de uma existência que estou tentando me encaixar.
Pago as compras e agradeço novamente antes de sair do mercado. O vento fresco b**e contra meu rosto assim que atravesso as portas automáticas, e caminho devagar pela calçada segurando as sacolas com cuidado por causa da mão machucada.
Meu celular vibra dentro da bolsa no meio do caminho e meus batimentos aceleram. A respiração falha por um segundo e puxo o aparelho, sentindo o peito apertar sob o medo automático que continua vivendo dentro de mim.
E se ele me encontrou? E se descobriu onde estou?
Mas não é nada. Só uma notificação idiota de propaganda.
O ar sai devagar dos meus pulmões enquanto fecho os olhos por um instante, tentando controlar a ansiedade antes que ela cresça mais. Ainda odeio perceber como meu corpo reage a qualquer coisa inesperada. Como se uma parte de mim continuasse presa no passado, esperando o pior o tempo inteiro.
Guardo o celular e volto a caminhar, contudo dessa vez existe algo diferente misturado ao medo constante.
Uma possibilidade e uma pequena chance de conseguir construir alguma coisa real.
E, depois de tanto tempo apenas sobrevivendo, a ideia parece assustadora quase na mesma medida que parece bonita.







